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Em defesa da intervenção francesa no Mali

por Amálgama (25/01/2013)

O preço da passividade no Sahel teria sido inaceitavelmente alto

David Rohde, na Atlantic / 20 de janeiro

-- Yacouba Konate, um dos malineses que apoiam a ação francesa (Joe Penney/Reuters) --

— Yacouba Konate, um malinês que apoia a ação francesa (Joe Penney/Reuters) —

A pergunta de um colega – um cujo trabalho eu admiro – poderia ter sido feita por qualquer um nos Estados Unidos. “Então os franceses agora têm seu próprio Afeganistão?”.

A resposta é sim e não. Intervenções militares ocidentais devem ocorrer apenas como último recurso. Mas o Mali de hoje é um local legítimo para se agir.

Vários milhares de jihadistas ameaçam desestabilizar o Mali, Níger, Nigéria e Argélia. Além dos abusos de direitos humanos, seus ataques desestimularão investimentos estrangeiros, paralisarão economias locais e produzirão vastos números de refugiados. Os céticos minimizam a ameaça, mas a instabilidade que esses extremistas criam se alastram pelo tempo.

O trágico sequestro na Argélia, onde muitos reféns parecem ter morrido em uma tentativa de resgate mal executada, já está fazendo com que companhias retirem trabalhadores da região. Islamistas não podem ser ignorados e não desaparecerão. Eles devem ser enfrentados ou contidos. A questão é como.

Para assegurar que o Mali não seja outro Afeganistão, é vital que a França e a comunidade internacional tenham aliados confiáveis no terreno. Eles também devem empregar esforços diplomáticos e econômicos – não apenas força letal – contra os jihadistas.

Muitos comentaristas imediatamente rejeitaram a intervenção francesa. Alguns a denunciaram como “militarismo”. Outros a declararam “neocolonialismo”. O termo mais comum foi “atoleiro”.

Em Washington, mesmo alguns oficiais do governo Obama minimizaram a ameaça representada pelo Mali, argumentando que as tropas ocidentais podem ter piorado a situação. O isolacionismo é politicamente fácil, mas é o caminho errado. Não se deve empregar tropas americanas, mas o governo Obama deve prestar assistência logística e de inteligência para os franceses.

Perdida em meio à resposta até agora cética à intervenção está uma verdade clara. No momento, a opinião pública no Mali e na África Ocidental como um todo esmagadoramente apoia a intervenção francesa. Reportagens dão conta de que, antes da chegada dos franceses, a população de 1,8 milhão de pessoas de Bamako, capital do Mali, estava cada vez mais temerosa de que os islamistas tomariam a cidade.

“As pessoas começaram a fumar cigarros e andar de calças-compridas!”, um taxista declarou após a intervenção da França. “Elas estão jogando futebol nas ruas!”.

De um ponto de vista militar, a França tinha que agir. Mais de 8 mil cidadãos franceses vivem no Mali, muitos dos quais em Bamako. E, semana passada, grupos militantes estavam à beira de tomar um campo aéreo militar vital na cidade de Sevare. Se o campo tivesse sido tomado, teria sido muito difícil que as tropas da França ou da África Ocidental, autorizadas pela ONU, adentrassem o Mali.

Gregory Mann, um professor de história da Universidade Columbia e especialista em Mali, escreveu a melhor análise que li sobre a intervenção. A crise “precisa de uma intervenção diplomática tão urgentemente quanto precisa de uma intervenção militar”, ele argumenta.

“Os problemas de Mali se originam principalmente de fora das fronteiras do país, assim como a maioria dos jihadistas”, Mann me disse em uma mensagem de e-mail. “Será necessário uma coalizão de países para confrontá-los, e construir e manter tal coalizão deve ser a prioridade número um dos diplomatas.”

Temores de um atoleiro são compreensíveis. Os problemas que afligem o Mali em anos recentes, após décadas de estabilidade, soam familiar: corrupção governamental, tensões étnicas e separatistas, tráfico de drogas, vizinhos que se metem e instituições nacionais cada vez mais fracas, particularmente o exército.

Um esforço anterior dos EUA para treinar o exército malinês para lutar contra islamistas fracassou espetacularmente. E a intervenção francesa provavelmente desencadeará ataques retaliatórios a exemplo da tomada de reféns na Argélia. Depois do Iraque e do Afeganistão, ceticismo em relação a qualquer intervenção ocidental é bem vinda. E o histórico de intervenções da França – da Argélia ao Vietnã – é fraco. Mas os malineses estão pedindo ajuda, e um esforço da ONU para conter os militantes empacou.

Os islamistas tomaram controle do norte de Mali em uma velocidade surpreendente, estão bem organizados, altamente armados e em controle de uma área desértica do tamanho da França. Seus membros incluem militantes da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, um grupo do norte da África aliado à Al-Qaeda. No futuro, eles poderiam facilmente usar Mali como uma base para lançar ataques na França e na Europa.

Até agora, o grupo não disse que pretende empreender ataques nos Estados Unidos, mas acredita-se que membros seus estejam envolvidos no assassinato do embaixador americano na Líbia, Chris Stevens, e de três outros americanos. Eles também arrecadaram estimados 100 milhões de dólares com a tática de sequestrar ocidentais e exigir enormes resgates.

Robert Fowler, um diplomata canadense que foi sequestrado pelo grupo em 2009, disse que seus captores lhe revelaram a esperança de criar um emirado islâmico englobando a África. A ideia era espalhar caos do Atlântico ao Pacífico.

“Eles me diriam repetidamente que seu objetivo era levar o caos da Somália pelo Sahel, até a costa atlântica”, Fowler me disse em uma entrevista por telefone. “Eles acreditavam que, nesse caos, a jihad prosperaria.”

Minha perspectiva não é neutra. Quatro anos atrás, dois colegas afegãos e eu fomos sequestrados pelo Talibã e mantidos em cativeiro por sete meses no Paquistão. Eu vi diretamente sua brutalidade, ignorância e determinação.

Acredito que crescimento econômico é o melhor caminho para conter a militância, não massivas intervenções militares ocidentais. Para mim, realmente existe uma ameaça militante, não é algo fabricado. Ainda assim, costumamos declarar que não existe ameaça ou ficamos impacientes quando o problema não é solucionado rapidamente.

Meses de baixas e conflitos esperam os franceses, mas isso eles já devem saber. Soluções rápidas são ilusórias. E ilusórias são as alegações de que podemos ignorar militantes violentos. Enfrentá-los envolve uma combinação de força militar limitada, diplomacia abrangente e paciência. Nós americanos raramente mostramos essas qualidades. Eu espero que os franceses mostrem.

Amálgama

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