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Quem salvará os palestinos?

por Amálgama (20/01/2009)

Mark LeVine, no site da Al-Jazeera / 19 de janeiro Era uma tarde quente de setembro de 2008 em Gaza, e eu estava na redação de um jornal aliado do Hamas, conversando com um importante intelectual, quadro da alta coordenação do Hamas. Enquanto a equipe de jornalistas franceses que me haviam dado uma carona de […]

Mark LeVine, no site da Al-Jazeera / 19 de janeiro

Era uma tarde quente de setembro de 2008 em Gaza, e eu estava na redação de um jornal aliado do Hamas, conversando com um importante intelectual, quadro da alta coordenação do Hamas.

Enquanto a equipe de jornalistas franceses que me haviam dado uma carona de Jerusalém montava as câmeras, aproveitei para conversar um pouco sobre os últimos acontecimentos em Gaza, e fazer uma pergunta que me atormentava há bastante tempo.

Off the record, aqui entre nós, deixemos de lado a questão de se os palestinos têm ou não direito moral ou legal de usar meios violentos contra civis, na resistência contra a ocupação. O problema, aqui, é que a violência não funciona”, comecei.

(…) A resposta que ouvi surpreendeu-me pela franqueza e confundiu-me pelas muitas implicações.

“Nós sabemos que a violência não funciona, mas não sabemos como fazê-la parar”, respondeu o meu interlocutor.

 
Faltam idéias políticas
O Hamas começou a aparecer cada vez mais como força política alternativa na Palestina quando a intifada Al-Aqsa já havia entrado no segundo ano; e quando a Autoridade Palestina controlada pelo Fatah já havia evidenciado que não seria capaz nem de governar com eficácia as pequenas partes dos Territórios Ocupados em que estava implantada, nem de resistir à ocupação.

Na época, o pensamento mais avançado que havia no Hamas não tinha nenhuma idéia organizada sobre o que fazer, exceto prosseguir na estratégia que muitos de seus líderes já haviam entendido que não estava funcionando, em relação, pelo menos, às questões de fundo nas quais o movimento estava envolvido – como impedir que Israel continuasse a expandir a ocupação e como negociar um tratado de paz que assegurasse a independência da Palestina.

Pouco antes daquele momento, a falta de criatividade política do Hamas não teria influenciado decisivamente o contexto da política na Palestina – e as pesquisas raramente mostravam índices superiores a 20% de popularidade do Hamas.

Contudo, em 2002, sem que houvesse à vista qualquer tipo de negociação de paz, já destruídas as regiões e as cidades de Nablus e Jenin, por exemplo; e com Israel semeando o caos em toda a Cisjordânia e, assim, destruindo as bases de governo da Autoridade Palestina, o prestígio do Hamas começou a crescer rapidamente.

Mas, além de saber construir foguetes artesanais e reuni-los em arsenais precários, o Hamas não tinha, então, qualquer idéia nova.

 
Uma história de fracassos políticos
Não havia, em 2002, qualquer alternativa estratégica a opor à violência – nem para o Hamas nem para qualquer outro movimento palestino, como já não houvera no século recém-acabado.

Primeiro, foi um Estado otomano, que se fez de cego ante os judeus que compravam terras de proprietários locais (mesmo que poucos deles tivessem laços tradicionais na região), terras em muitos casos secularmente arrendadas a pequenos agricultores palestinos e que foram vendidas a preços irrisórios aos sionistas; ou ante os figurões palestinos urbanos que não tinham interesse em apoiar qualquer movimento democrático ou em implantar melhores condições para os trabalhadores; e Estado otomano que também se fez de cego ante a grande parte da elite palestina que desapareceu do país nos meses finais do “Mandato” inglês. Fato é que, nessa fase formativa crucial da sociedade palestina, os cidadãos não tiveram nem liderança política nem liderança econômica que, de forma consistente, pusesse ou, no mínimo, tentasse pôr quaisquer considerações nacionais à frente de seus mais mesquinhos interesses políticos, clânicos, de facção, econômicos ou pessoais.

Os britânicos, que conquistaram a Palestina em 1917, implantaram um Mandato cuja única inspiração era apoiar o projeto nacional sionista, e que, no máximo, limitou-se a “salvaguardar” alguns direitos civis e religiosos dos habitantes palestinos autóctones.

Qualquer iniciativa que visasse a estimular o desenvolvimento de instituições políticas fortes e independentes na Palestina, teria interrompido ou, no mínimo, dificultado a criação de um Estado nacional judeu. E assim, à boa velha moda colonial, os britânicos reforçaram as tendências mais conservadoras (e corruptas) que encontraram na sociedade palestinense – ao mesmo tempo em que, sistematicamente, faziam abortar a emergência de qualquer liderança nacional capaz e democraticamente constituída.

Quando a inevitável guerra civil eclodiu, em 1948, a fragilidade social, política e econômica da sociedade palestina (praticamente todos os líderes haviam sido exilados em 1939) – somada à oposição, pelos árabes vizinhos, à constituição de um Estado Palestino independente (vizinhos que invadiram a Palestina, sob o pretexto de apoiar a resistência contra os sionistas) – tornou possível uma aparentemente improvável vitória dos sionistas e israelenses.

Depois de 1948, muito menos possibilidade havia para o desenvolvimento político da Palestina, com Gaza e a Cisjordânia sob mando de Egito e Jordânia, mesmo depois de constituída a Organização de Libertação da Palestina, OLP, em 1964.

 
A I intifada
Depois de 1967, Israel imediatamente começou a trabalhar para frustrar a emergência de uma base da OLP, o que ameaçaria o seu controle sobre os Territórios Ocupados. Mesmo assim, não pôde impedir o desenvolvimento da sofisticada e complexa sociedade civil e das redes sociais que levaram aos sucessos iniciais da intifada que irrompeu no final de 1987.

A intifada foi bem-sucedida, em boa medida, por ação de base social de massa e por ter-se focado em protestos não-violentos (movimentos para não pagar impostos, greves do comércio e bloqueio de estradas).

Embora poderosos pela violência simbólica, os movimentos de jovens jogando pedras contra os tanques “Golias” do exército israelense não foram suficientes para contrabalançar a indiscutível superioridade militar de Israel e a disposição para usar força indiscriminada. Isso, combinado com as prisões por longo tempo de milhares de palestinos, conseguiu corroer a própria sociedade; e a força da intifada já estava muito profundamente minada quando começou a Guerra do Golfo, em 1991.

Nem a declarada renúncia ao terrorismo, pela OLP, em 1988, nem a emergência do Hamas, que surgiu no início daquele ano, conseguiram alterar essa dinâmica.

O importante é que Israel percebera, bem claramente, a real ameaça que poderia vir do ativismo palestino local contra seu projeto de controlar os Territórios Ocupados.

 
A sociedade civil ficou à margem
O “desvio” de Oslo foi buscado, em larga medida, para deixar à margem a sociedade civil palestina e os negociadores que tinham raízes locais, aqueles que conduziram os encontros de paz de Madri, no início da Guerra do Golfo.

A Autoridade Palestina, estabelecida nos primeiros dias dos acordos de Oslo, era então dirigida, em larga medida, por quadros da OLP de Túnis, sem qualquer base popular nos Territórios Ocupados. Fossem quais fossem suas intenções iniciais, seus interesses mudaram rapidamente, de querer obter retirada total de Israel, para querer, mais, manter o próprio poder político recém obtido, obter acesso à riqueza e aos recursos patrocinados pelos monopólios israelenses, à ajuda internacional em grande escala e a diferentes modalidades de corrupção.

O controle que Israel passou a ter sobre a elite palestina de Olso contribuiu para que a Autoridade Palestina passasse a operar muito mais como “fiscais” (e policiais) de Israel nos Territórios Ocupados – controlando e, quando necessário, reprimindo –, do que como um governo parcialmente soberano que se interessasse por preparar a Palestina para a independência.

Toda a estrutura dos poderes legislativo e judiciário, na Palestina, poderes que poderiam ser diretamente “fiscalizados” pelos cidadãos dos territórios, foram intencionalmente marginalizados. (…)

 
Uma oportunidade, nas cinzas de Gaza?
Se há algo de positivo que se pode tirar da horrenda violência das últimas semanas, é que o show de barbárie que Israel mostrou, de violência desproporcional e indiscriminada em Gaza, revelou ao mundo a anormalidade da ocupação. Milhões de pessoas que nada sabiam sabem hoje que a ocupação da Palestina é anormal.

Essa revelação pode oferecer ao Hamas e a outras lideranças palestinas, em sentido amplo, a oportunidade para mudar todos os termos do debate sobre o futuro de Israel/Palestina.

A evidência de que a ocupação da Palestina por Israel é anormal, exposta como está hoje ao mundo, pode ajudar toda a sociedade palestina (e também a sociedade israelense, mesmo que relutantemente) a afastar-se do paradigma de dois movimentos nacionalistas em competição por território, e aproximá-los de uma pauta que vise a construir um futuro comum.

Esse processo só pode começar se israelenses e palestino converterem-se à idéia de partilhar a soberania, o território e até a identidade, de modo a obterem o maior bem para o maior número de pessoas nas duas sociedades.

Vale notar que a esquerda israelense há muito tempo defende esse programa binacional. De sua parte, a OLP também chegou bem perto disso, quando falou de “um Estado secular democrático” em toda a Palestina do Mandato, em 1969.

(…) Também quando a estratégia dos Dois Estados entrou em colapso em Camp David, em julho de 2000, havia espaço para os palestino outra vez alterarem os termos do debate (mas nem Hamás nem Fatah souberam conduzir a discussão política).

 
Mudar as regras da luta
Em janeiro de 2009, grande parte de Gaza está reduzida a ruínas; outros mais de 1.300 palestinos de Gaza estão mortos, além de no mínimo 13 israelenses.

A inutilidade da violência como estratégia para alcançar qualquer um dos objetivos centrais da sociedade palestina jamais esteve tão clara e tragicamente exposta. Também fracassou completamente a Solução dos Dois Estados que foi como que abortada já no início do processo de paz, há mais de 15 anos.

Nada faz crer que Israel apareça, depois dessa tragédia, interessado em oferecer aos palestinos um Estado territorialmente viável.

O governo Obama, que se inicia hoje, pode forçar Israel a tomar esse rumo, valendo-se do clamor universal para que resgate e salve a Solução dos Dois Estados.

Mas o mais provável é que a Solução dos Dois Estados continue tão inalcançável no futuro próximo como já foi no passado.

Nessa situação, os palestinos estão diante de uma escolha: ou continuar a jogar, por ação e reação, conforme as regras israelenses e ver sumir para sempre seus sonhos de independência, ou alterar as regras da disputa e do debate, exigindo para eles os mesmos direitos de que gozam os israelenses em toda a Palestina histórica. (…)

A estrada é longa e dolorosa, não há dúvidas quanto a isso; mas mesmo depois que se dissipem as névoas da guerra mais recente, é difícil imaginar qualquer outro caminho que possa levar a um futuro de paz para a Palestina e para Israel.

 
* Mark LeVine é professor de História do Oriente Médio na Universidade da Califórnia, Irvine. É autor de Heavy Metal Islam: Rock, Resistance, and the Struggle for the Soul of Islam e Impossible Peace: Israel/Palestine Since 1989 (no prelo). Tradução do artigo: Caia Fittipaldi.

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