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O lado negro é um truque de espelhos

por Pedro Almendra (01/01/2018)

Um bom protagonista dá para trás, cai, levanta. Rey, no máximo, inclina-se levemente ao chão torcendo os joelhos.

“Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)”
Song of myself, Walt Whitman

 

Grande é a controvérsia em torno de Star Wars VIII: Os Últimos Jedi, que repete o mesmo rito de todo lançamento cinematográfico de relativo sucesso: cria times, rivais, torcedores e nenhum crítico. Emergem, de todas as direções, defensores e haters do filme trocando ora ofensas, ora tapas. O que acaba por sufocar quem simplesmente quer assistir o filme, tanto para se divertir, como para ter uma experiência estética. Falta-me, leitor, uma posição quanto à obra. Como quase todo filme, esse também possui altos e baixos. No mais das vezes, me parece que tanto quem odiou como quem amou Star Wars VIII estão certos em seus motivos e errados em suas conclusões. Sei apenas que me diverti assistindo, que gostei muito de algumas cenas, talvez até do enredo, mas não deixei de me incomodar com outra parte significativa. Posição que, verdade, bem poderia ser cômoda: bastaria eu concordar com todo mundo que viesse criticar ou elogiar, rendendo-me mais sossego e menos inimigos. Porém, confesso que tenho lá minhas chatices, e acabo sempre no lado contrário da mesa, qualquer que seja ela.

Incomodei-me particularmente com a extravagância do filme. Explico: há muitas cenas boas e muitos personagens luminosos. Porém, ao invés desse fato constatar e exaltar a criatividade do roteirista, o excesso denuncia sua falta de senso e humildade. O poeta e crítico Mário Faustino, em uma de suas várias lições de poética, explica a importância de se cercar um bom verso de versos mais fracos, ou pelo menos modestos. Assim, o verso modesto é redimido e o verso ótimo ganha maior destaque, visto que, agora, assume a posição de redentor. De forma análoga, acredito que a quantidade cansativa – de arcos e de, digamos, “semi- protagonistas”, deixa ofuscados e sem brilho os ótimos arcos e ótimos personagens, que se tornaram mera parte da multidão, precisando ser escavados.

Como exemplo, comento o mais óbvio: Finn. Trata-se de um personagem irrelevante e bem poderia continuar sendo um. O filme, porém, teimou em dar um lugar de destaque a ele e justificá-lo. Sobrando a nós um arco completamente sem necessidade, um romance brega e sono. Confesso que até desenvolvi certa antipatia pelo coitado. Inclusive me animei na cena em que ele quase morre, mas logo me decepcionei pelo resgate brega, que foi coroado por um romance de sessão da tarde. (Verdade, os outros filmes também possuem erros similares. Mas insisto: não poderiam ter aprendido com os erros passados ao invés de repeti-los?) Outro ponto que incomoda é que todos os personagens da saga (excetuando bb8) parecem crianças birrentas ou, pior, adolescentes (caso de Kylo Ren). Os dramas e conflitos têm por causa meras birras infantis (como o arco inteiro da Vice Almirante Holdo e o isolamento de Luke). E até mesmo Rey, que é boa, o é de modo completamente surreal: nunca dá pra trás e parece que só faz o bem porque birrou em fazer o bem. Isso para não falar de Poe…

Ao invés, porém, de me deter a esses detalhes meramente, acredito, acidentais, imagino que seja mais proveitoso partir rumo à substância da obra.

*

O filme mantém a estrutura do clássico episódio V (e também toma alguns empréstimos de outros filmes, como o episódio III), porém não deixa de invertê-la e, desse modo, renová-la. Assim, estou certo de que é precisamente a partir desse contraste que encontraremos a mensagem renovada do filme. Deter-me-ei no que mais me intrigou: a cena da caverna.

Luke Skywalker, em Star Wars V, numa espécie de rito de passagem da sua formação como Jedi, adentra numa caverna onde encontra seu pai: Darth Vader. O motivo, acredito, é que, em ordem de se tornar um Jedi, Luke precisa encarar seu demônio interior, para então saber como evitá-lo.  Esse demônio era ali simbolizado pelo seu próprio pai. Que é, enfim, não mais que um possível Luke. Um possível modelo a ser seguido por ele, e por isso mesmo deveria Luke temer aquela imagem e ter Vader por um exemplo negativo, um anti-modelo. Eis que, no novo filme, Rey também é submetida a um rito de passagem, porém um tanto distinto do de Luke.

Rey encontra em sua caverna inumeráveis réplicas dela mesma, o que ilustra, com precisão, o que é, afinal, o lado negro: a ilusão do ego. Explico: o lado negro é, como Kylo Ren deixa claro, a superação de qualquer limite externo pela força do Eu.  Deve-se desapegar do pai, do mestre e de qualquer modelo, de modo a sobrar apenas a força da autenticidade. Não é à toa que, entre os Siths, é tradição que o discípulo traia e assassine o próprio mestre. Por sua vez, essa força do Eu é sempre falsa, sempre uma ilusão: um truque de espelhos.

O poder do Sith lembra, inclusive, o poeta romântico que, de tão grandioso Eu, absorve o universo em seus sentimentos e confunde a natureza com suas oscilações de espírito. O mundo é enobrecido pelo nobre Eu romântico, que assume o lugar de Deus.  Do contrário, o Jedi é aquele que cala a voz e aceita ser tão somente um meio de outra vontade: a da força… do cosmos… de Deus.

Torno, pois, ao romantismo: o filósofo francês René Girard, no clássico recente Mentira Romântica e Verdade Romanesca, chama de “mentira romântica” a crença no desejo autêntico vendida pelo romantismo. O desejo, explica Girard, é sempre mediado por um terceiro, um Outro, um modelo (mediador), e nunca autêntico. À realização disso ele chama de “verdade romanesca”, a verdade revelada pela tradição fundada por Cervantes, seguida por Dostoiévski, Flaubert etc. Peguemos por exemplo Emma Bovary, que imita as personagens das novelas que tanto lê, enquanto toma a si mesma por autêntica e especial. Ela, a personagem, acreditou na mentira; Flaubert, o autor, revela a farsa.

Ora, que é o Sith se não aquele que se deixou seduzir pela mentira romântica?

Volto à cena: está Rey diante da própria imagem, em repetição infinita. O que é tão somente um convite ao delírio romântico – que é, insisto, o lado negro –, onde ninguém é necessário além de si. A sucessão infinita de sua imagem expõe um poder infinito, que depende apenas dela e de ninguém mais. Rey, porém, entende que aquele encantamento esconde uma farsa e encontra o limite daquele poder – não infinito, afinal –, esbarra em um espelho ofuscado, onde pergunta pelos seus pais. O espelho revela duas sombras ao fundo que, ao se aproximarem, se convertem no reflexo da própria Rey.

Ao contrário de Luke, não iria ela ver seu pai. Sua referência. Mas apenas a própria imagem. Rey é sozinha e goza de uma posição aparentemente privilegiada: a independência quase que absolutamente plena. Porém, nem mesmo nessa situação inusitada – a qual Kylo inveja – ela consegue se libertar completamente da dependência de seus modelos. Como o próprio Kylo pontua: a ausência destes lhe vem como presença. Tudo que ela faz é voltado a eles e mediado por eles. Mesmo que somente pela imagem que ela concebeu deles. São as sombras deles que montam a imagem de Rey no espelho. Como são as sombras deles – seus reles espectros – que moldam a personalidade da Rey de carne e osso. Por mais que cedesse e caísse na mentira que conta seu ego – no poder de sua autenticidade –, Rey estaria sempre refém de suas referências. Mesmo ela, que sequer as conheceu.

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Isso é, pois, o lado negro: um reles truque de espelho. Que, em ordem de triunfar, precisa esconder o espelho. Precisa esconder o truque, que Rey desvendou. A Kylo, por sua vez, resta apenas mentir. Estando ele na mesma situação de Rey, na caverna, se impressionaria com a imagem estonteante daquela cadeia quase infinita de reflexos e provavelmente fingiria não existir o limite que Rey descobre sem demora.  Eis o lado negro. Aliás, já que estávamos falando de poetas românticos, impossível não lembrar, a partir da cena da multidão de reflexos de Rey, a belíssima imagem de Walt Whitman: “I am large, I contain multitudes”.

René Girard diz também que toda rivalidade, toda inveja e todo ódio escondem admiração e mimese. O rival é também um modelo. Se não o fosse, não haveria disputa pelo objeto de desejo escasso e não haveria conflito. O imitador, nesse caso, porém, sente necessidade de esconder sua admiração, daí surge o ódio, o desprezo e até mesmo o esnobismo. Reles formas de esconder uma admiração latente e opressora. Tal insight é perfeitamente transparecido em Kylo Ren que tão frio se porta diante de seu suposto mestre, quando desfalece em raiva e frustração diante de quem expressa desprezo e esnobismo: Luke. A rivalidade agora, com a morte de Luke, será transportada a Rey. Sobrando dois possíveis desfechos à saga: o perdão dela e o arrependimento dele, ou a morte de algum dos dois.

Inclino-me a acreditar na hipótese da redenção de Kylo Ren, no renascimento de Ben Solo. Parece-me óbvio que ele não se manterá no lado negro até o fim. Seria, aliás, uma maneira de redimir a própria saga, que ainda não se acertou com um protagonista. Rey é um tanto fraca nisso precisamente por ser tão forte. Um bom protagonista dá para trás, cai, levanta. Rey, no máximo, inclina-se levemente ao chão torcendo os joelhos: jamais cai e jamais se levanta. Sua bondade é herdada e não conquistada.

A intrigante morte de Snoke, longe de mostrar a fraqueza deste, expõe a força intangível de Kylo Ren, inclusive moral. Convém lembrar que o próprio Anakin já se encontrou em situação similar, quando, diante da escolha entre ajudar Mace Windu ou o Imperador, opta pelo último.

Por isso acredito que seria bem conveniente a saga concluir com a redenção de Kylo, fechando-se em torno dele. Tanto a revelação da falta de Luke como seu mestre, como a cena em que Kylo hesita em matar sua mãe, servem de sustento à hipótese da redenção dele. Se saímos do primeiro filme odiando-o pela morte de Han Solo, saímos deste com alguma dúvida. Quem sabe o veredito a ser dado pelo terceiro filme acerca da personalidade de Kylo não siga essa progressão?

Se há algo de particular nesse filme, quando comparado ao restante da saga, é o rompimento, agora escancarado, com qualquer maniqueísmo. Luke cai na sina de acreditar que, por ter falhado, está fadado; porém, por fim entende que a jornada do homem não é tão fatal assim. Há sempre espaço para o livre arbítrio e para a redenção. A luz e a escuridão não são fixos opositores. Oscilam. E tão superior é o bem, que usa até mesmo do mal a seu favor. Rey, ao discutir com Luke, ressalta que ele viu que ainda havia conflito em Vader, e manteve esperança até, por fim, redimir o pai. O espírito desse filme mostra que há conflito em todo mundo. Sempre. Até mesmo nos Jedi que, ressalta Luke, deixaram um legado de fracasso e vaidade.

Certa vez, G.K. Chesterton pontuou que a “idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia”. Há, assim, uma idolatria reversa que aumenta o poder, a ser temido, do mal. O que, por outra, reduz o poder do bem. Enquanto o Sith idolatra falsos deuses, o próprio ego, o Jedi pode acabar por idolatrar falsos demônios e dar ao lado negro status maior que o de uma reles ilusão. Aí está um grande desafio espiritual para o Jedi. Luke, mesmo ele que viu conflito até em Vader e que desse mal conseguiu fazer sobejar o bem, esqueceu sua lição: deu Kylo completamente por perdido. Ao passo que Rey ainda viu o conflito. E aí está o triunfo do filme sobre o maniqueísmo: não há lado negro capaz de inverter a ordem. Todos são, mesmo os Sith, submetidos à vontade da força. Não existem dois rivais equiparados. A força triunfa sobre ambos. Sempre. O bem é superior, por definição, ao mal. Pois só existe ele. Só existe a força. Só existe a graça. Todo o resto é ilusão. Assim, acreditar num mal capaz de antagonizar a força, como acreditar que alguém foi inteiramente dominado pelo lado negro, é idolatria, e é, por vezes, a derrota dos Jedi.

Posto dessa forma, faz-se claro que, longe de meramente traduzir conflitos políticos, o conflito de que fala o filme é o do homem com a graça. Alguns a aceitam e tornam-se meios da vontade dela. Outros competem com ela, tentando impor a própria vontade. A competição, ressalto, é uma ilusão, pois a graça sempre triunfa. Vence sempre aquele que assume o seu lugar para conquistar sua circunstância, no lugar de rejeitá-la. Quem perde é quem ganha. Eis a mensagem do filme. Vence aquele cuja vontade própria foi sepultada. Aquele cujo eu tornou-se indistinguível da graça.

É verdade, a história de fato arranha problemas de ordem política. Há, de um lado, um império totalitário – inspirado nos regimes nazistas – e do outro os rebeldes lutando pela liberdade. Podem os esquerdistas e direitistas competirem pelo protagonismo da história à vontade, pouco muda. As ideologias que brotam no filme são mera derivação desse conflito primeiro. Filósofos como Eric Voegelin, Hans Urs Von Balthasar e Mircea Eliade já muito fizeram para elucidar como as ideologias totalitárias do século XX, que a saga ilustra, são herança de tradições antigas, como o gnosticismo, onde encontramos com mais clareza esse conflito anterior do homem contra a graça. Se há relação entre as ideologias totalitárias e a tradição gnóstica, por exemplo, como implica Voegelin, nada mais justo que, no filme, sejam precisamente aqueles que presumem ter superado o próprio Deus, com o poder do Eu, que acabem por insistir nas ideologias totalitárias. Cabe aos Sith, e a mais ninguém, afinal, fundar o paraíso na terra. Nem que por um mero truque de espelhos.

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Pedro Almendra

Estudante. Vive em Teresina. Blog: pedroalmendra.wordpress.com