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Fawaz A. Gerges, na The Nation / 16 de janeiro Acabo de voltar do Oriente Médio e vi o quanto a agressão de Israel a Gaza está radicalizando a opinião dominante no mundo muçulmano. Mostradas repetidamente em todas as redes de televisão árabes e muçulmanas, as cenas da matança de civis está incendiando o ódio […]

Fawaz A. Gerges, na The Nation / 16 de janeiro

Acabo de voltar do Oriente Médio e vi o quanto a agressão de Israel a Gaza está radicalizando a opinião dominante no mundo muçulmano. Mostradas repetidamente em todas as redes de televisão árabes e muçulmanas, as cenas da matança de civis está incendiando o ódio contra EUA e Israel, vistos numa relação de dependência. Isso, entre as vozes moderadas, nos grupos dominantes, que, antes, acreditavam na possibilidade de coexistência com o Estado judeu. Hoje, também essas vozes já questionam as próprias posições e levantam dúvidas quanto a ainda haver possibilidade de alguma futura integração pacífica de Israel na região.

Muito acadêmicos, sejam muçulmanos ou árabes, que eram muito críticos das ações do Hamas, soam hoje mais amargos com o que descrevem como “conduta bárbara” dos israelenses contra palestinos civis desarmados, mulheres e crianças.

Ninguém, com quem eu tenha falado, acredita na narrativa da propaganda de Israel, de que a guerra seria contra o Hamas, não contra os palestinos. Há consenso praticamente absoluto entre árabes e muçulmanos de que Israel massacra os palestinos como plano para levá-los a levantarem-se contra o Hamas, como Israel tentou fazer no Líbano, para levantar a população contra o Hezbolá no verão de 2006. O Hezbolá soube esperar que a tempestade israelense passasse e reapareceu, já vacinado, para converter-se na mais poderosa instituição política que há hoje no Líbano; assim, desconstituiu o poder “de contenção” de Israel, minou nas bases o projeto político dos EUA no Oriente Médio e expandiu o campo de influência do Irã, principal esteio do Hezbolá na região.

Nas minhas viagens recentes, tem-me chamado a atenção o quanto está disseminado, nas bases e movimentos populares, o apoio ao Hamas – de colegas universitários a lojistas, operários de construção, mecânicos, e muitos intelectuais. Poucos atrevem-se a criticá-lo e muitos dizem-se assombrados pela capacidade de luta e de resistência dos combatentes armados. A resistência que ainda havia ao Hamas foi efetivamente silenciada, agora, depois do massacre de Gaza, que também legitima politicamente o movimento de resistência armada aos olhos dos muitos palestinos e muçulmanos antes céticos ou desesperançados.

Independente de como essa guerra termine, o Hamas, muito provavelmente, emergirá como poderosa força política, ainda mais do que antes; e deslocará o Fatah, apesar do aparelho administrativo de Máhmude Abbas, presidente da Autoridade Palestina.

“Ninguém mais se atreverá, daqui por diante, a contestar o direito democrático que o Hamas tem, como manifestação de uma opção política, eleitoral, dos palestinos”, disse-me um professor da American University, em Beirute, 30 anos, militante de esquerda. Perguntei por quê. “Porque a resistência islâmica conquistou, por sua luta de resistência à barbárie, o direito de sentar à mesa das negociações políticas”, respondeu ele.

O que o exército israelense e seus aliados norte-americanos não admitem é que o Hamas não seja uma “simples” milícia armada; que seja um legítimo movimento social, com ampla base de apoio popular, profundamente enraizado na sociedade da Palestina. Não é possível arrasar o Hamas sem, ao mesmo tempo, massacrar milhões de eleitores. Se Israel conseguir matar os líderes políticos, outros aparecerão, provavelmente mais radicais do que os que há hoje, e os substituirão. O Hamas é um fato da vida. Não há como apagá-lo e eles não se renderão em nenhum caso, por maior que seja o número de combatentes mortos.

Ainda mais claramente do que se viu acontecer na guerra contra o Hezbolá, o assalto israelense contra Gaza minou qualquer legitimidade eleitoral e qualquer representatividade pró-ocidental dos regimes governantes no Egito, na Jordânia e na Arábia Saudita, aos olhos dos cidadãos eleitores. Eles têm sido consistentemente acusados de colusão com o inimigo, contra companheiros de mesma fé. O Egito, que tem uma fronteira com Gaza, está recebendo toda a fúria dos muçulmanos, em todo o mundo. Há protestos contra embaixadas do Egito em vários países; em todos os casos, exigem que Hosni Mubarak abra a fronteira de Gaza, para aliviar o sofrimento dos palestinos cercados e bombardeados.

Muitos egípcios falam em “ultraje”, pela posição de Mubarak. Dizem que o maior país do mundo árabe está convertido em caldeirão, com a população em ebulição: que o conflito em Gaza deixou à vista o abismo que separa o governo egípcio da população – o que é mais grave, se se considera que as condições socioeconômicas pioram dia a dia –, e que tudo isso pode ter repercussões internas graves e levar à instabilidade política. Embora não se possa ver qualquer risco de revolta social no Egito, os militares são enigma absoluto; ninguém sabe o que sente a jovem oficialidade egípcia, considerada a aversão que a atitude de Mubarak, na chacina de Gaza, despertou na população.

Basta dizer, para que se possa avaliar o quadro, que os estados árabes considerados “moderados” estão também na defensiva, e que a frente de resistência liderada por Irã e Síria é, hoje, a principal beneficiária dessa situação. Mais uma vez, Israel e o governo Bush facilitaram a vida de Ahmadinejad e ofereceram-lhe uma doce vitória.

Osama bin Laden, da Al Qaeda, tentou instilar ainda mais medo na região, conclamando os muçulmanos a lançar uma jihad contra Israel e condenando os líderes árabes pró-ocidente como colaboracionistas em conluio com o Estado judeu. Em fita distribuída com a clara intenção de se aproveitar do ataque à Palestina, bin Laden ameaçou que sua organização abriria “novas frentes” contra os EUA e seus parceiros, Iraque e Afeganistão.

Ele sabe que a questão da Palestina ecoa muito mais forte e amplamente entre os árabes e os muçulmanos, que os conflitos nos outros dois países.

Os líderes israelenses insistem em investir na idéia, já desacreditada, de que possa haver solução militar para o dilema da segurança israelense. Embora o Estado judeu seja militarmente superior aos seus vizinhos árabes, não conseguiu nem quebrar a espinha dorsal política dos seus adversários nem criar condições estáveis de paz e estabilidade a longo prazo.

De fato, a agressão brutal e desproporcional contra o Líbano em 2006 e, agora, em Gaza, mostra claramente o fracasso do poder de contenção de Israel, e implica dano muito grave ao lugar moral que o país aspira a ocupar na comunidade internacional. A matança indiscriminada de número imenso de palestinos e árabes não fará aumentar a segurança de Israel e aprofundará o perigoso ódio que o cerca, seja vindo dos árabes seja, mesmo, vindo dos cristãos árabes e dos muçulmanos em todo o mundo. Se não for contido, o ataque a Gaza minará quaisquer possibilidades de sucesso da “solução dos dois Estados”, por melhores que sejam as intenções políticas.

Obama avalia que o tempo é fator crucial. Depois de ter-se mantido à distância do ataque israelense, deu sinais de “exigir” paz no Oriente Médio; e já disse que fará contato com o Irã, em busca de outro tipo de política. Disse que está montando uma equipe de modo que “no primeiro dia teremos reunido a melhor equipe possível para nos engajar imediatamente no processo de paz no Oriente Médio como um todo”. A equipe “estará em contato com todos os atores, para que ambos os lados, israelenses e palestinos, consigam o que aspiram”, disse Obama.

Isso quer, para sua segurança, que o Hamas detenha os Qassam, o que, por sua vez, implica contato diplomático e político com o Hamas; e implica o fim da ocupação, por Israel, da Cisjordânia e de Gaza, e a criação de um Estado da Palestina, completamente independente, com capital em Jerusalém Leste.

 
* Fawaz A. Gerges é professor de Estudos do Oriente Médio e Relações Internacionais no Sarah Lawrence College. Seus livros mais recentes são Journey of the Jihadist: Inside Muslim Militancy e The Far Enemy: Why Jihad Went Global. Tradução do artigo: Caia Fittipaldi.

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