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Aemulatio, conquista do método e método de conquista.

“Culturas Shakespearianas: Teoria mimética e desafios da mímesis em circunstâncias não hegemônicas”, de João C. C. Rochas (É Realizações, 2017, 424 páginas)

Em Dostoiévski: do duplo à unidade, Girard, em sua agudeza crítica, alinhava os caminhos cruzados de um escritor de gênio, ponto e contraponto, intelecto e emoção, mostrando as etapas de uma existência psicologicamente deslocada, ainda que arrebatada; vida febril que desembocará o seu curso numa síntese surpreendente: a inteligência romanesca. Com efeito, o russo desajeitado, o “monge Fócio”, o mujique, torna-se, quase que inesperadamente, o senhor derradeiro e, talvez, conclusivo da arte do romance, o inventor capaz de romancear não só a história de seu tempo, mas as correntes ocultas que a controlavam, e que ainda o fazem. Em sua análise, Girard esclarece: o gênio romanesco de Dostoiévski forjou-se em imitações febris, as quais quase o levaram à loucura, não fosse este conduzido, com o tempo e pela graça de sua persistência investigativa, à genialidade.

Ficamos sabendo que “A Rússia de 1840 está em certo ‘atraso’ em relação à Europa […] Em 1863, o escritor russo estava ainda com trinta, cinquenta, ou mesmo cem anos de atraso perante seus homólogos alemães ou franceses; em poucos anos, irá igualar e ultrapassar todo mundo, pois terá rejeitado o mito do super-homem antes mesmo que este tomasse conta das imaginações ocidentais.” Essa ultrapassagem descortina algo mais que um indivíduo “de gênio” em sua excepcionalidade, pois é reveladora de uma síntese maior, em que desagua uma desembocadura mental articulada em condições bem específicas. Sim, sem o mujique, sem o “monge”, sem o liberal desajeitado, sem o cosmopolita fracassado, não haveria Dostoiévski nenhum capaz de escrever Os Irmãos Karamazov e Os Possessos.

Mas é um francês, Girard, que fala de Dostoiévski nesses termos, ainda que um francês de “sangue  galileu”,  um méridional, não exatamente um franco. Nesse caso, pode-se dizer que temos um gênio universal endossando o trabalho de outro gênio universal, ambos alocados no centro privilegiado da civilização europeia, ainda que, a bem da verdade, Dostoiévski estivesse, nos idos do século XIX, deveras deslocado frente aos grandes centros europeus. Havia, como sempre ocorre, centros hegemônicos aos quais se dirigiam olhares devotados, o que envolvia, na prática, todos os olhares intelectualmente ambiciosos, na necessidade à época irresistível de equiparar-se, de estar à altura de franceses e britânicos. Dostoiévski, diz Girard, sofreu vertigens de devoção a esse estrangeiro “essencialmente” superior; pior, o russo foi igualmente acometido da doença contrária, quando a adoração desmedida passou a expurgar a si mesma no paroxismo contrário, germinado no orgulho ferido, expelindo violentamente o estrangeiro outrora adorado, refugiando-se, temporariamente, no solo igualmente lodoso da fantasia autóctone.

Sim, Dostoiévski foi, alternadamente, cosmopolita e eslavófilo, liberal e niilista, racionalista e esotérico, e nesses infernos permaneceu enquanto esteve preso à adoração/rejeição de si mesmo e das coisas que amava. Seus personagens são tipos absolutamente representativos, e dramáticos, dessas tendências ideológicas. Tivesse ficado refém dessa câmara de pressão por mais tempo, teria enlouquecido. Mas houve um despertar nada menos que numinoso na “identidade fraturada” desse russo deslocado, sem um lugar seguro no mundo, em que foi preciso arriscar uma imitação mais alta, um atrevimento em pássaros maiores e migradores de muitas latitudes, o que não seria possível, ensina-nos Girard, caso esse russo “de gênio” não tivesse emulado tão prodigamente seus mediadores, caso não tivesse arriscado tudo, como dirá Castro Rocha, “no trânsito constitutivo entre tradições diversas”. O russo foi ao fundo escuro da questão existencial, lá descobriu luminosidades.

O profetismo do último Dostoiévski,  do escritor “de gênio”, tomou forma no embate com o Outro, o mediador, dono das chaves celestes, o centro hegemônico em conceituação rochista, frente ao qual esse mujique via-se como um selvagem nu, desarmado, mas do qual nunca desistiu e ao qual – importante – nunca se rendeu completamente. Por algum milagre, Dostoiévski não se deixou soterrar no orgulho ferido; teve tempo para respirar enquanto organizava o método em que decodificou, pouco a pouco, seus mediadores mais terríveis, verdadeiros fantasmas, por meio dos quais passou a investigar uma identidade maior: a unidade romanesca. Tomando a experiência de Dostoiévski, constatamos que essa unidade foi apreendida fora de um centro sagrado, isto é, na posição não hegemônica de uma inteligência que teve na emulação um método indispensável, mais do que isso, teve aí uma estratégia de vida em sua produção intelectual.

O livro de João Cezar de Castro Rocha problematiza e amplia a ferramenta crítica de Girard, tomando Shakespeare, ícone canônico por excelência, como mais um autor não hegemônico. O desafio é enorme, quase uma ousadia; os resultados são excepcionais. Diferentemente de Girard, a voz que Castro Rocha articula aponta para questões do outro lado do compasso magnético civilizacional, o que, por si só, arrevesa o lugar comum das ambições teóricas de muitos girardistas. De certo modo, a voz de Castro Rocha, em Culturas Shakespearianas, é um contraponto à de Girard, em Dostoiévski. Se este, um francês, apropriou-se de um autor “periférico” na elaboração de uma síntese da modernidade europeia, sublinhando o seu descaminho; o primeiro, um brasileiro, apropria-se de um autor “central”, agora na elaboração de uma estratégia latino-americana em seu caminhar. Há, nesse caso, mais do que mera complementaridade de contrários. Creio que Castro Rocha, valendo-se de um autor romanesco do início da modernidade, da jovialidade elisabetana de Shakespeare, almeje, sobretudo, uma conquista, ao passo que Girard, valendo-se do último romanesco, tenha almejado uma retirada, fielmente caracterizada na circunspecção ortodoxa de Dostoiévski, em seu pessimismo profético. Com efeito, temos, em Shakespeare e Dostoiévski (dois dos membros da santíssima trindade da literatura moderna – Cervantes seria o “pai”), dois momentos distintos da modernidade, entusiasmo e decepção, ainda que ambos estejam unidos pela consciência romanesca.

Essa assimetria delicada entre Shakespeare e Dostoiévski, assim como entre Girard e Castro Rocha, ajuda-nos na discussão medular de Culturas Shakespearianas. Há, nesse ensaio notável, uma radicalização de alguns desdobramentos do que chamamos aqui de consciência romanesca, a saber, a identidade/consciência que percebe a centralidade do Outro na aferição de si mesma. Na pena de Castro Rocha, essa consciência quer ultrapassar o mero amparo da hermenêutica, pois se ousa no avanço, creio, e não sem os seus perigos, de uma política, situada no conceito de interdividualidade coletiva: “a centralidade do Outro no plano muito mais amplo e complexo do conjunto de uma nação.”

Busca-se, então, na reconhecida pujança intelectual da latinidade clássica, na aemulatio, um método de (re)encaminhamento, em que se salienta uma modernidade ainda em construção (justamente a nossa!): a pós-modernidade, ainda moderna, dos latino-americanos.  Como podemos ser pós-modernos se a nossa modernidade está a fazer-se, construir-se, inventar-se? Assim sendo, não há nada mais apropriado do que reconsiderar as bases históricas de alguns catalizadores da modernidade. Dentre eles, haveria, segundo Castro Rocha, uma força inventiva especial: Shakespeare.

O trabalho de Castro Rocha propõe alternativas fecundas aos esquemas maçantes, envelhecidos, que pensam nossa herança e o seu papel em construção no mundo, e que geralmente se condicionam a dois posicionamentos fixos, igualmente viciados em sua “mentira romântica”: por um lado, uma valorização puramente autóctone, certamente aprisionada no ressentimento; por outro, uma europeização e/ou norte-americanização plastificada e sabidamente servil. Dois extremos “que precisam ser driblados”. Nada melhor que uns bons dribles, diríamos nós brasileiros, como incentivo às nossas qualidades inventivas; um bom driblador, sabemos, é o sujeito que tira máximo proveito da instabilidade natural das coisas, reconhecendo a sua própria instabilidade e dela tira proveito máximo na rigidez de seu obstáculo.

Por que não imaginar que a história cultural latino-americana, mimeticamente concebida, deveria acionar fissuras, que, por definição, nunca seriam idênticas, tornando a instabilidade um modo de localizar-se no mundo? Uma das tarefas possíveis do pensamento e da arte latino-americanos seria precisamente abrir tais fissuras nas estruturas dominantes de saber e de poder.

Trata-se de uma colocação para lá de ousada, inserida em desafios tremendos, uma vez que um trânsito dessa hermenêutica, a inteligência romanesca, para a sua práxis pode, de fato, selar destinos catastróficos, popularmente reconhecidos nos dramas do “aprendiz de feiticeiro”. Por mais excelência que tenha uma chave-hermenêutica qualquer, e a teoria mimética é uma chave poderosíssima, será sempre muito arriscado tentar “controlá-la” pragmaticamente para fazer história, mesmo quando se é muito competente, especialmente nesses casos, eu diria. Castro Rocha sabe disso; melhor, ele sabe que a teoria mimética detecta esse perigo em sua raiz. Não há coquetterie aqui, absolutamente. Como então propor estratégias numa cultura de síntese como a nossa, que se arriscaria numa franca emulação poética? A inventividade de Shakespeare, em seu enquadramento histórico real, seria um bom modelo de ação, nos dirá Castro Rocha. Para tanto, será preciso resgatar Shakespeare de seus guardiões hodiernos, retirando-o do sarcófago idealizado da crítica, ou seja, será preciso recuperá-lo historicamente; nesse aspecto Culturas Shakespearianas nos oferece valiosas contribuições.

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Um dos pontos altos do livro, no meu entender, é o modo como sua argumentação desmistifica, e com elegância, certos posicionamentos assimétricos: lugares-comuns fascinados pela autonomia do Outro metropolitano, revelando-o em sua relatividade histórica, em sua dependência frente a cenários políticos e econômicos (e técnicos, eu acrescentaria) específicos.  Trata-se de uma perspectiva historicamente imbricada nas complexidades da produção e disseminação culturais, mostrando-nos uma interdependência de fatores associados ao fluxo maior das movimentações intelectuais: “na existência concreta de literaturas favorecidas por determinada circunstância histórica que beneficia este ou aquele idioma na circulação das obras.” Com efeito, Castro Rocha faz autênticas recuperações de contexto, restabelecendo uma lucidez indispensável, mas que é sempre perdida na embriaguez romântica, quando autores e obras são essencializados, ou seja, removidos da história e sacralizados na crítica. O livro de Castro Rocha nos ensina a pensar historicamente a produção literária. Mas, por que Shakespeare?

A força de A Tempestade também se relaciona às tensões políticas que definiam as relações entre centro e periferia no interior da Europa. De novo, impõem-se triangulações incontornáveis, formadoras do mundo moderno: Nápoles no próprio centro; Milão na periferia do centro; a ilha, o centro mesmo da periferia.

Como nos relembra Castro Rocha, o Shakespeare historicamente situado, o dramaturgo elisabetano do final do século XVI e início do XVII, vive na dependência, ainda que relativa, é claro, de lugares à época culturalmente mais centrais, como Espanha e Itália; porém, isso não o intimidava, ao menos não de modo paralisante, e o contrário pareceu ocorrer: essa “inferioridade” circunstancial estimulava-o a inventar com base em material consagrado; enfim, Shakespeare foi um perfeito emulador, um pirata de textos num reino que, na época, interessava-se deveras, como bem se sabe, pela pirataria. Todavia, a “pirataria” de Shakespeare não é mero butim do trabalho alheio, mas se organiza na aplicação da aemulatio, “pois não se questiona a traditio, mas se tenta ampliá-la por meio de atos de emulação”.  Aliás, alguém poderá dizer que o papel que teve Shakespeare como emulador poético de textos italianos, espanhóis e referências clássicas, seus conterrâneos versados em engenharia naval e tecnologia militar reproduziram-no na construção de navios e canhões. O resultado no longo prazo? Tanto Shakespeare quanto seu pequeno reino, o ulterior império britânico, que seria o maior da história, tornaram-se o paradigma de cultura e nação hegemônicas nos séculos seguintes. Sim, a história é testemunha.

E óbvio que Castro Rocha não deseja para nós, latino-americanos, uma reprodução atualizada dos poderes dos centros hegemônicos da história recente, uma vez que ligada aos seus crimes, que não foram poucos nem modestos. Desde o início dos tempos modernos, em meados do século XVI, a história já prosseguiu um bocado, precipitando-se, como se sabe, em abismos atrozes. O mundo e suas relações tornaram-se mais complexos e suscetíveis, e seria, creio, uma verdadeira insanidade tentar emular, nesta altura de nossa história comum pós-holocausto e pós-Hiroshima, os antigos imperialismos europeus. O que se pretende, creio, é justamente o contrário: anunciar, no exercício da emulação poética, a nossa maior responsabilidade, uma vez que somos os herdeiros de uma modernidade tardia consciente de seus desatinos, mas que, não obstante, avançará por nós e em nós. Nesse momento, Castro Rocha dá o seu “pulo do gato”:

No universo da estética e do pensamento, os últimos serão os primeiros [grifo meu] porque podem selecionar do conjunto da tradição o que pareça mais interessante […] A emulação é a forma mais sofisticada de elogio. Por isso, a reiteração do tema ilumina o alvo: imaginar estratégias para lidar com a presença constitutiva de um modelo, aceito com autoridade e adotado como fonte de determinação da interdividualidade (coletiva).

Culturas de síntese poderão germinar frutos promissores caso tenham na livre emulação um método diligentemente aplicado, como, em sua época, dele valeu-se Shakespeare. Contudo, da forma como o entendo, trata-se de um saber oculto, quase uma gnose, pois o seu acesso é mais problemático (e difícil) do que parece à primeira vista, em sua mera exposição intelectual. A emulação shakespeariana, esse ponto tem de ser reforçado, articulou-se numa consciência progressivamente romanesca, ou seja, produziu-se para formar uma identidade literária que foi se libertando, em etapas, de ressentimentos e invejas, o que para nós latino-americanos, sejamos sinceros, demandará esforços hercúleos, quase um milagre.

Nossa endêmica violência interna, nosso colonialismo intestino (imperialistas que somos de nós mesmos), e este será o ponto final do livro de Castro Rocha, arrasa-nos constantemente o futuro, jogando-nos de volta no círculo das relações nunca interrompidas entre senhor-escravo, em que se subjuga o conterrâneo não hegemônico, socialmente desfavorecido, na vala comum do esquecimento social, do ocultamento pós-sacrificial. Sim, somos sacrificadores, temos de admiti-lo antes de almejar voos maiores. De nada nos adiantará o domínio de hermenêuticas e metodologias sem esse “salto” existencial, sem um ganho real na relação com o outro marginalizado. Em suma, precisamos de conversão. Trata-se, não obstante, de um aprendizado das coisas ocultas. Como nos ensina Culturas Shakespearianas, o livramento de nossa invisibilidade cultural dependerá do livramento econômico e social de nossos servos. Lembrem-se: assim foi na Rússia de Dostoiévski.

Como transformar tal circunstância numa reflexão que favoreça a superação da méconnaissance fundadora das culturas latino americanas? Penso numa perversa “técnica de invisibilização social”, aperfeiçoada por nossas elites desde a colônia. E vigente em pleno século XXI. Como caracterizar essa técnica? Como identificar o desconhecimento que autoriza o desprezo vitimário em relação ao “outro”?

O desafio está lançado e a leitura desse ensaio primoroso é ato indispensável para um princípio de reflexão.

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