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A praga dos livros motivacionais

por Vlademir Lazo (26/01/2019)

O gênero motivacional carrega muito de engenharia social.

Há uma peste por todos os lados. Nas livrarias, lojas virtuais, cafés, ônibus e metrôs. Ou mesmo nas praias e bancos de praça em que alguém esteja com um livro em mãos. Títulos e capas similares umas às outras se espalham como nuvens de gafanhotos nas vitrines e prateleiras de espaços físicos ou onlines. Uma vontade de ganho maior que a de aprendizado ‒ a vontade de aprendizado existindo unicamente para se atingir resultados e obter o ganho. Autoajuda é um gênero em voga há algumas décadas no Brasil. Quando menino, lembro do muito que se falava a respeito dos livros de pensamento positivo. Que poderiam proporcionar riquezas e ocasionar milagres. A base dos melhores produtos nessa linha pareciam os que tinham como parâmetro os ensinamentos da programação neolinguística. O gênero retornaria com força ainda mais avassaladora sob o nome de literatura motivacional. Faz alguns meses que noto o quanto vem se expandindo a oferta de produtos nessa linha em todo o canto, e cada vez maior o número dos seus adeptos.

Outro dia um amigo e eu trocávamos algumas palavras com duas gurias que frequentam o salão de sinuca de uma barbearia em que sou cliente. O meu amigo insistiu em incentivá-las a conhecer um clássico esotérico da filosofia oriental, o tipo de leitura no qual ele tem caído de cabeça. Também parece que olho e vejo perenialistas (ou gnósticos) por todos os lados. As meninas se mostravam bem pouco inclinadas à sugestão e o engajamento na conversa por parte delas diminuía. Um hábito que carrego é o de me interessar em descobrir o que, de fato, as outras pessoas estão pensando. Intervi no diálogo com curiosidade perguntando às duas moças o tipo de livros que elas costumam ler. Uma delas respondeu pelas duas: “Motivacional”.

Um duro golpe para um sujeito que aprendeu a se apaixonar por garotas que leem Dostoiévski (e, eventualmente, a namorar uma ou outra). Os livros motivacionais atuam como um placebo. Você os lê, se sente estimulado, disposto a materializar desafios a que se impõe, a correr em busca de seus sonhos mais secretos ou objetivos compartilhados com meio mundo. Como todo medicamento placebo, o efeito se desvanece em pouco tempo. Não importa. Essa será a razão para correr atrás de outros livros motivacionais, e supostamente fortalecer a sua dimensão interna e a maneira como encara as demais pessoas e a existência. O que pode levá-lo à uma cela em que se se vê aprisionado, sua mente encarcerada, buscando mais material motivacional. Vídeos no YouTube e cursos onlines se transformando numa extensão natural do percurso. Em uma época em que tanto se reclama ou se usa da falta de tempo como justificativa para negações de todo tipo, vale nos questionarmos se está sendo válido onde aplicamos esse nosso tempo que parece correr e se esvair tão depressa.

Anos de exposição à redes sociais, em que nos vimos expostos como cães pavlovianos à reações de curtidas, comentários e compartilhamentos por parte de nossos círculos, e as consequentes frustrações menores ou maiores que podem daí decorrer, tornariam inevitável uma expansão ainda mais intensa dos livros de autoajuda. Afinal, existe um mundo lá fora, e esse mundo nos cobra e exige resultados, competência, habilidades, conversação, sucessos, socialização e dinheiro. Um novo “gold rush”, pelo visto. O que foi a corrida do ouro americana? Uma incessante busca do povo norte-americano advindo de todos os cantos do país (e de estrangeiros dos demais continentes) para a Califórnia procurar ouro num momento em que o mineral já não existia em grande quantidade, e quem angariou imensas fortunas foram aqueles que venderam as ferramentas, materiais e acessórios para o povo desesperado e faminto disposto a correr em busca do ouro.

Seria o esoterismo oriental (a obsessão do meu amigo mencionado acima) o antepassado mais remoto das literaturas motivacionais de hoje em dia? O que possuem em comum é serem um simulacro de religião. Um gnosticismo em que se almeja comer do fruto da árvore do conhecimento e nos equipararmos aos deuses, dentro de nossas mais modestas limitações e aparatos cognitivos. Um procedimento geralmente arriscado e perigoso. A literatura motivacional também têm seus gurus, apóstolos, seguidores incondicionais, mandamentos, rituais, seminários, visões, milagres etc. Como também possui algo de tráfico em que se dissemina alastradamente uma forma de droga a entorpecer corações e mentes e a aprisionar nossos sonhos com o pretexto de libertá-los. Deve-se dizer que esses manuais existem de longa data. O famoso Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnagie, foi publicado originalmente em 1936, não por coincidência, no período da Grande Depressão norte-americana (pode-se preferir uma paródia publicada alguns anos depois por Irving Tressler, Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas, que num tom de humor negro acusa o livro de Carnagie de transformar seus leitores em pessoas chatas). Sendo que a chave para se fazer amigos já era esclarecida por São Tomás de Aquino no século XIII, de que se deve procurar pessoas com os mesmos gostos, e que queiram as mesmas coisas e rejeitam as mesmas coisas, numa equação em que semelhanças e diferenças existam em proporção equilibrada e positiva.

Por outro lado, é inegável que alguns dos mais conceituados livros na lista de mais populares dentre o gênero possuem um bocado de psicologia aplicada e mesmo de filosofia. Mas de quantos desses exemplares poderíamos dizer o mesmo? Por outro lado, em se tratando de filosofia, em alguma medida ela sempre teve um pouco de autoajuda, e costuma ser assim desde Platão ou as magnificas Meditações de Marco Aurélio, ou ainda o pensamento mais respeitável advindo do oriente. O nosso Mario Ferreira dos Santos (o filósofo brasileiro de obra de maior envergadura e extensão), por exemplo, tem títulos bastante interessantes usando de termos como psicologia prática e integração pessoal.  Aprecio alguns vídeos do pensador canadense Jordan Peterson, e desde a primeira vez que o assisti fui tomado da impressão inevitável (compartilhada por qualquer espectador minimamente atento) de o quanto Peterson possui algo de coach.  Entretanto, nesses exemplos apontados na filosofia (como também nos notáveis da literatura e em outras formas de arte), o motivacional e a autoajuda não parecem engolir todo o resto, como ocorre nos livros desse gênero em especifico, ainda mais num mundo como o nosso tomado de tanta coisa que parece querer nos sugar e prometer muitíssimo mas retribuir com migalhas em troca. Uma época que cultiva uma obsessão pela realidade, daí um desprezo pela ficção que no seu melhor proporciona doses de uma sabedoria autêntica e conhecimento de alguns dos mistérios do mundo; uma obsessão pela realidade que paradoxalmente leva à proliferação de fakes news de diversos tipos, às realidades forjadas tanto de esquerda quanto de direita no terreno político ou em campos diferentes da sociedade, ocasionando inúmeros estragos. O gênero motivacional carrega muito de engenharia social, numa tentativa de mudar padrões de homens e mulheres, e para que todos se convertam à regras de comportamento e lucro, dentro de um processo de adaptação, a um passo da submissão a um sistema totalitário. Um mundo que parece tomado de feitiçaria, gurus, alquimia, manuais, produtos cosméticos e disputas pelo poder, por espaço, riqueza e por um desejo de juventude eterna inatingível que unicamente poderia subsistir como uma quimera entre outras.

O motivacional e a autoajuda existem, sim, mas dentro de nós. Ainda que seja justamente o que induz a autores e aproveitadores correrem para se mostrarem dispostos a nos ajudar a encontrá-los em troca de algum investimento. Alquimia é o processo de converter elementos de valor baixo em ouro. O que nos remete a uma nova corrida do ouro desenfreada e longe de ter fim. Entretanto, cada um pode buscar em si próprio elementos de conquista e superação desde os menores objetivos práticos no dia-a-dia. Para fechar com mais alguns exemplos: numa época em que desperdiçamos nosso tempo (o bem mais precioso que possuímos) não escrevendo e enviando pelo correio cartas relativamente curtas ou extensas às pessoas que mais gostamos, para vencer a preguiça e a procrastinação que nos cercam como algozes invencíveis, precisei adotar uma pequena estratégia no final do último ano para assim escrever uma missiva a uma pessoa bastante querida, com a qual troco palavras quase que diariamente: a de permanecer quatro dias sem me comunicar com ela, como se estivesse ocupado demais para lhe responder, me permitindo voltar às mensagens rápidas somente depois que escrevesse uma carta. Esse artigo, por sinal, só não se transformou em mais uma ideia em mente, desperdiçada sem passar para o Word, porque procurei me imaginar com uma deadline para entregar um artigo ou crônica de uma lauda e meia para hoje (muito do jornalismo brasileiro mais antigo se consolidou contando com redatores com essa saudável pressão sobre os ombros). O que não vai me levar a escrever em jornal, mas foi uma tática decisiva para que não renunciasse a escrever o texto. Os exemplos parecem bobos, e o são (sem a pretensão e a megalomania que o gênero de livros de autoajuda tenta nos incutir), mas o mesmo pode ser aplicado para objetivos em uma escala mais elevada. E tampouco foram exemplos tirados de algum manual de autoajuda ou de livros motivacionais incluídos na lista dos mais vendidos o qual só engordam as contas bancárias de seus respetivos autores e editores com a promessa de nos entregar uma felicidade permanente.

Você pode ser muito feliz ouvindo Beatles, Depeche Mode ou qualquer outra criação musical, independentemente do status e do valor que cada criação destas carregam; o retorno do sofrimento e da tristeza em diferentes níveis, entretanto, é absolutamente inevitável como também necessário para a evolução e o aprendizado de cada um de nós enquanto seres humanos.

Vlademir Lazo

Estudou filosofia na UFPEL. Autor do romance Gotas no asfalto (Penalux, 2016) e do volume de poesia Geografia de um retrato (Penalux, 2017).