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E quem salvará Israel de Israel?

por Amálgama (12/01/2009)

Mark LeVine, no site da Al-Jazeera / 12 de janeiro                     Uma a uma, caem por terra as justificativas que Israel ofereceu para essa sua mais recente guerra contra Gaza. O argumento de que seria guerra puramente de defesa, que só teria sido desencadeada depois que […]

Mark LeVine, no site da Al-Jazeera / 12 de janeiro

 
Soldado israelense [foto: GALLO/GETTY]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma a uma, caem por terra as justificativas que Israel ofereceu para essa sua mais recente guerra contra Gaza.

O argumento de que seria guerra puramente de defesa, que só teria sido desencadeada depois que o Hamas violou um cessar-fogo de seis meses, já foi desmentido, não só por observadores como Jimmy Carter, o ex-presidente dos EUA que ajudou a construir a trégua, mas também por especialistas de diversos institutos e think tanks israelenses de centro-direita.

O Intelligence and Terrorism Information Center, cujo relatório de 31 de dezembro leva o título de “Relatório de Inteligência dos seis meses de vigência do cessar-fogo“, confirma que a trégua acertada dia 19 de junho “foi violada, apenas esporadicamente, não pelo Hamas, mas por organizações terroristas”. E prossegue: “a escalada [da violência] e a erosão do acordo de cessar-fogo” ocorreu depois que Israel assassinou seis membros do Hamas, dia 4/11, sem qualquer provocação e, no dia seguinte, impôs um bloqueio ainda mais rígido do que o bloqueio já então vigente em toda a Faixa de Gaza.

Conforme estudo conjunto feito pela Universidade de Tel Aviv e pela European University, esse é o padrão segundo o qual a violência do exército israelense já foi responsável pela interrupção ou violação de 79% de todos as tréguas firmadas na região desde a II Intifada; o mesmo estudo constatou que o Hamas e outros partidos palestinos só podem ser declarados responsáveis por 8% das violações e interrupções.

De fato, até a ministra das Relações Exteriores de Israel já parece estar percebendo que esse argumento perdeu credibilidade.

Em entrevista com 12 professores pró-Israel, na terça-feira, Asaf Shariv, cônsul geral de Israel em Nova York, só comentou a importância de Israel destruir a intrincada rede de túneis que ligam Gaza ao Sinai. Repetiu várias vezes que os túneis “têm o tamanho dos túneis Holland e Lincoln”; como “prova”, apresentou o “fato” de que leões e macacos haviam sido contrabandeados pelos túneis, para um zoológico em Gaza. A única verdade que há aí é que dois filhotes de leão, sedados e escondidos numa sacola foram levados por um túnel e entregues numa residência particular (no Egito).

 
A auto-imagem de Israel
Também o argumento de que o Hamas jamais aceitou a existência de Israel é vicioso. Esta semana, em entrevista publicada no Los Angeles Times, líderes do Hamas anunciaram explicitamente que o partido planeja fazer exatamente isso, reconhecer Israel; a mesma informação pode ser obtida de qualquer jornalista ou qualquer líder político que tenha tido contato direto com representantes do Hamas.

A cada outra família que é encontrada morta, soterrada em escombros de prédios residenciais em Gaza, a versão de que o exército de Israel cuidou atentamente de não atingir civis – peça-chave da imagem de Israel como democracia civilizada e moral – também já ruiu.

Qualquer pessoa, em todo o mundo, que digitar “Gaza humanitarian catastrophe” no Google e ler as milhares de páginas publicadas pelo setor da ONU responsável pela coordenação da assistência e acompanhamento da assistência humanitária nos Territórios Ocupados da Palestina, encontrará abundante documentação sobre a realidade da vida em Gaza e sobre o longo bloqueio imposto aos civis, em Gaza, nas semanas e meses que antecederam aos ataques militares.

A Cruz Vermelha, normalmente muito tímida nas críticas que envolvam partidos políticos e escrupulosa nas avaliações, criticou abertamente Israel por impedir que os feridos palestinos recebessem atendimento médico e por impedir, também, a circulação de médicos e paramédicos, em contexto em que havia feridos e crianças presos em casa, sem alimentação e remédios, ao lado de cadáveres de familiares, fato que foi noticiado em matéria já várias vezes reprisada, até pela rede CNN, para todo o mundo.

Além disso, a ONU desmentiu todas as declarações do exército de Israel, para o qual haveria combatentes palestinos escondidos na escola mantida pela ONU no campo de refugiados que Israel bombardeou no dia 6 de janeiro, operação na qual foram assassinados 40 civis. A ONU, na mesma ocasião, desafiou o exército a provar suas alegações, o que até hoje o exército de Israel não fez.

 
Crimes de guerra já admitidos
Várias, inúmeras respostas, que têm sido dadas por políticos e generais israelenses à imprensa internacional, também por Tzipi Livni, ministra das Relações Exteriores, em que não se vê nenhuma diferenciação entre civis, instituições e combatentes – “o Hamas [não faz ou não é]… e nós [não somos ou não fazemos]”, como Livni repete sempre – são definidas, em termos jurídicos rigorosos, como admissão de crimes de guerra.

Se se revisam todas as declarações dos militares e estrategistas de guerra israelenses no período anterior à invasão de Gaza, contam-se às centenas as vezes em que declaram a intenção de atacar a infra-estrutura da organização civil de Gaza; portanto, a intenção de não poupar a população civil. A fala abaixo é parte de uma entrevista concedida pelo major-general Gadi Eisenkot, publicada no jornal Yedioth Ahronoth em outubro:

Usaremos força massiva, não proporcional, contra cada vilarejo do qual se dispare contra território de Israel; causaremos dano e destruição máximos. De nosso ponto de vista, [cada vilarejo] será considerado uma base militar. Não estou sugerindo nada. Estou falando de um plano de ataque já autorizado.

Nessa entrevista, o general ameaça o Líbano, o que nada altera no argumento. A íntegra da entrevista pode ser lida aqui.

Causar “dano e destruição máximos” e atacar vilarejos “considerados” bases militares são práticas absolutamente proibidas pela legislação internacional.

As palavras de Eisenkot sobre plano de ataque, consideradas à luz do que hoje se vê acontecer em Gaza, é completa e claramente admissão de conspiração e intenção de cometer crimes de guerra. As mesmas palavras, somadas aos comentários acima e a inúmeros outros, dos quais há abundantes evidências, diariamente, na imprensa e na televisão, tornam inacreditáveis (e portanto evidencia como mentirosos) todos os argumentos que Israel apresente agora, de que teria tentado proteger a população civil de Gaza e de que não estaria praticando atos de excessiva violência.

 
Legislação internacional violada
Consideradas as evidências da campanha militar e dos ataques contra Gaza, há muitas outras provas de que Israel sistematicamente viola muitas leis internacionais, inclusive, mas não só, o artigo 56 da IV Convenção de Haia de 1907, o Primeiro Protocolo Adicional da Convenção de Genebra, a IV Convenção de Genebra (mais conhecida como “Convenção de Genebra sobre proteção às populações civis em tempo de guerra”, de 12/8/1949), a Convenção Internacional Sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, e os princípios que regem o Direito Internacional Humanitário Consuetudinário.

Nada disso, evidentemente, dá legitimidade ao lançamento de foguetes e morteiros, por qualquer grupo palestino, contra alvos não-militares e civis.

Nas palavras de Richard Falk, enviado especial da ONU, em seu mais recente relatório sobre a situação em Gaza:

Deve-se registrar explicitadamente que não há qualquer justificativa legal ou moral para o lançamento de foguetes contra alvos civis, e que essas práticas configuram violação dos direitos humanos, agridem o direito à vida e também configuram crime de guerra.

Pelo mesmo argumento, Israel não pode atacar populações civis, nem pode usar outros ataques ilegais como pretexto para bombardeios massivos contra toda a população civil habitante de Gaza. No contexto do que se vê acontecer em Gaza, os números de mortos e feridos dos dois lados têm de ser analisados sob critérios mais equilibrados. Dada a desmedida violência dos ataques de Israel a Gaza, os números nada significam no que sejam “pequenos números” (porque se trata de vidas humanas) e nada significam no que sejam “grandes números”, senão para concluir que todos os números que contem mortos são inadmissíveis e não podem ser usados como argumento para provocar mais mortes.

 
Estado terrorista
Comentaristas e intelectuais que se auto-apresentam como sionistas “leais”, que se orgulham de ter servido o exército em outras guerras, já qualificam o Estado de Israel, hoje, nas palavras do professor Avi Shlaim, da Oxford University, como “Estado terrorista” e “Estado gângster, entregue a políticos completamente inescrupulosos” (citados em The Guardian).

Neve Gordon, professor de política na Universidade Ben Gurion, disse que as ações de Israel contra Gaza são “como matar animais num abatedouro” e manifestam “mais um novo bizarro elemento amoral” nas guerras.

“Calaram à força todas as vozes da contenção moral. Hoje, tudo é permitido” contra os palestinos, escreveu, amargurado, Gideon Levy, colunista do Haaretz.

Amira Haas, também colunista do Haaretz e filha de sobreviventes do holocausto, escreveu sobre a tristeza que seus pais (já falecidos) sentiam pelo modo como os líderes políticos de Israel justificavam as guerras que Israel jamais parou de fazer, com “linguagem de máquina de lavar roupa”, para reinventar a realidade, já sem qualquer consideração moral. “Sorte que meus pais já não estejam vivos e não precisem ver a Israel de hoje”, escreveu ela.

Em todo o mundo já surgem vozes que comparam os ataques israelenses a Gaza – a qual, depois da retirada do exército e dos colonos israelenses em 2005, foi convertida na maior prisão do mundo – ao ataque aos judeus no levante do gueto de Varsóvia.

Extremistas muçulmanos organizam-se para promover ações em todo o mundo contra judeus, consequência alucinada, mas direta, da violência também alucinada dos ataques dos israelenses contra a população de Gaza.

Também a Al-Qaeda tenta beneficiar-se da violência dos israelenses, para pôr um pé em Gaza e nos campos de refugiados no Líbano e na Síria. A violência do exército israelense desperta, por todo o planeta, outras forças de violência, igualmente bárbaras.

A atitude do Irã, de desafiar tanto Israel quanto seu principal patrocinador-aliado, os EUA, vai aos poucos, dia a dia, conquistando simpatias.

 
A erosão dos valores democráticos
A violência continua a desgastar tanto os valores democráticos dentro da sociedade israelense, quanto, fora dela, a compreensão de que o Estado de Israel é um Estado legítimo. Aos olhos dos palestinos já é quase impossível convencer alguém da legitimidade de um Estado que pratica (e não se envergonha de praticar) os atos de barbárie que se vêem nas ruas de Gaza, hoje.

Nos EUA – pelo menos em Washington e nos centros principais das organizações que reúnem judeus – prossegue o coro inabalável do apoio à guerra contra a Palestina, em monocórdica repetição das declarações oficiais do governo de Israel, todos aparentemente surdos ao fato de que soam tão disparatados, tão fora de tom, tão distantes, de fato, da realidade do mundo que se movimenta à volta deles.

Na universidade onde trabalho, na qual, ano passado, alunos judeus e muçulmanos organizaram uma viagem onde, juntos e em perfeita harmonia, percorreram Israel e os territórios ocupados e viram juntos a mesma realidade, a única que havia para ver, já começam a ressurgir as velhas linhas de divisão, os velhos eternos preconceitos.

O grupo The Anteaters for Israel, que reúne os alunos pró-Israel da Universidade da Califórnia, Irvine, distribuiu mensagem de e-mail urgente para toda a comunidade, “informando” que, “Nas últimas semanas surgiram muitas provas que nos convencem de que o Hamas é responsável pela crise humanitária em Gaza”.

Não tenho idéia de quem seja esse “nós”, mas manifestos desse tipo só surgem em momentos em que os manifestantes vêem desaparecer a própria base de apoio.

Verdade é que, cada dia mais, a cada nova declaração de propaganda que é desmentida pelos fatos, mais e mais norte-americanos, inclusive os judeus religiosos, desconfiam de tudo quanto lêem ou ouvem, enunciado pelos líderes políticos israelenses ou judeu-norte-americanos.

 
A armadilha
No mundo árabe e no mundo muçulmano, as horrendas imagens que vêm diariamente de Gaza têm levado pregadores fundamentalistas e políticos fundamentalistas ou oportunistas a requentar estereótipos velhos, mas ainda perigosos porque incitam o ódio contra judeus, em comícios contra Israel e contra o governo de Israel.

O que mais assusta é ver que os mais importantes assim chamados “amigos de Israel”, o establishment político dos EUA e as lideranças judias hegemônicas parecem não ter qualquer informação objetiva que lhes permita avaliar a extensão da armadilha que Israel está construindo para o próprio país – em grande medida pela indulgência e muita vezes com a ajuda dos mesmos ditos amigos e das mesmas ditas lideranças.

A armadilha a que Israel está autocondenando-se ameaça muito mais diretamente a existência do País que os foguetes Qassam e seus 0,4% de efetividade como arma de guerra; muito mais do que a desastrada invasão ao sul do Líbano em 2006, a qual, por ter debilitado muito o prestígio de Israel como exército de contenção na região, em boa medida é a causa da Guerra de Gaza e tornou-a quase inevitável.

Primeiro, está evidentemente claro que Israel não conseguirá destruir o Hamas, nem conseguirá fazer parar os foguetes, a menos que aceite uma trégua que, para ser efetiva, terá de atender a principal exigência do Hamas – o fim do bloqueio de Gaza.

Em todos os casos, apenas por manter-se vivo (e não pode haver dúvida de que sairá vivo dessa guerra), o Hamas, como o Hezbolá em 2006, terá vencido Israel. Israel conseguirá, no máximo, criar mais uma geração de palestinos cujos corações, feridos fundo demais, só saberão reagir movidos por ódio e por desejo de vingança.

Segundo, o principal patrocinador de Israel, os EUA, e as autocracias e monarquias conservadoras árabes que são os últimos aliados que restam aos EUA no mundo muçulmano, estão perdendo rapidamente os últimos farrapos de legitimidade que ainda tivessem, consideradas as inclinações das populações mais jovens, jamais democratizadas e cada dia mais iradas.

Quanto mais fragilizados estejam os EUA e seu eixo, no Oriente Médio, mais precária a situação de Israel, em termos de segurança, no longo prazo.

De fato, Israel enterrou, em Gaza, qualquer probabilidade de os EUA conseguirem convencer o mundo muçulmano a pressionar o Irã para que desista de construir armas nucleares. Esse é o significado político da fala de Khaled Mashall, que disse que “Gaza será o cemitério de Israel”.

Terceiro, quando Israel chacina palestinos, chacina seu próprio povo. É impossível pretender ocupar e, ao mesmo tempo, engajar-se em ações de massacre contra a população autóctone, sem, ao mesmo tempo, horrorizar, e portanto enfraquecer, também a alma dos ocupantes.

A alta ocorrência de crimes violentos praticados, nos EUA, por veteranos que voltaram do Iraque é apenas um dos muitos exemplos macabros de quanto e como a violência da ocupação e da guerra corrói a alma moral de todos.

E isso sem esquecer que, nos EUA, apenas uma pequena fração da população está diretamente envolvida na guerra; em Israel, todos os homens e todas as mulheres estão, de um modo ou de outro, diretamente envolvidos em atividades militares relacionadas à ocupação.

É imensurável o efeito que terá, na alma coletiva dos israelenses, a mais recente barbárie perpetrada contra os palestinos. A noção de que Israel possa sobreviver como “etnocracia” – com explícito favorecimento de um grupo étnico, os judeus – e, ao mesmo tempo, como Estado democrático, já é, hoje, ficção.

 
Violência-como-poder
E quem salvará Israel de Israel? Os israelenses são visivelmente incapazes de fazê-lo. A perversão da sociedade israelense, corrompida pela ilusão de que a violência pode ser meio para legitimar algum poder, já alcançou o nível de patologia social, de loucura.

Como escreveu Yossi Melman, repórter do jornal Haaretz, dia 10 de janeiro, “Israel criou para ela mesma a imagem de um louco que perdeu a própria imagem”.

Tampouco Israel será salva pelos palestinos, muitos dos quais padecem da mesma loucura.

Tampouco Israel será salva pelo “Quarteto” do Oriente Médio, nem pela União Européia, nem pela ONU ou pela Liga Árabe, entidades que, nem separadas nem unidas têm meios para influenciar as políticas do exército israelense.

Tampouco Israel será salva pelas lideranças judias organizadas nos EUA ou na Europa, ainda mais cegas para o que está acontecendo que a opinião pública em Israel que, pelo menos, ouve algum debate interno sobre as políticas implementadas pelos governo de Israel.

Tampouco Israel será salva pela crescente comunidade de judeus progressistas, que ainda precisarão de décadas de lutas para acumular prestígio social e político que lhes dê instrumentos para desafiar o status quo.

Tampouco Israel será salva pelos velhos políticos e estrategistas políticos dos EUA, porque em nenhum caso arriscarão perder os votos dos eleitores judeus, ou porque já sofreram completa lavagem cerebral ante a gigantesca barreira de propaganda imposta pelo “lobby pró-Israel”, e são completamente incapazes de construir qualquer pensamento independente e produtivo sobre o conflito de Gaza ou sobre qualquer outro assunto.

Durante a campanha eleitoral, Barack Obama foi ridicularizado porque exibiria traços messiânicos. Hoje, a idéia já parece menos ridícula.

De fato, só resta Obama, hoje, se ainda há alguém que possa tentar salvar Israel, os palestinos e o mundo de mais quatro anos de loucura completa e completamente sem sentido.

 
* Mark LeVine é professor de História do Oriente Médio na Universidade da Califórnia, Irvine. É autor, entre outros, de An impossible peace: Israel/Palestine since 1989 (no prelo). Tradução do artigo: Caia Fittipaldi.

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