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Tradução | Se esse é o 1989 dos jovens árabes, a Europa deve ser rápida com uma resposta corajosa

por Amálgama (03/02/2011)

Ninguém tem mais experiência do que os europeus em difíceis transições de ditadura para democracia

Timothy Garton Ash, no The Guardian / 2 de fevereiro

O futuro da Europa está em jogo esta semana na Praça Tahrir, Cairo, como esteve na Praça Venceslau, Praga, em 1989. Desta vez, as razões são geografia e demografia. O arco da crise árabe, do Marrocos à Jordânia, é vizinhança da Europa. Como um resultado de décadas de migração, os jovens árabes que você vê cantando raivosamente nas ruas do Cairo, Túnis e Amã já têm primos em Madri, Paris e Londres.

Se essas revoltas forem bem sucedidas, e o que emergir não for outra ditadura islâmica, esses jovens, frequentemente homens e mulheres desempregados, frustrados, verão mudanças em seu país. O abismo entre suas experiências em Casablanca e Madri, Túnis e Paris, gradualmente diminuirá – e, com ele, aquela dissonância cognitiva cultural que pode levar ao homem-bomba marroquino em um trem madrileno. À medida que seus países se modernizarem, jovens árabes – e quase um terço da população do litoral norte da África tem entre 15 e 30 anos – circularão pelo mediterrâneo, contribuindo para as economias europeias e para o pagamento de pensões em sociedades que envelhecem rapidamente. Além disso, os exemplos de modernização e reforma ressoarão pelo mundo islâmico.

Se as revoltas falharem, e o mundo árabe voltar a cair em um pântano de autocracia, então dezenas de milhões desses jovens homens e mulheres levarão suas patologias e frustração para o além-mar, fazendo a Europa tremer em seus fundamentos. Se as revoltas conseguirem depor a última leva de tiranos, mas forças islâmicas violentas, iliberais, ganharem as rédeas de alguns desses países, produzindo vários novos Irãs, então que os céus nos ajudem. Essas são as apostas. Se isso não constitui um interesse vital para a Europa, então eu não sei o que constitui.

Estamos presenciando o 1989 árabe? Temos a mesma sensação de eventos passando de país para país e de muitas pessoas comuns espontaneamente erguendo-se para dizer “basta”. Até o momento, no entanto, há pouco sinal de auto-organização social, comandada por movimentos da oposição democrática e grupos da sociedade civil, o que em 1989 deu suporte à disciplina não-violenta, apesar das provocações, e pavimentou o caminho para uma transição negociada em mesas de reunião.

Os sindicatos na Tunísia tiveram um papel significante. No Egito, há Mohamed ElBaradei, com sua Associação Nacional Para a Mudança, e o ex-prisioneiro líder oposicionista Ayman Nour, mas não emergiu nenhuma frente popular efetiva, fórum cívico ou outra estrutura de larga escala. Nas maiores demonstrações de terça-feira na Praça Tahrir, houve sinais encorajadores de auto-organização civil. Hoje [2], entretanto, eles parecem ter respondido caoticamente a ataques violentos de demonstrantes pró-Mubarak.

Devido a todo o poder mobilizador da internet e das mídias sociais, essa questão da organização política é crucial. Por isso os israelenses alertam que a analogia correta é, não com a Europa de 1989, mas com o Irã de 1979. Uma ampla revolta popular, com muitos elementos seculares e esquerdistas, é tomada de assalto pelos islamistas – porque eles são mais bem organizados. O fato de ditadores árabes como Hosni Mubarak terem chantageado o Ocidente com sucesso utilizando esse fantasma islamista por 30 anos não significa que ele não exista. Mas podemos entender a frustração dos democratas árabes que encontram essa como a primeira reação do Ocidente à sua esperança única de liberação. “Essa é uma revolução livre de Allahu-Akbar [‘Deus é Grande’]”, protesta o jornalista egípcio Yosri Fouda.

(…)

Politicamente, a reação da Europa até agora foi um constrangido silêncio, seguido do encorajamento extremamente cauteloso de mudança pacífica – como na declaração de segunda-feira dos ministros do exterior da União Europeia. Após passar décadas sustentando e trabalhando com o ditador tunisino Zine al-Abidine Ben Ali, a França agora junta-se às sanções da UE a ele e sua família. Ah, então acabou-se de descobrir que ele é um cara mau? A chamada União Para o Mediterrâneo tem sido totalmente irrelevante. Ao contrário da secretária de estado Hillary Clinton, a alta representante da UE para assuntos externos, Catherine Ashton, tornou-se invisível.

Sim, Washington primeiro reagiu com constrangido silêncio e então com medido encorajamento de mudança pacífica. Mas pelo menos as pessoas notaram sua confusão. Quando (se) tivermos posse da próxima leva do WikiLeaks, poderemos até descobrir que os EUA tiveram algum papel para que o exército egípcio soltasse a notável declaração de que não usará força contra as demanda legítimas de “nosso grande povo”.

Além de urgentemente alertar os líderes árabes das consequências econômicas de sansões, que os europeus devem fazer por meio de todos os canais disponíveis, há pouco que possamos fazer para mudar o curso imediato dos eventos. Um apoio explícito demais a um candidato em particular ou movimento oposicionista poderia sair pela culatra. Por enquanto, fazer menos pode significar fazer mais.

Para o futuro, é uma história diferente. Na Europa, já deveríamos estar nos preparando para este dia. Os protestantes egípcios são bem claros em relação ao que não querem: Mubarak. Ao contrário daqueles na Praça Venceslau em Praga, eles não têm uma visão clara do que almejam posteriormente. Exceto, claro, que as coisas sejam melhores. Se os novos, ou transicionais, governantes do Egito – e aqueles da Tunísia e de outros países vizinhos – forem do tipo que aceita ajuda da Europa, então devemos estar prontos para dá-la.

Ninguém tem mais experiência do que os europeus em difíceis transições de ditadura para democracia. Nenhuma região tem mais instrumentos a seu dispor para interferir no desenvolvimento do Oriente Médio árabe. Os EUA podem ter relações especiais com o exército egípcio e com famílias de governantes árabes, mas a Europa tem mais comércio, dá um bocado de ajuda e tem uma abundante rede de laços culturais e pessoa-a-pessoa nas áreas que os romanos chamavam Mare Nostrum, nosso mar. Ela tem um estoque 27+1 de relações diplomáticas. Ela tem o lugar para onde a maioria dos jovens árabes quer ir – para visitar, para estudar, para trabalhar. Seus primos já estão aqui. Essa conexão é tanto um problema quanto uma oportunidade.

A invisível Ashton deveria estar agora mesmo reunindo uma força tarefa do novo serviço europeu de ação externa, para elaborar nossas respostas a todos os prováveis resultados no Egito, Tunísia e onde quer que árabes resolvam reivindicar domínio sobre seu próprio destino. Ela deve identificar e trabalhar com líderes nacionais, certamente incluindo aqueles de Espanha, Portugal, França e Itália, que têm mais interesse em tal iniciativa. A UE precisa de velocidade, flexibilidade, coragem, imaginação – nenhuma das qualidades a que esse lento clube multinacional está associado. Que a Europa prove que, ao agir corajosamente no exterior, ela pode moldar seu próprio futuro.

tradução: Daniel Lopes
original, aqui

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