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Por onde ando, sempre as mesmas velhas idéias sobre o Oriente Médio

por Amálgama (10/01/2009)

Robert Fisk, no The Independent (10 de janeiro) Tudo depende de onde você mora. A geografia da propaganda de Israel foi inventada para demonstrar que os frouxos – os liberaizinhos que vivem nas nossas cidades seguras, ocidentais – não entendem o horror dos 12 (já agora 20) mortes de israelenses em dez anos, os milhares […]

Robert Fisk, no The Independent (10 de janeiro)

Tudo depende de onde você mora. A geografia da propaganda de Israel foi inventada para demonstrar que os frouxos – os liberaizinhos que vivem nas nossas cidades seguras, ocidentais – não entendem o horror dos 12 (já agora 20) mortes de israelenses em dez anos, os milhares de Qassams e o inimaginável trauma e o stress de morar perto de Gaza. Esqueçam os palestinos assassinados.

Viajar pelos dois lados do Atlântico nas últimas semanas tem sido experiência instrutiva (para não dizer estranhamente repetitiva).

Então lhes conto. Eu estava em Toronto. Abri o National Post, jornal de direita, e dei com Lorne Gunter tentando explicar aos leitores como é viver sob ataque dos foguetes palestinos. “Imagine que você mora em Don Mills, subúrbio de Toronto,” escreve Gunter, “e o pessoal de Scarborough – a dez quilômetros dali – dispara praticamente 100 foguetes por dia no seu quintal, na escola dos seus filhos, no supermercado, no consultório do seu dentista…”

Entenderam? Claro que o pessoal de Scarborough é pobre, imigrantes recém chegados – muitos do Afeganistão – , e o pessoal de Don Mills é de classe média, muitos muçulmanos. E, até aí, sem falar em cortar a facão a sociedade multicultural do Canadá, para explicar que Israel tem toda a razão quando massacra os palestinos em resposta aos foguetes.

Depois, já em Montreal, passo os olhos no jornal La Presse, em francês, de dois dias antes. E, claro, lá está matéria assinada por 16 destacados intelectuais pró-Israel, escritores, economistas, professores, na labuta para explicar como é viver sob ataque dos foguetes palestinos. “Imagine por um instante que as crianças de Longueil vivam sob permanente terror, dia e noite, que as lojas, os escritórios, hospitais, escolas sejam alvo permanente de terroristas que vivam em Brossard.” Longueil, claro, é uma comunidade de imigrantes muçulmanos negros, afegãos, iranianos. Fiquei sem saber quem seriam os “terroristas” de Brossard.

Mais dois dias, estou em Dublin. Abro o The Irish Times e lá está uma carta do embaixador de Israel na Irlanda, dedicado a explicar ao povo da República da Irlanda como é viver sob ataque dos foguetes palestinos. Já adivinharam? Acertaram. “O que vocês fariam”, Zion Evrony pergunta aos leitores, “se Dublin vivesse sob bombardeio de 8.000 foguetes e morteiros…” E por aí a coisa vai.

Desnecessário dizer que nenhum dos supracitados jamais pergunta como alguém se sentiria se morasse em Don Mills ou Brossard ou Dublin e vivesse sob ataque massivo, eterno, incansável de jatos supersônicos, tanques Merkava e milhares de soldados cujas bombas e mísseis destroçam em pedaços 40 mulheres e crianças à frente de uma escola, assassinam famílias inteiras que dormem em suas próprias camas e que, em uma semana, mataram 200 civis e fizeram 600 feridos.

Na Irlanda, minha explicação preferida para o banho de sangue veio de meu velho conhecido, Kevin Myers. “As mortes em Gaza são, é claro, chocantes, horríveis, indizíveis”, chora ele. “Embora nada de compare às mortes que haveria em Israel, se se deixasse o Hamas fazer o que quisesse.” Entenderam? A chacina de Gaza justifica-se, porque o Hamas, se pudesse, faria coisa pior… mesmo que não faça porque não pode.

Mas foi Fintan O’Toole, filósofo-em-chefe residente do The Irish Times, quem afinal disse o indizível. “Quando expirará o mandato do vitimismo?”, perguntou ele. “Quando, afinal, o genocídio nazista dos judeus da Europa deixará de servir de desculpa para livrar o Estado de Israel das barras dos tribunais internacionais e das leis regulares da humanidade?”

(…)

Terminei a semana num daqueles debates do Serviço Internacional da BBC, com um sujeito do The Jerusalem Post, outro da rede al-Jazeera, um intelectual inglês e um Fisk. Dançamos a valsa de sempre em torno da catástrofe de Gaza. Foi eu dizer que é grotesco comparar os 600 palestinos mortos aos 20 mortos israelenses perto de Gaza em dez anos, e os presentes pró-Israel puseram-se a me linchar por sugerir (o que eu não fiz) que só haviam morrido 20 israelenses em todo o território de Israel em dez anos. Claro que morreram centenas de israelenses fora de Gaza em dez anos – mas no mesmo período morreram milhares de palestinos.

Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado, e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga “argumentou” que “o exército israelense não é Hitler”. Claro que não. Eu não disse que é. Aqueles jornalistas, sim, é que temem que seja.

* tradução: Caia Fittipaldi

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