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O que Donald Trump realmente pensa é irrelevante. Mas é imprescindível compreender o que ele representa.

“América debilitada: Como tornar a América grande outra vez”, de Donald Trump (Citadel, 2016, 208 páginas)

Essa é a estratégia do diabo para nos pegar. Ele sempre envia ao mundo erros aos pares – pares de opostos. E sempre nos estimula a desperdiçar um tempo precioso na tentativa de adivinhar qual deles é o pior. Sabe por quê? Ele usa o fato de você abominar um deles para levá-lo aos poucos a cair no extremo oposto.
C.S. Lewis, Cristianismo puro e simples

 

1.

A madrugada já avançava sobre nossos espíritos quando o homem que acabara de espantar o mundo subia ao palco para o discurso de vitória. Naquela mesma Nova York onde anunciara sua candidatura, “The Donald” tinha vindo, visto e vencido. Os dias foram longos, as noites pareciam confusas, mas o inimigo número um do mundo liberal vencia de maneira improvável aos olhos dos “especialistas do lugar-comum” com pequenas vitórias nos lugares certos. Não era uma vitória qualquer. A sensação incrédula de todo o mundo transmitia mais o prenúncio de um terremoto ou, quem sabe, de uma trombeta avisando do caos.

Trump subia ao palco dominando as atenções. O homem que sacudirá as histórias das campanhas eleitorais, tinha agora um gestual mais tranquilo e passivo. Com o microfone em posse, agradecimentos gerais e piadas mais graciosas do que vulgares. Era o momento de passar depois de abrir seu espaço com tapas e pontapés. Quando lançou sua campanha, ele fez questão de demarcar seu território no domínio do imaginário com o seu slogan sobre a “Grande América” novamente. Ao fazer propostas viáveis e inviáveis, falar contra o assalto do de fora, e reforçar seus laços patrióticos ou, nas palavras de Stephen Bannon, o oportunista ex-banqueiro do Goldman Sachs, fazer um discurso “nacional-populista”, ele estava apenas vocalizando, com a força de suas palavras e de sua personalidade, uma grande rachadura já existente na ordem liberal. Ao subir naquele palco, Trump já tinha passado por essa rachadura e entrado no outro lado, afinal, agora ele tinha sido eleito presidente da maior democracia liberal. Passando do muro, agora Trump tinha que liderar de dentro.

No entanto, ele não tinha atravessado o muro apenas para deleite pessoal. No meio de estranhos lugares-comuns vindos da boca de The Donald e de coisas extremamente sensatas como colocar o povo americano em primeiro lugar, mas tratar de maneira justa todos os outros, veio o grande momento. Trump afirma que sua vitória é a de um “grande movimento”, com “grandes americanos” em busca do seu máximo potencial. Mas qual a mensagem desse “grande movimento”?

Uma das coisas mais interessantes causadas por The Donald foi ter desnudado a arrogância, a violência, o desejo incontido de tirania de nossos tolerantes liberais que, sem perceberem, cada vez que reagiam apenas provavam o ponto do seu adversário. Aumentada a intensidade da rivalidade mimética, a natureza da ordem liberal perdeu seu caráter oculto, seu lado mítico apresentou-se diretamente e foi posto à prova filialmente no confronto com outros mitos patrióticos resgatados. No momento em que a mais excelsa glória de um liberal é chamar de populista tudo aquilo não é o seu poder enquanto segunda natureza, integrada à vida, é imprescindível compreender o nosso personagem, sua ação de poder e o que ele representa, e não as suas ideias. O que Trump realmente pensa é irrelevante. É só nesse sentido que o seu livro (na verdade, escrito por algum ghost writer), América debilitada: Como tornar a América grande outra vez, toma importância. Antes, é preciso compreender como aparece seu personagem.

2.

O poder carrega dentro de si sempre uma tensão entre a violência que sustenta a estabilidade da ordem e este caráter instável que a violência produz na ordem e que instaura – por reciprocidade – a sua própria reação. Ordem e transgressão são os dois núcleos centrais do poder. Por isto, todo antimoderno é filho da modernidade. Todo marxista crítico do mundo moderno é extremamente moderno, todo tradicionalista nostálgico do paraíso pré-moderno é extremamente moderno. Poucas coisas são mais modernas do que o ISIS. As ideologias sempre giram em torno do fetichismo desses dois núcleos do poder: ordem e transgressão. Ou tradição e mudança. Isto acontece porque sua temporalidade é a da imanentização da escatologia. No entanto, não faz qualquer sentido falar em nome da mudança ou da tradição, do progresso ou da conservação. Se o cristianismo primitivo era transgressão da ordem pagã, tornou-se ordem no coração da Europa quase mil anos depois de Cristo. E, agora, a cosmovisão cristã volta a ser transgressão diante de sua macaqueação macabra. Quem não compreende esses dois núcleos do poder, torna-se escravo dele.

Toda ordem tem perdas e ganhos, mas antes uma vocação. As duas vocações da Antiga Ordem eram: reunir o povo sob o arbítrio do rei, e não mais da substância religiosa, e criar uma máquina racional de recolher impostos. A ordem liberal (seja difusa ou integrada) funciona a partir de uma moral laica civil que contém dentro de si uma utopia de liberdade, que é uma espécie de imanentização da escatologia cristã. Essa utopia é uma má imitação do cristianismo, e como uma cultura se volta contra o sagrado comportando-se como uma religião desse mundo. A isto podemos dar o nome de materialismo espiritual. Essa cultura quer se integrar à vida, tornando-se uma segunda natureza onde o poder encontra-se oculto.

Assim sendo, embora a ordem liberal tenha vários pontos positivos, pois, de certo modo, intensificou o bem (mas também o mal), o seu maior veneno é a dissimulação da natureza do poder, pois nos torna escravos dele. Sob a aparência de tolerância e por instrumentos democráticos, o poder pode controlar sua vida, o que você come, como cria seus filhos etc. Pode te excluir do jogo e te perseguir, invocando a laicidade ou a tolerância. É uma religião secular muito mais bem-sucedida, pois é uma fonte cultural que se volta contra o sagrado e de onde brotam muitos tipos de ideologia.

Após a Segunda Guerra Mundial, entramos num novo período dessa ordem. Em 1994, o historiador Christopher Lasch publicou um livro ao mesmo tempo atual e profético: A rebelião das elites e a traição da democracia. O título é pensado propositadamente para se opor ao ensaio de Ortega y Gasset, pois a rebelião contra os valores da realidade não é mais das massas, mas das elites. As novas elites são compostas de várias facetas: econômica, burocrática, midiática, intelectual, tecnocrata etc. Elas são a causa da decadência desses valores. A primeira identificação de Lasch é a transformação dessas elites no pós-industrial. Em especial, a econômica, tornou-se progressista e promotora de políticas de igualdade que dissolviam a democracia e se tornavam tirânicas contra a população, negando o estado da realidade. Ao contrário da aristocracia de Ortega y Gasset, que este pensava depositar os valores contra uma massa sedenta por igualdade, Lasch aponta na “nova aristocracia” a tirania de um novo estilo de vida. O poder dessa nova elite está associado à era informacional, ao consumo como centro da vida e à especialização técnica, que geram mecanismo de controle social (como propaganda, mídia, escola) e o próprio descolamento da realidade. Esse novo poder é internacional e está ligado a uma dimensão que transcende o poder nacional, indo de encontro ao desejo dos populares no país.

O futuro mostrou-se profético. Como qualquer eleição ou pesquisa demonstra, entre os mais ricos, os mais escolarizados e os que moram em cidade grande, predominam posições progressistas, favoráveis ao aborto, ao feminismo radical, “igualdade de gêneros”, “casamento gay”, relativização da vida, desapego às tradições, à responsabilidade, à família. A resistência a esses valores vem justamente dos rincões, entre os mais pobres e os que moram em centros menores ou em áreas agrárias.

As novas elites possuem controle sobre todos os mecanismos de reprodução da sociedade. Controlam o domínio do pensamento e da sua reprodução, da mídia, da política, da sociedade. Tudo isto pode ser averiguado pela opinião comum de nossos jornalistas e intelectuais, ou sobre o que falam todas as publicidades de grandes empresas (liberdade contra a realidade). Essa nova elite é global e o seu poder é o poder integrado.

O centro da concepção da Europa pós-1945 era e ainda é uma rejeição do princípio do equilíbrio de poder e das ambições hegemônicas de cada Estado que emergiram seguindo a Paz de Westfália. Uma rejeição que tomou a forma de interesses e transferência das soberanias nacionais para instituições multilaterais, o que resultará na União Europeia (UE). A formação dos organismos multilaterais e supranacionais nas últimas décadas foi acompanhada também de um projeto de autonomia que pretende ser realizado, agora de cima para baixo. Como na opinião de Solana, e de tantos outros, não basta fazer um tratado, mas promover e produzir valores na sociedade, criando um Estado socializante a partir da democracia liberal. Como o avanço tecnológico cria inúmeras possibilidades, e os indivíduos têm cada vez mais dificuldade de se reconhecerem um no outro na vida em comum, o poder político se integra à vida cotidiana e projeta sobre ela sua utopia de libertação. Os valores, as crenças e a visão de mundo promovida são basicamente semelhantes em cada um desses poderes.

Por isto, não só as diferenças entre direita e esquerda têm se diluído nas democracias, como os conflitos internos da própria ideologia liberal a respeito do conceito político de liberdade tem se unificado contra o inimigo externo e reator. Contra o globalismo e o poder integrado, tem ocorrido uma série de reações no que podemos chamar de ocidente liberal. Uma oposição entre as elites do poder integrado que tiraniza invisivelmente e com múltiplas facetas, e diversas formas de reações.

A ordem liberal é amparada por uma cultura que macaqueia o cristianismo e se pretende sagrada. Ao mesmo tempo em que presenciamos o triunfo da cultura cristã, assistimos a isto também enquanto má imitação. Por exemplo, a descoberta do indivíduo e sua liberdade de escolher Cristo ou Satanás como modelo se transforma em idolatria do indivíduo e do seu arbítrio (individualismo). Podemos falar hoje que sua cultura funciona a partir de uma “máquina supervitimológica”, pois quem se coloca na posição de vítima ganha o direito de vitimar como bem queira.

Por sua vez, a reação a esta ordem tem sido quase que invariavelmente uma nostalgia pagã do sacrifício, tribalista, mítica (como foi o nazismo), afetando força e sendo claramente anticristã. Se a máquina do poder integrado perverte o amor cristão, a reação a ele tem apelado geralmente para a afetação de força, o reforço da identidade como superior à noção universal de verdade, para uma espécie de “super-homem” falseado que simula a nobreza enquanto “politicamente incorreto”.

Sendo assim, temos o poder integrado e a reação a ele. Eles se atraem e se repelem. Trump é filho dessa ordem quando representa um tipo de reação contra o poder integrado, inspirando um sentimento popular-nacional de nostalgia. Não é um fenômeno americano, mas global. Essa reação não é um desvio, mas uma chave permanente anunciada desde os primórdios desse século. E se essa reação ao poder integrado tende ao extremo e à tragédia, é justamente pela arrogância desse consórcio liberal que mexe na dimensão mais concreta do homem: a sua dignidade em raciocinar e crer. O livre-arbítrio concedido por Deus. Vivemos numa ordem que exaspera o contágio mimético em escala global.

3.

Deste modo, a mensagem de The Donald é criada para sintetizar e popularizar esse movimento de reação ao globalismo e ao poder integrado. Antes de entrar na aventura de rachar o muro liberal, Trump já cultuava há décadas a imagem de rico bem-sucedido, de personalidade, mas que mantinha os pés descalços junto do povo. Ele sempre foi o “milionário jacksoniano” popular, seja pela breguice, pelo espalhafato, pela megalomania (grandes torres ou grandes murros), mas, principalmente, por causa da sinceridade num país dominado pela perversão do amor cristão, a falsa piedade dos nossos tolerantes.

Este é o primeiro elemento de sua mensagem: o homem de ação sem medo. “Eu sei fazer e sei como fazer, e vocês sabem disso”. O homem de negócios bem-sucedido, sincero, contra o “politicamente correto”, contra a elite política hipócrita que comanda uma tirania a partir de Washington, abrindo com seus cotovelos espaços contra a elite do poder integrado:

A diferença básica entre o estilo dos políticos e o meu estilo é que eu efetivamente tive de fazer as coisas que os políticos apenas falam em fazer. Contratei milhares de funcionários. Tive de negociar com empreiteiros e sindicatos. Tive que fornecer plano de saúde para os meus operários. Eu sei quais os verdadeiros custos, sei quais são os problemas. Sei o que funciona e o que não funciona. (p. 77)

O primeiro mito americano de fundação que Trump resgata é o do “self-made man”. A América das oportunidades, onde o que tem mérito e se faz por si próprio sempre vence. Ele é o bilionário que venceu e que todos devem ter por inspiração. O homem que fez e sabe fazer, o filho genuíno da América. Os políticos são trapalhões, mentirosos, falam muito e fazem pouco. Além disso, estão envolvidos com diversos interesses que fraudam o desejo da maioria dos americanos. É um preciso um outsider, um “homem que venceu na vida”, ligado ao povo, um fruto americano. Deste modo, Trump se lançou como o fruto da grande América contra o status quo de Washington, que retirou o poder do povo. Como na utilização de qualquer outro mito, ele só funciona porque a sua essência é real, só que, por fragmentar a verdade, ele funciona ao mesmo tempo ocultando o seu sentido:

Donald Trump constrói edifícios.
Donald Trump faz campos de golfes magníficos.
Donald Trump realiza investimentos que geram empregos.
E Donald Trump também gera empregos para imigrantes legais e todos os americanos.
Até os jornalistas mais fastidiosos estão concluindo que Donald Trump é autêntico e que as pessoas estão respondendo a alguém completamente diferente de qualquer outro político. (p. 18)

Esse é o conservadorismo de Donald Trump: aquele que quer conservar a ética do vencedor americano que fez as coisas por si mesmo. Seja ele milionário ou um trabalhador do Wisconsin. Ele afirma:

Represento os valores conservadores tradicionais. Levanto todas as manhãs e vou para o trabalho. Trabalho arduamente, sou honesto e muito bem-sucedido. Os bilhões que tenho? Ganhei cada centavo. No começo de minha carreira, meu pai jamais me deu muito dinheiro, mas me deu uma grande ética de trabalho. (p. 103)

A partir do resgate desse primeiro mito americano, Trump reforça sua imagem de independente que não tem “rabo preso” com lobistas. A figura confiável que irá lutar contra a elite de calhordas que retirou o poder do povo, pode apresentar os elementos da mensagem de seu movimento. No que ele diferiria dos outros políticos conservadores que estão a manter o poder em Washington?

Em primeiro lugar, ele é um empresário que não participa do jogo político, assim, pode se colocar contra a elite política. Em segundo lugar, ele é um empresário diferente que não participa do consórcio liberal. Em terceiro lugar, ele é um homem disposto e com a personalidade para brigar com os homens poderosos. É um apelo popular contra as elites globalistas.

Desde o lançamento da campanha, cada polêmica levantada por The Donald, entre piadas e bravatas, era respondida de maneira histérica, desmensurada e arbitrária por seus adversários, o que, por sua vez, apenas provava o seu ponto. Ele lançava uma polêmica que parecia afundar sua campanha, e logo todo establishment lhe respondia de maneira tão arbitrária e autoritária – como se fosse o fim do mundo a sua eleição – que apenas provava o seu ponto a respeito deles. Esse procedimento foi repetido à exaustão até sua vitória. As revelações do Wikileaks fortaleceram seu discurso popular e localista. O que se revelara era que realmente tínhamos uma máfia no poder, reunindo várias fatias da elite política, econômica e midiática, tendo como instrumentos até entrevistas com perguntas combinadas com a candidata democrata. O final de sua campanha foi impulsionado por comícios lotados de pessoas gritando “drain the swamp”.

Ao elemento antielitista reunia-se uma nostalgia nacionalista com um discurso identitário forte. Para Trump, o maior problema americano é que os políticos não colocam o país em primeiro lugar. No capítulo 3, assim Trump define (de maneira hobbesiana) a imigração: bons muros fazem bons vizinhos. Contra a política de open borders, ele defende que o país tenha controle – de fato – sobre a quantidade de estrangeiros que entram. A imigração pode ser positiva, mas não é desejável que seja sem qualquer tipo de controle. Por isto, a imigração ilegal é inaceitável e um perigo para os Estados Unidos. Contra a ideia de governança mundial ou de free market e open borders, Trump reforça a identidade nacional e do povo americano, mostrando que é um perigo para esta absorver estrangeiros em quantidade ilimitada, sem qualquer tipo de controle. Seria um suicídio demográfico. Para deter isto, ele propõe coisas inexequíveis, mas com forte teor retórico que apela diretamente aos populares e provoca terminalmente as elites liberais. Ele afirma também que os outros países estão abusando da benevolência americana e que é preciso utilizar de seu poderio para colocar o povo americano em primeiro lugar. Assim, quem pagará o muro na fronteira será o México a partir do aumento das tarifas alfandegárias.

Em termos econômicos, Trump defende um protecionismo nacionalista. O governo precisa defender o povo americano, zelar por seus empregos, jogar duro para que o capital naturalmente sem pátria gere benefícios ao país. Afirma Trump:

Precisamos retomar empregos de países como China, Japão e México. Temos de nos posicionar e ser duros. Sob vários e excessivos aspectos estamos cedendo o maior mercado mundial – os consumidores americanos. A Ford anunciou recentemente que está construindo uma fábrica de US$ 2,5 bilhões no México. A Nabisco está transferindo uma grande unidade de Chicago para o México. (…) É ridículo. Todos sabemos que a força de trabalho americana é a melhor de todas. Temos apenas que deixa-la competir. (p. 95/96)

Trump defende que o Estado injete dinheiro na economia, invista na infraestrutura e gere bons empregos:

Se fizermos o que devemos fazer corretamente podemos criar o maior boom econômico neste país desde o New Deal, quando nossa vasta infraestrutura foi implantada. É indiscutível. É tão óbvio que até os democratas conseguem ver. (p. 145)

Quanto aos valores religiosos, Trump o associa sempre ao trabalho e ao dinheiro. Ele se diz extremamente influenciado pelo reverendo Norman Vincent Peale, conhecido por suas teorias sobre o pensamento positivo.

Quando o assunto é relações internacionais, Trump demonstra que está mais para um mercador, que pretende tirar o máximo do negócio e a maior vantagem para o país, do que para um ideólogo que sonha com o triunfo da ordem liberal-democrática na esfera internacional, seja via idealismo wilsoniano ou neoconservadorismo. Ele promete uma política externa realista com ênfase nas relações comerciais e no protecionismo, rompendo com a base de a toda política externa americana do pós-guerra. A seu favor, ele conta com as consequências desastrosas das políticas externas de Bush e Obama. Afirma:

Jamais houve uma época mais perigosa. Os chamados insiders das classes dominantes de Washington são as pessoas que nos meteram nesse problema. Então por que devemos continuar a prestar atenção neles? Alguns dos supostos “experts” estão tentando assustas as pessoas dizendo que minha abordagem tornaria o mundo mais perigoso. Mais perigoso? Mais perigoso em relação a quê? Mais perigoso do que agora? Eis aqui o que sei – o que estamos fazendo agora não está dando certo. (p. 43)

Trump acusa os aliados americanos de utilizar o país sem lhe dar nada em troca. É preciso pagar para os Estados Unidos protegerem o mundo (p. 47). Sobre a Arábia Saudita: “o país não existiria, que dirá ter aquela riqueza, sem nossa proteção. Não ganhamos nada deles. Nada” (p. 45).  Sobre a Rússia, limita-se a dizer que Putin está passando a perna em Obama na Síria, tendo uma posição melhor (p. 10). Os seus maiores inimigos são a China (sempre do ponto de vista econômico) e o ISIS. The Donald defende também altos investimentos na indústria bélica para reequipar as forças armadas e gerar emprego.

Estes componentes formam a mensagem que Donald Trump utilizou para vencer. Contra as elites do poder integrado e a cultura liberal, uma mensagem que reforça os mitos de fundação, o sonho da Grande América, a nostalgia nacionalista, uma mensagem localista.

4.

Como já expliquei noutro texto, contra a “máquina supervitimológica” que imita e perverte a defesa da vítima expiada do cristianismo, é comum ver uma reação que podemos chamar de “nostalgia do sacrifício”. O novo fenômeno vitimário está ocasionando um “skandalon” coletivo de nível mundial enquanto crise mimética, donde chegamos à outra perspectiva da mesma questão do sagrado satanizado: o novo culto a Dioniso. Nietzsche percebe que o cristianismo derrota os mitos antigos, a religião arcaica e a violência irruptiva da celebração da vida. O cristianismo é a moral das vítimas que ele toma como fracos e ressentidos. Por isto, Nietzsche defende a volta dos valores pagãos, do ensinamento dos mitos, da violência que celebrava a vida, a moral do super-homem. E essa nova ética pagã funda-se num novo assassinato fundador: a morte de Deus pelos modernos.

Nietzsche apropriado pela direita é esse desejo de simulação de um super-homem que derrote a verdade universal da Cruz e nos conduza de volta ao paraíso nostálgico das proteções sacrificiais. Em geral, é fortemente antiliberal (enquanto a ideologia do vitimismo é francamente liberal e burguesa mesmo quando fala contra o liberalismo e a sensibilidade burguesa), pois seu desejo é voltar a um passado de mitos e da violência satânica tradicional. Essa nostalgia é nacionalista, populista e sacrificial.

Numa passagem bíblica, o faraó ordena a matança de filhos de hebreus, pois o povo estrangeiro e escravizado poderia se tornar grande demais e incontrolável. As fronteiras e o controle demográfico sempre foram uma preocupação material de quem tem o poder. Mas que também é perenemente confrontada com o poder da conversão e universal da Verdade. Num mundo sem proteções sacrificiais, se a reação às elites liberais for conduzida em termos políticos, mantendo o materialismo espiritual, está fadada a busca por essas proteções pagãs, ao resgate dos mitos para reforçar uma escatologia étnica ou nacional.

Uma parte do que se chama de “alt-right” defende abertamente que a cultura é inseparável da raça, e que as nações possuem espíritos através de sua cultura. É perceptível a busca desesperada por essas proteções sacrificiais que entraram em declínio com o triunfo da Cruz e a decomposição da ordem pagã. A escatologia étnica ou nacional enfrenta a dimensão universal da verdade anunciada por Cristo, buscando no papel da identidade o centro-comum da vida, pois pretende destronar os pilares materiais (mas não espirituais) da ordem liberal. Contra a descoberta do indivíduo, contra o livre-arbítrio, contra a proteção as vítimas do sacrifício, essa nostalgia pretende resgatar o tempo onde os mitos protegiam a sociedade de sua destruição até uma nova expiação.

Como escrevi anteriormente, a fraqueza interior advém justamente do abandono da ideia de essência na experiência, e a sua compensação é a projeção numa figura que caricaturiza a coragem e a fortaleza. Uma imitação macabra da honra perdida. Sem qualquer tipo de constância, se despe de tudo (convicções, pessoas, atividades) como troca de roupa. No entanto, seu estilo de autocrata, sua macaqueação da honra, torna-se uma compensação pela completa falta de sensibilidade duma essência na experiência real.

Trump montou assim seu personagem. Exercerá o poder desta forma? Pouco provável. Se Trump soube moldar seu personagem e sua mensagem para vencer, ele não é um espírito doutrinário como Le Pen, mas antes um mercador. É preciso esperar a execução de seu governo para saber até onde ele irá na prática. Há bons nomes no seu secretariado e nomes que geram desconfiança, como Rex Tillerson. Sua maior força no momento vem dos que agem de maneira arbitrária, mais uma vez apenas confirmando seu ponto. Sua eleição foi legítima e tampouco há qualquer tipo de prova de que seja uma marionete dos russos. Há uma grande histeria em torno da relação entre Trump e Putin. Para alguns, seria preferível uma nova guerra fria com os americanos em desvantagem bélica.

A ordem é necessária, o poder é o seu substrato. O poder tem suas características essenciais independente da ordem que sustente. O poder é um doce veneno para a alma e uma armadilha para os deslumbrados. E, apesar de tudo, The Donald conta ao menos com uma grande vantagem ao seu lado: expõe a todos o barril de pólvora prestes a explodir.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.