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Borges poeta: da metáfora à magia da eternidade

por Hilton Boenos Aires (15/01/2019)

O tempo é a única testemunha que observa e registra as diferenças sutis.

A beleza da poesia de Borges não está nas rimas, na perfeição métrica, nem no ritmo musicado comum ao repente nordestino, ou hexâmetro homérico. Mas nas suas figuras de linguagem e nas metáforas gostosamente montadas.

Me pego visualizando suas “praças profundas, igualadoras de almas”, nas suas tão amadas “tardes de prata”, onde o “pátio é o declive pelo qual se derrama o céu”. Tardes, tão amadas tardes, sempre convidativas para que o portenho desfrute da paz da cidade “desde o fácil sossego dos bancos”. Buenos Aires tem ruas que nunca deixam de ser “para o solitário uma promessa”. Promessa de quê? Se não do mais profundo encontro com si próprio, promete-se “a eternidade [que] espera na encruzilhada de estrelas”.

Refém de uma memória essencialmente – e o que significa essencialmente? – nostálgica, Borges constrói imagens de um tempo atávico. Nas “Salas Vazias”, o silêncio poeirento (metáfora minha), deixa exposto as velhas fotografias de daguerreótipos, que “mentem sua falsa proximidade de um tempo detido em um espelho”, que não tardam em converter-se em “datas inúteis de borrados aniversários”, mas, assim como o céu, a vida vibra seu dinamismo, moldando-se num constante movimento. O tempo é a única testemunha que observa e registra as diferenças sutis: o que era e o que tem sido; O que há e o que havia.

E, novamente, a constante impressão que o tempo é o material da vida, o combustível perene da inquietação filosófica, e o fio da poesia que costura as primeiras ponderações sobre a realidade na consciência do homem (afinal, os acontecimentos mais arcaicos e imemoriais, ocorridos in illo Tempore, não podem ser descritos sem o uso do discurso poético), salta bem diante dos meus olhos.

Parece que todo e qualquer escritor, poeta, filósofo e teólogo, não pode escapar desse mistério indecifrável. Kundera, que adora brincar com os enigmas dos absurdos e a insignificância de nossa condição cotidiana, joga com a semântica da palavra grega para “retorno”, que é “nostos”. “Algos” significa “sofrimento”. Então, “nostalgia” é o sofrimento causado pelo anseio insatisfeito de retornar.

Já Borges vai além, para cavar fundo, em busca da palavra inexistente em sua língua mãe, mas que expressa o sentimento universal, conhecido pela condição humana mais elementar, de quem reconhece a existência dos vínculos e da passagem do tempo: a saudade! E aqui não me atrevo a traduzir sua sentença:

Cuando uno extraña un lugar, lo que realmente extraña es la época que corresponde a ese lugar; no se extraña los sitios, sino los tiempos.

Ecos do tempo: histórias de nossa própria história! Há muito que suas “vozes angustiadas nos buscam, e agora estão apenas nas manhãs iniciais de nossa infância”. A luz do dia de hoje “exalta os cristais da rua do clamor e da vertigem, e escanteia e apaga a voz rendada dos antepassados”.

Memórias são “conjeturas e ecos insondáveis”. É dito que a filosofia surgiu com o assombro e o espanto do homem frente ao mundo que o cercava e o submetia. Percorremos esse mesmo mundo, onde nada há de novo sob o sol, e, como diz Maquiavel, “os astros e os céus têm sido sempre os mesmos desde que o homem pisa por esses cantos”. Apesar de tudo isso, em meio ao torvelinho que empurra o frenesi do dia, há, ainda assim, uma “sala tranquila, cujo relógio austero derrama um tempo já sem aventuras nem assombros”.

E aqui ainda estamos sob o reino do tempo e seus desdobramentos. Criação dos gigantes de Jötunheim, nem os deuses de Asgard ou as Valquírias de Helheim estavam por cima dos seus mandos, senhor da razão e da verdade da vida. Um tempo sem aventuras em uma sala tranquila é a ante-sala do paraíso, o purgatório de Dante, onde o tempo ainda importa – pois a eternidade ainda não chegou – mas que já não traz o fardo fatalesco de reconhecer a própria morte como único horizonte que nos aguarda no pináculo de nosso destino. Borges não me parece Heideggeriano. Ao contrário, o vejo mais lúcido e quase esperançoso, porque a ânsia mais elementar do ser em condição passageira é justamente encontrar o segredo da permanência

A causa verdadeira
é a suspeita geral e turva
do enigma do Tempo [com maiúscula];
é o assombro diante do milagre
de que, a despeito de infinitos azares,
apesar de sermos
as gotas do Rio de Heráclito
perdure algo em nós:
Imóvel
algo que não encontrou o que buscava.

É possível que esta esperança se mostre ingênua, pois este algo que há em nós, que é imóvel, como bem disse Borges, “não encontrou o que buscava”. Não há problemas, pois agora giramos em nossos calcanhares e tomamos outro rumo! Nossa autenticidade não pode ser refém da autoconsciência da própria morte e da finitude da condição humana. O ser é mais que o “ser-aí para a angústia”.

Qual o fim de tudo isto? Alan Watts rememora que o sentido da vida é estar vivo. “É tão claro, tão óbvio e tão simples. Mesmo assim, todos não param de correr em pânico, como se fosse necessário conseguir alguma coisa além de si próprio”. Neste sentido, Borges se apresenta um tanto Vendântico e Zen. O imensurável peso da morte, nas antípodas da insustentável leveza do ser, traz em seus santuários, entre as filas de panteões, “cuja retórica de sombra e de mármore promete ou prefigura a desejável dignidade de ter morrido”.

Dessa forma, “povoando o tempo roubado com as floridas travessuras de uma mitologia caseira”, “livre da memória e da esperança, ilimitado, abstrato, quase sem futuro, o morto não é um morto: é a morte. Como o Deus dos místicos (…), o morto ‘onipresentemente’ alheio, não é senão a perdição e a ausência do mundo”.

“Cegamente clama por permanência, a alma arbitrária; quando a tem assegurada em vidas alheias – o milagre implacável da dor e do assombro do gozo – quando tu mesmo és o espelho e a réplica daqueles que não alcançaram o teu tempo, e outros serão (e são) a tua imortalidade na terra”. “Você é a coisa eterna que vem e que vai”, para sempre.[1] Filosofias antigas escritas em sânscrito afirmam que somos todos um, mas só podemos “experienciar” apenas uma experiência de cada vez. Borges, de fato, me parece um singelo apreciador dessas sutilezas do Mahabharata, afinal, é um “devoto de Schopenhauer”.

Essa ideia perene de que somos todos a mesma pessoa, em estágios diferentes de percepção, é um pormenor simbólico da visão do sono de Vishnu, que cria tudo o que há enquanto dorme. Vivemos dentro de seu sonho, e a própria experiência da encarnação, passa a ser o verdadeiro sonho acordado e dirigido, no qual o limiar da eternidade aguarda na esquina que está além da rua da vida, e da avenida da morte. No amanhecer “revivi a tremenda conjetura de Schopenhauer e de Berkeley/ que declara que o mundo é uma atividade da mente/ um sonho das almas/ sem base nem propósito nem volume”. Nesse jogo de sentidos, Kundera brinca que tudo não passa de uma percepção de peso e leveza. O sentimento de mais pura leveza é percebido por Thomaz, quando este se dá conta que viver sem o fardo de “ter uma missão”, é a verdadeira “insustentável leveza do ser”. “Às favas a medicina e o dever de curar seus pacientes”, pensava o mais célebre cirurgião de Praga, enquanto se via reduzido ao conforto da mediocridade como um lavador de janelas, perseguido pelo regime soviético comunista.

Na lenta caminhada do homem para a morte e sua posterior eternidade, temos claros sinais de sua aproximação pela natureza, que anuncia os fins dos seus ciclos.  Certezas inenarráveis, inerentes ao exercício da percepção do ambiente. Profundo reflexo do interior de quem o observa.

Sempre é comovedor o pôr-do-sol
(…)
É aquele brilho desesperado e final
Que enferruja a planície
(…)
Dói-nos sustentar essa luz tensa e distinta,
Essa alucinação que impõe ao espaço
O unânime medo da sombra
E que cessa repentinamente
Quando notamos sua ausência
Como cessam os sonhos
Quando sabemos que sonhamos.

Agora, que é chegado o fim, já não nos resta nada além de assoprarmos as velas e guardarmos os pincéis. Agora somos “um pouco de cinza e de glória”, postos em uma urna hermeticamente fechada, em um mausoléu do cemitério do Chacarita, ou da Recoleta…

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NOTA

[1] “You are the eternal thing that comes and goes, and that furthermore this galaxy is a function of all other galaxies. And that vast thing that you see far off, far off, far off with telescopes and look, and look, and look… One day you’re going to wake up and say “Why, that’s me!”And in knowing that you’ll see that you never die”. – Alan Watts, em palestra.

Hilton Boenos Aires

Doutorando em filosofia na Universidade Católica Argentina, Buenos Aires.