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Vestir e mudar, é só começar

por Amálgama (22/02/2009)

por Marli Gonçalves * – Perco ou ganho muito tempo na vida observando as pessoas, de forma curiosa. Meio voyeur, embora nem sempre com essa intenção. Igual a minha gatinha, gosto de uma janela. Adoro – simplesmente adoro – uma varanda. Se fosse rica, e pudesse, moraria numa varandona, com quarto, cozinha e banheiro. Não […]

por Marli Gonçalves * – Perco ou ganho muito tempo na vida observando as pessoas, de forma curiosa. Meio voyeur, embora nem sempre com essa intenção. Igual a minha gatinha, gosto de uma janela. Adoro – simplesmente adoro – uma varanda. Se fosse rica, e pudesse, moraria numa varandona, com quarto, cozinha e banheiro. Não tenho nem cortinas em casa, tanto que gosto da luz e do ar natural, mesmo que choco como o de São Paulo.. Então, quando tenho um tempinho fico alguns minutos ali, debruçada. Tal qual uma madona, então olho os outros apartamentos e fico pensando o que aquelas pessoas fazem, quem são, o que acontece ali dentro, sobre o que falam? Quais suas histórias? E o que vestem?

Penso, em especial, como se vestem. Por onde começam? Pelas meias, pela calcinha? Pelo sapato? Como decidem? De um dia para o outro, na hora? Quanto tempo será que levam nisso?

Dá para compor a personalidade de uma pessoa, creio, sabendo por onde ela começa a se vestir, como é sua rotina. Tem muito marido que conheço, folgado a ponto de usar só a roupa que a mulher põe para ele – até meu pai, enquanto manteve minha mãe submissa, eu pequena, era assim. E lembro que ele sempre queria impecável a gola das camisas. Engraçado que não deve existir nesse mundo mulher que toleraria isso, mesmo sendo uma mordomia – a não ser no extremo caso de vestir um lingerie muito especial para uma noite fogosa. Aí ela veste o que o marido quer, ah, veste! Homens, por sua vez, gostam de parecer simples; alguns o são de verdade. Tenho um amigo muito querido que é daltônico e outro dia desfilava todo pimpão de camiseta rosa-fúcsia pela Oscar Freire, lindo! Mas ele jurava que estava de azul-marinho. Fiquei pensando se, como ele é todo certinho, se conhecesse a cor, será que a usaria? Deveria.

Agora é hora de pensar em roupas e no vestir porque o Carnaval está aí. E, para mim, Carnaval só é Carnaval por causa da fantasia, seja ela na roupa ou na cabeça. Acho que é isso que falta hoje no Carnaval: mais fantasia. A gente bem que podia voltar a sair mais fantasiado, mesmo que não fosse para “pular”, que isso já é meio ultrapassado. Já pensou que delicia? A gente não ia ter que esperar aquela festa que acontece só uma vez a cada século, legal, para soltar a franguinha. Sinto falta disso e – acreditem – das crianças atirando água com pistolinha no vidro dos carros. Como eu gostava! Lembro também de ter visto na Europa, por exemplo, despedidas de solteiro coletivas, nas ruas, em Amsterdã. As meninas, todas com uma fantasia; os meninos, com outras. O encontro é bárbaro: bandos de margaridas encontram com bandos de piratas; bandos de tirolesas encontrando bandos de macacos.

Trouxe essa coisa da “fantasia” para minha vida adulta. Quem me conhece de verdade, e há tempos, sabe, ou lembra (e eu era muito “pior” e mais ousada).

Podem até achar que os modelos que invento são esquisitos, mas hão de dizer: copiados não são; e ela, eu, está feliz ali dentro, no personagem do dia. Por isso sempre entendi tanto os travestis e as drags, estas mais recentemente assim denominadas. Eles se vestem para virar outra coisa, Literalmente, outra coisa, outra pessoa, outro sexo, com outro nome, trejeitos e até voz. Da mesma forma, uso minhas coisas de forma lúdica. Eu sei por quê. Uso para mim. Não precisa nem ninguém ver o que tem de diferente, às vezes ali por baixo, por cima, de lado, por dentro. Eu sei. Isso é que me importa.

E você, já pensou nisso, em mudar um pouco? Dentro do seu estilo, claro, se for o caso. Começar a usar o cinza, em vez do preto, num exemplo fácil. Cortar, ou prender o cabelo, ou soltá-lo, livre, sem escovas. Um decote mais ousado, talvez? E o homem? Um sapato diferente, divertido. Não, gravata de Mickey não! Não é disso que estou falando, cuidado! Estou falando de se soltar, sim, e pensar em si, não no que os outros vão pensar, dizer, achar ou deixar de achar. Nem tentar; nunca entrar neste padrão Shopping Center absolutamente irritante. Argh!

Todo mundo igual; as mulherzinhas de jeans, camisa branca ou blusinha, e scarpin! Cabelo puxado com a escova até não querer mais, e claro, pintadão, com luzes, reflexos, relaxamento. Coitadinho dos cabelos. Fora que elas mexem neles o tempo inteiro, outro dia percebi. Repara! Deve ser assim em qualquer lugar do Brasil.

Andam falando até que nesse Carnaval vai ter muita gente com a máscara da Dilma Roussef. Não dá. Deus é bom, não faria isso com a gente. A “Madame Carapanã” ( mais uma invenção genial do meu pai para definir a pessoa) agora resolveu usar moda, se esticar toda. Mas continua “Madame Carapanã”, coitada, falsa, igual outras por aí, que nem preciso lembrar, né? E o que é melhor é que não é que parece que a bichinha está se divertindo? Se até ela, aquele horror, pode perder a sisudez (embora, cá entre nós, eu não acredite, de verdade), por que não você? Experimenta!

Não precisa ser radical. Pode até aproveitar essa semana e a outra para fazer uns testes, aproveitando o Carnaval. Vê lá! Não estou dizendo para sair por aí, enlouquecida, vestida de arara azul; nem você, homem, de nega maluca, indo até a porta do Baile Gala Gay, do Rio de Janeiro, para mandar tchau para sua mãezinha ou avó que está em casa. (Impressionante como todas aquelas que aparecem têm uma). Já pensou no meio de um baile desses se, de repente, todo mundo voltasse ao normal, como é mesmo, no original, e ao mesmo tempo? O que seria mais assustador? A gente ver quanta gente conhecida poderia estar ali no meio, disfarçada?!?

Enfim, mude um pouco. Ouse. Você vai se sentir legal. Aliás, você tem de se sentir legal. Não fique só falando dos outros. Como tal pessoa está bonita, parece assim ou assada. Valorize-se! Tem peitão? Põe um decote. Não tem? Põe também!É baixinha (o)? Salto! Joelho bonito, pernão? Bermuda, short, que eu também quero ver! Tomara que caia. Ou, por que não? Um belo terno. Incrível como todo mundo nota se a mudança tiver bom astral. Qualquer roupa preta igual a todas fica diferente com um belo colar, um acessório. Homens, por favor, as mulheres gostam de homens elegantes. Não tem coisa pior do que você se arrumar toda e sair com um cara desleixado, assim, só para parecer homem. Quem precisa parecer, tem problemas. Ou é. Ou não é. Meus exemplos bons? Caetano Veloso, Fernando Gabeira, tudo. Ah, e esse Obama, não é nada mau.

Mas, olha: se quiser aproveitar só o Carnaval, divirta-se! Saia de havaiana, de Carmen Miranda, de alguém que admire. Vista-se de diabinha, diabinho, de anjo, de padre, de enfermeira, de bebê com ou sem fralda. “Se monta”, como dizem as drags e os gays. Vai para a praia de sunga. Bota uma bota com minissaia e diz que é a Wanderléa. Sai de camisola. De pijama. Com aquela roupa que você gosta. Só você, mas tudo bem. Se for tímido (a), mesmo, faça como alguns garotos e garotas fazem. Pegue uma mochila e vá se vestir na rua. Entendeu agora por que, onde eles vão, sempre levam nas costas aquelas mochilas enoooormes? Ali, costumam guardar sua outra personalidade, que só soltam depois que descem do ônibus, que saem dos bairros onde vivem, ou quando se sentem a salvo dos olhares repressores.

O importante é ousar, tentar, mudar um pouco a rotina. Tente começar a se vestir ao contrário do que faz agora. Sei lá. Se vira, sacode a poeira da mesmice. Começa pela meia, pela fivela do cabelo. Mas capriche. É para você. Para mais ninguém.

Ou melhor: eu vou estar na janela, te olhando passar.

 
* Marli Gonçalves é jornalista. Este artigo foi publicado primeiro no site www.brickmann.com.br.

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