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Bolsonaro não é Mussolini, mas também não é Reagan

por Gabriel de Arruda Castro (27/01/2018)

Quando a oposição parlamentar ao petismo era a menor da história, o deputado não capitulou.

Deputado Jair Bolsonaro no plenário da Câmara, 2006

Procure no Google Imagens por “Bolsonaro” + “Queimar rosca todo dia”. Aparecerei eu na foto.

É uma foto de uma das muitas sessões tumultuadas na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em 2013. Estive em todas. Marco Feliciano havia sido eleito presidente da comissão e a esquerda decidiu expressar, polidamente (risos), sua discordância. Bolsonaro, que era membro da comissão, não perdia um bate-boca.

Como repórter do Congresso entre 2011 e 2015, convivi bastante com a figura.

Em uma das visitas ao seu gabinete, alegrei-me ao ver em lugar de destaque aquele que (muito provavelmente) era o único pôster do Botafogo em todo o Congresso Nacional. Em outra ocasião, ele me ofereceu uma dose da cachaça “Cura Viado”. Quando ele decidiu sair do PP, creio ter sido o primeiro jornalista a tratar do assunto.

Certa vez, apliquei-lhe o teste do politicômetro, um teste meio boboca inventado pela Veja. Bolsonaro foi diagnosticado como esquerdista nas pautas econômicas.

Uma das coisas que ele me contou é que resolveu entrar na política para escapar de um processo disciplinar no Exército. Como candidato, teria direito a se licenciar do cargo. Acabou vencendo a eleição para deputado federal, e as outras seis desde então.

Era o governo Dilma. Tempos difíceis. A oposição era a menor da história (pouco mais de 10% do Congresso). Eduardo Cunha e Marco Feliciano estavam no time de Dilma. Ainda não era legal ser antipetista.

E é preciso dizer que Bolsonaro não capitulou. Com grosserias, algumas ideias erradas e pouca inteligência política, mas não capitulou.

Naquele contexto, a cada discurso indignado da tribuna, Jair Bolsonaro soava como Pelágio das Astúrias desafiando os mouros de dentro da caverna de Covadonga. A oposição mainstream ignorava temas como a doutrinação das escolas e a ideologia de gênero. O PSDB se aprimorava no exercício da pusilanimidade. Bolsonaro vociferava. Apenas um punhado de deputados – Onyx Lorenzoni , Ronaldo Caiado e mais dois ou três – combatiam o governo pela direita.

Em um Congresso repleto de parasitas – do tipo daqueles que, como descreveu Machado de Assis, “nasceram parasitas como outros nascem anões” –, Bolsonaro não se curvou.

Em 2011, o Brasil precisava dele. Mas precisará ainda agora?

A vida política da República pode ser dividida entre um embate constante entre três forças: o patrimonialismo, o socialismo e o positivismo de lastro castilhista. Bolsonaro não é Sarney, nem Dilma, mas deve ser declarado culpado de pertencer à terceira corrente. O positivismo foi infundido na nossa política pelas forças armadas, e nela ainda permanece uma força viva. Bolsonaro é filho desse grupo. Ele acredita que o governo pode conduzir a economia, e que aberrações como a esterilização de pobres devem ser tratadas como políticas públicas.

Portanto, se Bolsonaro não é Hitler nem Mussolini, tampouco pode ser tido como a reencarnação de Ronald Reagan ou Carlos Lacerda. É um homem bruto, de capacidade intelectual mediana, cuja maior virtude é não ter abandonado a noção de verdade absoluta.

Outro problema de Bolsonaro é sua oratória caótica. Ele morde alegremente todas as iscas, compra todas as brigas e frequentemente perde o foco do que pretendia dizer.

Uma das regras que aprendi de Morton Blackwell, um gordinho que trabalhou com Ronald Reagan e já treinou milhares de ativistas e políticos conservadores nos Estados Unidos, é esta: “Never get mad – except on purpose”. Não é que seja errado se indignar; é que se o controle sobre sua ira não está em você, outros o têm nas mãos. Nesse quesito, Bolsonaro vai muito mal.

Tenho pouca consideração pelos liberais economicistas, que se escandalizam com o fato de alguém pensar em algo que não em dinheiro, eficiência e meritocracia. Mas a resposta a essa polidez artificial não deve ser a brutalidade – a sinceridade já basta.

Bolsonaro perde o controle facilmente. Sua agressividade desmedida sem motivo e sua mania de perseguição com a imprensa mesmo em contatos prosaicos com jornalistas não são aceitáveis.

O deputado não é um conservador no sentido clássico da palavra – e nunca se definiu dessa forma até entrar em modo presidencial. É um cristão que não frequenta a igreja, e que até outro dia era a favor do aborto, ou pelo menos reticente quanto ao tema.

Bolsonaro já defendeu, com todas as letras, o fechamento do Congresso Nacional. Sua obsessão com o regime militar, aliás, não ajuda. E se sustenta em meias-verdades. É fato que o Congresso legitimou a posse de Castelo Branco, mas também é verdade que, depois disso, os militares ficaram no poder por 21 anos em vez de 3 como prometido.

O que fazer com Bolsonaro, então? Não faço ideia. Mas, aos que não o toleram, sugiro um exercício: entender por que ele, e não Carlos Sampaio, Álvaro Dias ou Rubens Bueno – que tinham mais holofotes na imprensa e mais espaço em seus partidos – se tornou o maior símbolo da luta contra o PT e seus tentáculos.

Não é porque ele liderou a oposição ao PT – Bolsonaro nunca se preocupou em construir alianças de qualquer tipo –, mas porque nunca lhe faltou bravura.

Parafraseando o que disse Diogo Mainardi sobre a guerra do Iraque em 2003: quando vejo Bolsonaro falar, quero votar em Geraldo Alckmin. Mas às vezes, quando vejo Geraldo Alckmin falar, fico com vontade de conduzir Jair Bolsonaro pessoalmente pela rampa do Palácio do Planalto.

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Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.