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Discurso de Ian McEwan na Feira do Livro de Jerusalém

por Amálgama (28/02/2011)

"Uma enorme e óbvia injustiça paira no ar"

Abaixo, o discurso de aceitação do Prêmio Jerusalém de literatura por parte do escritor britânico Ian McEwan. O prêmio é concedido bienalmente dentro da Feira Internacional do Livro de Jerusalém. O discurso foi proferido no dia 20 de fevereiro de 2011.

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-- Ian McEwan em Jerusalém, 20 de fevereiro (foto: AP) --

Prefeito de Jerusalém, distintos membros do júri, israelenses, palestinos e cidadãos desta bela cidade, visitantes da Feira Internacional do Livro, e Zev Birger, sobrevivente de Dachau, dínamo humano, amigo da literatura e força por trás desta feira,

Sinto-me profundamente tocado por conseguir esta honra, o renomado Prêmio Jerusalém que reconhece escritos que promovem a ideia da “liberdade do indivíduo na sociedade”.

No final das contas, a qualidade de qualquer prêmio só pode ser julgada pela totalidade de seus vencedores. A relação neste prêmio é sem paralelo no mundo. Muitos dos escritores que vocês premiaram no passado há muito são parte de meu aparato mental, tendo moldado minha compreensão do que é a liberdade e do que a imaginação é capaz. Não acredito em nenhum momento que sou digno de estar ao lado de figuras como Isaiah Berlin, Jorge Luis Borges ou Simone de Beauvoir. De certa forma, estou completamente desarmado por vocês acreditarem que sou digno.

Desde que recebi o convite para vir a Jerusalém, minha vida não foi fácil. Muitos grupos e indivíduos, de diferentes formas, com graus variados de civilidade, me pediram para que não aceitasse este prêmio. Uma organização escreveu para um jornal de circulação nacional dizendo que, seja o que fosse que eu pensasse sobre literatura, sobre sua nobreza e alcance, eu não poderia escapar do lado político de minha decisão. Relutantemente, com tristeza, devo conceder que isso é verdade. Venho de um país de relativa estabilidade. Podemos ter nossos desabrigados [homeless], mas temos nossa pátria [homeland]. No mínio, o futuro da Grã-Bretanha não está em questão, a não ser que ela se fragmente por uma devolução pacífica, democraticamente concordada. Nem somos ameaçados por vizinhos hostis, nem fomos deslocados de nossos lares. Romancistas, no meu país, têm a luxúria de escreverem o muito ou o pouco que quiserem sobre política. Aqui, para romancistas israelenses e palestinos, a “situação”, ha matsav, está sempre presente, pressionando, como uma obrigação, um fardo ou uma frutífera obsessão. É uma batalha criativa abordá-la, e é uma batalha criativa não abordá-la. Eu diria, como um princípio geral, que, quando a política invade todos as esquinas da existência, alguma coisa deu profundamente errado. E ninguém pode fingir aqui que tudo está bem, enquanto a liberdade do indivíduo, isto é, de todos os indivíduos, adapta-se tão mal à atual situação em Jerusalém.

Quando decidi que viria, fui atrás do conselho de um escritor israelense, um homem que admiro profundamente. Foi bem reconfortante. Sua observação inicial foi, “Da próxima vez, consiga seu prêmio literário da Dinamarca”. Alguns dos vencedores prévios deste prêmio expressaram seus pensamentos em um encontro como este e perturbaram as pessoas. Mas todos sabem deste simples fato: quando você institui um prêmio para filósofos e escritores criativos, você abraça a liberdade de pensamento e o discurso aberto, e eu tenho a contínua existência do Prêmio Jerusalém como um tributo à preciosa tradição de uma democracia de ideias em Israel.

Gostaria de compartilhar com vocês alguns pensamentos sobre o formato do romance e a ideia de liberdade individual, que vocês escolheram como tema de seu prêmio.

A tradição de romance em que trabalho tem suas raízes nas energias seculares do Iluminismo europeu, durante o qual a condição privada, assim como social, do indivíduo começou a receber relevante atenção de filósofos. Emergiu uma classe crescente e relativamente privilegiada de leitores, que tinham tempo para refletir não apenas sobre sua sociedade, mas também sobre seus relacionamentos íntimos, e que encontraram suas preocupações refletidas e ampliadas nos romances. Em Swift e Defoe, os indivíduos são testados moralmente, e suas sociedades satirizadas ou julgadas por meio de viagens que eram fantásticas ou baseadas em relatos reais; em Richardson, tivemos talvez o primeiro relato relevante, detalhado, da consciência individual; em Fielding, foi dada a indivíduos a visão panóptica de uma sociedade no espírito de uma comédia benigna e inclusiva; finalmente, para coroar, em Jane Austen os destinos dos indivíduos foram expostos através de uma nova forma de narração, passada a sucessivas gerações de romancistas – estilo indireto livre, que permitiu que um relato objetivo em terceira pessoa se fundisse com uma coloração subjetiva – uma técnica que deu ao personagem, ao indivíduo no romance, mais espaço para crescer. Durante os séculos dezenove e vinte, nas obras de mestres como Charles Dickens, George Eliot, James Joyce e Virgina Woolf, a ilusão literária do personagem e a representação da consciência foram refinadas, resultando que o romance acabou se tornando nossa melhor e mais sensível forma de explorar a liberdade do indivíduo – e tais explorações frequentemente representam o que acontece quando a liberdade é negada.

Essa tradição do romance é fundamentalmente secular – são as coincidência ou maquinações humanas, não Deus, que ordenam os destinos. É uma forma que é plural, generosa, profundamente curiosa a respeito de outras mentes, sobre o que é ser uma outra pessoa. Em seus personagens centrais, altos ou baixos, ricos ou miseráveis, ela consegue, por uma espécie de foco e atenção autoral divina, conferir respeito ao indivíduo.

A tradição inglesa é apenas uma dentre várias, mas ela está intimamente conectada com todas as outras. Falamos de uma tradição judaica no romance – uma tradição vasta, complexa, mas ainda ligada a temas comuns: uma atitude por vezes irônica em relação a um deus; aceitação de uma subjacente comédia metafísica e, acima de tudo, em um mundo de sofrimento e opressão, profunda simpatia pelo indivíduo enquanto vítima; finalmente, uma determinação em garantir aos oprimidos o respeito que a ficção é capaz de conferir quando ilumina a vida interior. Encontramos esses traços nas alegorias existenciais de Kafka em Na colônia penal e O processo; na melancolia e beleza de Bruno Schulz; na obra de Primo Levi, que deu voz ao indivíduo em meio ao pesadelo da Shoah, aquela crueldade industrializada que permanecerá para sempre como medida última da depravação humana, do quão fundo podemos cair; na ficção de I. B. Singer, que conferiu dignidade às duras vidas dos imigrantes; em termos diferentes, encontramos um tema paralelo em Saul Bellow, cujos agonizantes herois intelectuais lutam sem sucesso para florescer em uma cultura estridente, materialista. A vítima, o estranho, o inimigo e o pária, o rosto na multidão, sempre torna-se um ser plenamente concebido, pela graça do pó mágico da ficção – um pó cuja receita é um segredo aberto: atenção plena ao detalhe, empatia, respeito.

Essa tradição é vigorosamente preservada na cultura literária de Israel – e desde o início da fundação do estado. Uma descoberta recente para mim foi Khirbet Khizeh, de S. Yizhar, publicado em 1949 – um relato vívido da liquidação de uma vila árabe durante a guerra de 48, e de um protesto que nunca abandona a garganta de seu narrador, enquanto casas são demolidas e os moradores expulsos de sua terra. É um tributo a uma sociedade aberta o fato dessa novela ter sido por muitos anos leitura requerida para alunos israelenses. Khirbet Khizeh permanece dolorosamente relevante, e o questionamento moral vive.

Há muitos escritores que se poderia mencionar, mas permitam-me selecionar três figuras de mais idade, que conseguiram o respeito e carinho de leitores em todo o mundo – Amoz Oz, Abrahim Yehoshua e David Grossman. Escritores bem diferentes, com opiniões políticas que se tocam mas que estão longe de idênticas, escritores que amam seu país, fizeram sacrifícios por ele – e estão preocupados com os rumos que vem tomando, e cujas obras nunca falham em ter aquele pó mágico do respeito, da aplicação da liberdade individual tanto a um árabe quanto a um judeu. Durante suas longas carreiras, eles se opuseram aos assentamentos. Eles e a comunidade literária mais jovem de Israel são a consciência, memória e, acima de tudo, esperança do país. Mas acho que poderia dizer desses três escritores que, em anos recentes, eles sentiram o tempo se voltar contra suas esperanças.

Eu gostaria de falar algo sobre niilismo. O Hamas, cuja carta fundadora incorpora a farsa tóxica dos Protocolos dos sábios de Sião, adotou o niilismo do homem-bomba, dos foguetes disparados cegamente em cidades, e adotou o niilismo de uma política extincionista em relação a Israel. Mas (para tomar apenas um exemplo) também foi o niilismo que disparou um foguete nas casa desprotegida de um médico palestino em Gaza, Izzeldin Abuelaish, em 2008, matando suas três filhas e sua sobrinha. É niilismo fazer de Gaza uma prisão de longo prazo. O niilismo liberou o tsunami de concreto nos territórios ocupados. Quando os distintos juízes deste prêmio louvam-me por meu “amor às pessoas e preocupação com seu direito à auto-realização”, eles parecem estar exigindo que eu mencione, e o farei, as contínuas expulsões, demolições e aquisições de lares palestinos em Jerusalém Oriental, o direito de retorno concedido a judeus mas não a árabes. Estes assim chamados “fatos da realidade” são um concreto de endurecimento despejado sobre o futuro, sobre futuras gerações de crianças palestinas e israelenses que herdarão o conflito e acharão ainda mais difícil de resolvê-lo do que é hoje, mais difícil afirmar seu direito à auto-realização.

Para o humilde ateu, a situação parece clara. Quando partes em uma disputa política inspiram-se primeiramente em seus respectivos e partidários deuses, uma solução pacífica fica ainda mais distante. Mas não estou interessado aqui em argumentos de equivalência. Uma enorme e óbvia injustiça paira no ar, pessoas foram e continuam sendo deslocadas. Por outro lado, uma democracia valiosa é ameaçada por vizinhos inamistosos, até mesmo ameaçada de extinção por um estado que pode em breve possuir uma bomba nuclear. A questão urgente é a de Lenin – o que fazer? E quando colocamos a questão, também estamos perguntando, “quem o fará, quem tem o poder para agir?” Os palestinos estão divididos, suas instituições democráticas são fracas ou não existentes, o jihadismo violento mostrou-se contraproducente. Eles têm tido pouca sorte com seus líderes. Ainda assim, muitos palestinos estão prontos para uma solução, o espírito está lá.

E Israel? Acredite ou não, há uma medida aritmética para as energias criativas de uma nação. Dê uma olhada nas edições nesta feita do livro, os números de traduções para e do hebraico, ou o número de bem sucedidas aplicações de patente (surpreendente para um país pequeno), ou os números de papers científicos citados, os avanços em tecnologias de energia solar, os ingressos esgotados para os concertos do Quarteto de Jerusalém ao redor do mundo. O índice de energia criativa é alto e também o é a competência. Mas onde está a criatividade política de Israel? O que os políticos nacionais têm para competir construtivamente com os artistas e cientistas de Israel? Certamente não a betoneira. Certamente não as ordens de despejo. Todos nós lemos os documentos vazados pela Al Jazeera. Aquilo certamente não foi o melhor que os políticos israelenses podiam fazer, quando sucumbiram ao que David Grossman chamou de “a tentação do poder” e desprezaram concessões extraordinárias da Autoridade Palestina.

Nesse contexto, o oposto do niilismo é a criatividade. A disposição para mudança, o apetite por liberdade individual que está se espalhando pelo Oriente Médio, é uma oportunidade mais que uma ameaça. Quando egípcios decidem em massa reformar sua sociedade e pensar construtivamente, e tomam a responsabilidade por sua nação em sua próprias mãos, eles estarão menos inclinados em culpar estrangeiros por todas suas infelicidades. Esse é precisamente o tempo para se recomeçar o processo de paz. A nova situação demanda um corajoso e criativo pensamento político, não um recolhimento à mentalidade de bunker ou um avanço por trás de ainda mais concreto.

Em sua recente visita aqui, a Alta Comissária da ONU Para os Direitos Humanos observou que os disparos de foguetes em Israel a partir de Gaza constituem um crime de guerra. Ela também disse que a anexação de Jerusalém Oriental infringe a lei internacional e que Jerusalém Oriental está sendo regularmente drenada de seus habitantes palestinos. Há algumas semelhanças entre um romance e uma cidade. Um romance, claro, não é meramente um livro, um objeto físico com páginas e capas, mas uma espécie particular de espaço mental, um local de exploração, de investigação da natureza humana. Da mesma forma, uma cidade não é apenas um aglomerado de construções e ruas. Ela também é um espaço mental, um campo de sonhos e disputa. No interior de ambas entidades, pessoas, indivíduos, imaginários ou reais, lutam por seu “direito à auto-realização”. Permitam-me repetir – o romance como uma forma literária nasceu do respeito e da curiosidade em relação ao indivíduo. Suas tradições o empurram rumo ao pluralismo, à abertura, a um desejo compassivo de habitar as mentes de outros. Não há um homem, mulher ou criança, israelense, palestina ou de qualquer outra nacionalidade, cuja mente o romance não possa amavelmente reconstruir. O romance é instintivamente democrático. Agradecidamente aceito este prêmio, na esperança de que as autoridades em Jerusalém – que espero um dia ser uma capital gêmea – olharão para o futuro de suas crianças e os conflitos que potencialmente poderão tragá-las, acabem com os assentamentos e usurpações, e aspirem criativamente à condição aberta, respeitosa e plural do romance, a forma literária que elas honram na noite de hoje.

tradução: Daniel Lopes
você poder ler o original no site do autor

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