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Senhorita Tântalo

por Amálgama (15/02/2009)

Uri Avnery, no Gush Shalom / 15 de fevereiro Tântalo foi punido pelos deuses por razões que não se conhecem bem. Tem sede e fome, mas a água do tanque desaparece cada vez que tenta beber, e os frutos que vê acima são levados para onde não os pode alcançar, cada vez que tenta apanhá-los. […]

Uri Avnery, no Gush Shalom / 15 de fevereiro

Tzipi Livni [foto: Reuters]Tântalo foi punido pelos deuses por razões que não se conhecem bem. Tem sede e fome, mas a água do tanque desaparece cada vez que tenta beber, e os frutos que vê acima são levados para onde não os pode alcançar, cada vez que tenta apanhá-los.

Tzipi Livni passa hoje por tortura semelhante. Depois da impressionante vitória pessoal que as pesquisas lhe prometiam, o fruto político foi arrastado pelo vento para longe dela, inalcançável. O que teria feito para merecer tal castigo? O que fez Livni, afinal de contas? Apoiou a guerra, clamou por boicote ao Hamas, muito falou de negociações vazias com a Autoridade Palestina? OK, sim, fez tudo isso, mas… um castigo tão terrível?

A verdade é que os resultados das eleições não são tão claros quanto talvez pareçam. A vitória da direita é ambígua. A campanha eleitoral esteve centrada na disputa pessoal entre os dois candidatos que disputavam o cargo de Primeiro-Ministro: Livni e Netanyahu (ou, como se chamam um o outro, como se ainda estivessem no jardim de infância, Tzipi e Bibi.)

Ao contrário do que todos esperavam e as pesquisas prometiam, Livni derrotou Netanyahu. Vários fatores influíram nesse resultado. Dentre outros, as massas da esquerda apavoraram-se ante a possibilidade de Netanyahu vencer e correram para o campo de Livni, para “Deter Bibi!” E Livni – que jamais antes tivera qualquer afinidade com o feminismo – lembrou-se no último momento de convocar as mulheres de Israel, e elas acorreram ao seu chamado.

É impossível não ver o principal significado dessa escolha: Netanyahu simboliza total oposição à paz, oposição à devolução dos territórios ocupados, oposição ao fim das colônias e oposição a um Estado palestino. Livni, por sua vez, declarou-se mais de uma vez favorável à “Solução Dois Estados”. Seus eleitores optaram pela linha moderada.

É verdade, sim, que o grande vencedor nessas eleições foi Avigdor Liberman. Mas seu triunfo está longe de ser o que se chegou a prever. Não conseguiu os 20 assentos que prometera. O aumento, de 11 para 14 votos, não é assim tão dramático. Seu partido é agora, sim, o terceiro maior do Parlamento, mas isso se deve menos ao próprio partido que ao colapso do partido Trabalhista, que caiu de 19 para 13 votos. Aliás, nenhum partido alcançou 25% dos votos. A democracia israelense está bem frágil, isso sim. O fenômeno Liberman é preocupante, mas não é (ainda?) completo desastre.

Seja como for, não há como negar a mensagem mais significativa dessas eleições: o público israelense moveu-se em direção à direita. A faixa que vai do Likud até a direita tem hoje 65 deputados; a que vai do Kadima até a esquerda, só 55. Contra os números não há argumento.

O que provocou essa mudança?

As explicações são várias, todas válidas.

Pode-se ver a mudança como fase passageira, de depois da guerra. A guerra sempre provoca emoções fortes – intoxicação nacionalista, ódio ao inimigo, medo do Outro, desejo de unidade e desejo de vingança. Todas essas emoções servem à direita – lição que a esquerda às vezes esquece, quando inicia guerras.

Outros vêm a mudança como continuação de um processo histórico: o confronto entre sionistas e palestinos está aumentando e tornando-se mais complexo, situação que alimenta a direita. E há, é claro, o fator demográfico. O bloco da direita atrai votos de três setores: dos judeus orientais (a maioria dos quais vota no Likud), dos religiosos (que votam principalmente nos partidos fundamentalistas) e dos russos (a maioria dos quais vota em Liberman). Esse é um bloco em que o voto é quase automático.

Dois grupos em Israel tem taxa de natalidade excepcionalmente alta: os religiosos judeus e os árabes. Os religiosos votam unanimemente com a direita. Os partidos Ortodoxo e Nacional-Religioso não ganharam novos espaços nas eleições, provavelmente porque seus eleitores distribuíram-se entre o Likud, Liberman ou mesmo a “União Nacional” extremista. Os cidadãos árabes abstiveram-se quase totalmente de votar em partidos judeus, como já fizeram no passado, e os três partidos árabes, somados, ganharam mais uma cadeira.

O crescimento demográfico é perigoso, como fator de escolha eleitoral. Os partidos Kadima, Trabalhista e Meretz identificam-se com o setor fixado há muito tempo dos judeus asquenazes, cujo crescimento demográfico está em declínio acentuado. Mas muitos jovens asquenazes votaram em Liberman (o necessário para garantir-lhe quatro cadeiras no Parlamento), e Liberman prega um fascismo secular. Odeia os árabes e também odeia os judeus religiosos.

A conclusão é bem clara: se a “centro-esquerda” não conseguir romper o próprio gueto elitista e as raízes que ainda tem nos grupos orientais e russos, continuará a declinar, de eleição em eleição.

Agora, a Senhorita Tântalo tem de escolher entre duas alternativas amargas: retirar-se para o deserto, onde não há nem água nem frutos, ou cumprir a função de folha de parreira para uma coalizão vergonhosa.

Opção nº 1: Recusar-se a participar de coalizão com Netanyahu e ir para a oposição. Não é coisa simples. O partido Kadima nasceu quando Ariel Sharon prometeu aos seus membros – refugiados da esquerda e da direita – que teriam poder. Será muito difícil para Livni manter a união do partido na oposição, sem acesso ao poder, aos gabinetes e carros oficiais de luxo.

Assim, Israel estará sob um governo de direita que inclui fascistas conhecidos, seguidores de Meir Kahane (cujo partido foi banido do Parlamento porque pregava racismos), defensores de limpeza étnica, da expulsão dos árabes-israelenses e da liquidação de qualquer chance de paz. Esse governo fatalmente entrará em rota de colisão com os EUA e será isolado da comunidade internacional.

Há quem diga, “Ótimo! Esse governo se esfacelará e cairá rapidamente. Assim todos verão que a direita não é opção. Kadima, Trabalhista e Meretz amadurecerão na oposição e daí, talvez, nasça uma verdadeira alternativa de centro-esquerda.” Para outros, essa via parece arriscada demais. Não há limite para o desastre ao qual um governo Netanyahu-Liberman-Kahanista pode arrastar o Estado, do aumento das colônias, que torpedeará qualquer paz possível, até a guerra total. Israel não pode apostar nessa única carta, se o próprio Estado de Israel está em jogo.

Opção nº 2, para Livni: Engolir a pílula amarga, ceder e unir-se ao governo Netanyahu como segunda, terceira ou quarta força. Nesse caso, ela tem de decidir logo, antes de que Netanyahu apresente uma coalizão de extrema-direita como fato consumado, e convide Livni para a posição de sócio minoritário.

Não me surpreenderei se o presidente Shimon Peres tomar a iniciativa e, extra-oficialmente, decidir pela opção 2 – ainda antes de que comece, dentro de uma semana, o processo oficial de consulta aos partidos no Parlamento e de encarregar um dos candidatos da tarefa de formar o novo governo.

Há possibilidade de alguém constituir um governo que trabalhará pela paz? Que conduza negociações reais? Que concorde com evacuar as colônias? Que aceite um Estado palestino? Que reconheça um governo palestino de unidade nacional que inclua o Hamas?

É difícil imaginar que sim. No melhor dos mundos, continuarão o engodo das negociações sem sentido, o crescimento silencioso das colônias, Barack Obama será engambelado e mobilizar-se-á o lobby pró-Israel para impedir qualquer avanço em direção à paz. O que foi continuará a ser.

Israel poderá mudar o curso? Há real possibilidade de que surja alguma alternativa real que vise à paz?

Os dois partidos da “esquerda sionista” foram completamente derrotados. Ambos, o Labor e o Meretz entraram em colapso. Seus dois líderes, que fizeram e apoiaram a guerra de Gaza – Ehud Barak do Labor e Haim Oron do Meretz – receberam das urnas o castigo tão merecido. Numa democracia normal, ambos teriam renunciado no dia seguinte às eleições. Mas a democracia israelense não é normal e os dois líderes continuam a liderar seus partidos, rumo ao próximo desastre.

O partido Trabalhista é um zumbi, um cadáver ambulante – é o único partido “social-democrático” no mundo liderado por um homem cujo único objetivo é continuar no posto de ministro da Guerra. Quando Barak inventou e disseminou o mantra “não temos parceiros para negociações de paz”, inventou também a conclusão: “… portanto, não precisa haver ninguém, em Israel, interessado em conversar com os árabes.”

O partido Trabalhista não tem partido, não tem membros, não tem programa político, não tem outro nome para a liderança. Falhará na oposição, como falhou na situação. Se não acontecer um milagre, ele já tomou o rumo do lixão da história. No lixão da história, o Labor encontrará o Meretz, que lá já está. Foi partido socialista, mas já perdeu o rumo há muito tempo: é partido sem raízes nas classes dos degraus mais baixos da escada socioeconômica; e é partido que apoiou todas as guerras.

Há quem creia nas soluções mais fáceis: a união de Labor e Meretz, por exemplo. Será a união do cego com o aleijado. Não há como esperar que vençam a corrida.

A verdadeira tarefa é muito difícil. É preciso erguer toda uma nova construção, no lugar da que ruiu.
É preciso criar uma nova Esquerda, com novos líderes para os novos setores até aqui discriminados e excluídos: os orientais, os russos e os árabes. Uma nova Esquerda que manifeste os ideais de uma nova geração, gente de paz, que prega a mudança social, feministas e verdes, que, todos, entenderão que não se pode trabalhar por um ideal sem trabalhar por todos os ideais. Não pode haver justiça social em Estado militarizado; ninguém pensa em meio ambiente, enquanto os canhões rugem; o feminismo é incompatível com uma sociedade de machos montados em tanques; não é possível respeitar os judeus orientais, numa Israel que despreza toda a cultura oriental.

Os cidadãos árabes terão de sair do gueto no qual foram confinados e terão de falar ao público judeu; e o público judeu terá de falar com os árabes em termos igualitários. O slogan de Liberman, “Sem lealdade não há cidadania”, tem de ser invertido: “Sem cidadania não há lealdade.” Como Obama fez nos EUA, é preciso criar outra linguagem, outro léxico, que substitua as frases velhas e gastas. Israel tem muito, muito a fazer, se quiser salvar o Estado de Israel.

Quanto à Senhorita Tântalo: ou ela contribui para esse processo de mudança, ou continuará presa da mesma tortura. Como Pirro, rei de Épiro e da Macedônia, Livni também pode dizer: “Mais uma vitória como essa, e estaremos liquidados.”

 
* Tradução de Caia Fittipaldi. Reprodução autorizada pelo autor.

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