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Tradução | As revoluções do Oriente Médio vistas da China

por Amálgama (18/02/2011)

Autoridades chinesas têm feito de tudo para que as notícias da insurreição popular egípcia não se espalhem

Perry Link, no New York Review of Books / 17 de fevereiro

Autoridades chinesas têm feito de tudo para que as notícias da insurreição popular egípcia não se espalhem pelo país. As informações sobre o Egito que aparecem na mídia chinesa comandada pelo estado têm sido breves e vagas. No dia 6 de fevereiro, ponto alto dos protestos, o Diário do Povo informava aos leitores que “o governo do Egito continua a executar várias medidas para ajudar na restauração da ordem social.” Mas na internet chinesa, que, apesar do rigoroso policiamento, é difícil de ser sufocada, Mubarak levou uma surra: “autocrata”, “assassino corrupto” e por aí vai. Assim, enquanto os censores chineses classificavam a palavra Mubarak (junto com “Egito” e outras) como “sensível” e estabeleciam filtros para deletar qualquer mensagem que a contivesse, os usuários de internet chineses, em seu usual jogo de gato e rato, inventavam substitutos engenhosos. Entre estes, incluem-se “Mu Xiaoping” e “Mu Jintao” – que, ao jogarem com os nomes dos autocratas da própria China, contornaram as vistas dos censores e, ao mesmo tempo, acabaram no topo das listas.

A revolta egípcia é um fato incômodo para os dirigentes da China porque enfraquece um de seus argumentos favoritos. Há muito tempo eles alegam que a China tem “características especiais” (querendo dizer com isso que seu povo prefere autoritarismo, pelo menos por enquanto) e que as exigência no país por democracia e direitos humanos são meros resultados de forças subversivas “anti-China” localizadas em países ocidentais. Mas se essa teoria é verdadeira, será preciso explicar por que milhões de egípcios estavam se opondo a Mubarak, que era um cliente dos EUA. Claramente algo mais profundo os estava motivando.

O exemplo da Tunísia levanta uma questão parecida, igualmente incômoda. Para os dirigentes chineses, Zine El Abidine Ben Ali, o ditador deposto, teria sido visto como um seguidor de sua própria abordagem – o chamado “modelo chinês” – de crescimento econômico combinado com repressão política, e tido bastante sucesso com ele, ou pelo menos foi no que se acreditou por muitos anos. Mas o povo tunisino tomou as ruas para derrubá-lo. Será que o povo queria mais que um modelo chinês? Como isso pôde acontecer?

Em anos recentes, ativistas chineses identificaram liberdade, democracia, direitos humanos e dignidade humana como “valores universais”: essa é uma das ideias centrais da Carta 08, o documento pró-reforma que o governo tentou com tanto empenho reprimir. Os dirigentes contra-atacaram alegando que os “assim chamados” valores universais são meramente “táticas traficadas pelo Ocidente.” Esse confronto tem gerado um “debate sobre valores universais” nos círculos intelectuais chineses, onde o lado do governo, beneficiado pelo controle da mídia, até recentemente encarava como apenas seu. Mas quando jovens na Tunísia e no Egito (logo lá!) falam a favor de valores universais, a alegação de que esses valores são paroquiais e impostos pelos EUA e seus aliados ocidentais fica fragilizada.

As revoltas na Tunísia e no Egito não teriam acontecido sem Facebook ou Twitter. Jovens usaram essas mídias sociais para se comunicarem e se organizarem, e os aparatos repressivos de seus governos não puderam acompanhar o passo. O Facebook ainda está para entrar na China de forma mais relevante, mas o Twitter já faz uma grande diferença. As conversações diretas que Wang Lixiong conseguiu arranjar entre o Dalai Lama e milhares de cidadãos chineses, por exemplo, todas foram feitas pelo Twitter, e o Twitter é o meio preferido para conversas entre pessoas que querem permanecer um passo à frente da polícia da internet

Mas o primor da tecnologia é apenas uma das razões para que Liu Xiaobo, o chinês vencedor do Prêmio Nobel da Paz, tenha chamado a internet de “um presente de Deus para a China”. Ainda mais importantes para os wangmin chineses, ou “web-cidadãos”, foi a libertação psicológica permitida pelo anonimato online. Durante todo o período comunista, a censura midiática chinesa foi baseada largamente em auto-censura movida pelo medo. Mas esse mecanismo funciona apenas quando a autoridade indutora do medo sabe quem você é. A expressão multifacetada e honesta que pode ser encontrada hoje na internet chinesa é feita quase inteiramente sob pseudônimos. As autoridades baniram o uso de pseudônimos, mas quando 400 milhões de pessoas utilizam deles mesmo assim, o que se pode fazer?

Ao testemunhar os movimentos populares que ocorrem no Cairo, em Túnis, Bahrein e em vários outros locais nas últimas semanas, as mídias sociais e a internet ampliaram sua visão até mesmo dos ativistas democráticos chineses, incluindo os autores da Carta 08. Falando com alguns deles recentemente, eu soube que eles também estavam um pouco surpresos de verem a democracia brotando no norte da África. Inicialmente eles não sabiam exatamente o que fazer dos eventos. Até agora, eles haviam se identificado mais com dissidentes da Europa Oriental do passado, tais como Adam Michnik e Vaclav Havel (cuja Carta 77 tcheca serviu de inspiração para a Carta 08 chinesa). Eles veem esses europeus como oponentes de antagonistas semelhantes ao seu – ditaduras comunistas – e como pessoas que compartilham dos mesmo objetivos: democracia e direitos humanos do tipo que alguém como Havel articula tão bem. Em contraste, muitos chineses, mesmo, em certa medida, ativistas democráticos, foram ensinados que os africanos são “atrasados”; e desde a “guerra ao terror” liderada pelos EUA, certos ativistas pareceram por vezes prontos a darem credibilidade às representações negativas do mundo muçulmano elaboradas pelos EUA. Ao pensarem para além dessas barreiras, entretanto, esses ativistas começaram a abraçar os democratas norte-africanos como camaradas. Um deles me disse, “Ainda que eles escolham algo que nós não escolheríamos” – como um estado islâmico – “se eles chegarem até lá democraticamente, devemos defender sua escolha.” Mesmo assim, nenhum dos ativistas com quem falei acha que seria prático convocar neste momento protestos de rua ao estilo egípcio.

Como os egípcios se sentiriam em relação à China, seja tento em vista o governo em Beijing ou o pessoal que endossou a Carta 08, é difícil de dizer. Mas é bem interessante que uns poucos cartazes nos protestos em Tahrir Square – “Fora Mubarak!” e “O Povo Egípcio Exige Que Mubarak Renuncie” – estavam escritos em chinês.

Conseguirão os regimes autoritários do mundo parar a marcha da democracia internética? Durante cinco dias de protestos, os empregados de Mubarak conseguiram derrubar a internet e, por um período, redes de telefonia celular. Essa é uma tática que as autoridades chinesas já haviam tentado – na região oeste de Xiajiang, após distúrbios em julho de 2009, essa medida logrou uma queda quase total durante 312 dias. No ano passado, Xiao Qiang, um especialista em internet, participou de um debate com um homem da elite política chinesa sobre a “ameaça à estabilidade” representada pela internet. Como que jogando a carta da manga, o homem disse em certo momento, “Se formos forçados, podemos tirar a coisa toda da tomada.” Xiao diz que isso lhe deu um repentino calafrio.

Mas será que as autoridades chinesas realmente poderiam fazer isso? Elas provavelmente gastam dezenas de bilhões de yuan anualmente para controlar a internet; fontes oficiais revelaram que o governo gasta cerca de 500 bilhões de yuan (76 bilhões de dólares) por ano em “manutenção da estabilidade” doméstica. Ainda assim, uma derrubada por completo poderia se mostrar tecnicamente difícil de ser realizada. E mesmo que fosse factível, tantas pessoas hoje em dia na China dependem da internet – não apenas para fazer comentário político, mas também para informação, comércio, recreação e comunicação – que “tirar da tomada” seria verdadeiramente cataclismático e dificilmente resultaria em “estabilidade”.

Desde que Henry Kissinger foi à China em 1971 para abrir relações entre os governos chinês e americano, a política dos EUA em relação à China tem sido prejudicada por uma inabilidade de ver que a China é muito mais do que, e frequentemente bastante diferente de, seus governantes. Mesmo o repulsivo massacre pelo regime de seus cidadãos na Praça Tiananmen em 1989 gerou apenas um distanciamento parcial e efêmero do princípio de que a “China” é a liderança do Partido Comunista, e só. Em semanas recentes, no entanto, houve alguns sinais de que o governo Obama está se distanciando dessa terrível miopia e pode finalmente estar disposto a passar direto pelo governo chinês e se comunicar com os chineses que estão em segundo plano. No dia 13 de janeiro, o presidente Obama se encontrou pessoalmente com cinco ativistas americanos que há anos pressionam os EUA para fazerem exatamente isso. No dia 15 de fevereiro, a secretária de Estado Hilary Clinton discursou sobre liberdade na internet e disse que os EUA estão comprometidos a ajudar pessoas na China e em qualquer lugar a “driblarem os filtros, ficarem um passo à frente dos censores” e juntarem-se a uma internet livre e aberta. Ela disse que os EUA planejam dispor este ano de 25 milhões de dólares para doar a “tecnólogos e ativistas na linha de frete da luta contra a repressão na internet.”

Os americanos devem aplaudir essa iniciativa. Em princípio é um movimento na direção correta. Mas precisamos perguntar se as proporções estão corretas. Como se pode comparar os 25 milhões por ano com as várias centenas de milhões por dia que as guerras no Afeganistão e no Iraque estão custando? E qual método – lutar contra a repressão na internet ou lutar guerras – parece ser mais provável para ajudar no triunfo da democracia?

tradução: Daniel Lopes
original, aqui

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