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Estupor de heroína

por Amálgama (13/02/2012)

A jornalista D. Scroggins se dedica a atacar Hirsi Ali, mas suas teses são muito mal defendidas

Andrew Roberts*, na Tablet Magazine / 2 de fevereiro

“Wanted Women - Faith, lies, and the war on terror”, de Deborah Scroggins

Ocasionalmente aparecem alguns livros que são tão profundamente desagradáveis, mesmo repulsivos, que chegamos a sentir necessidade de lavar as mãos após a leitura. Encharcados de incessantes preconceitos, e completamente carentes de uma perspectiva maior, tais livros deixam o leitor em desespero devido ao vácuo moral no qual foram escritos. Tal é o caso do novo livro da jornalista americana Deborah Scroggins, Wanted women, que explicitamente deseja traçar um paralelo entre as vidas de duas mulheres que ela apresenta como “imagens reflexas” na guerra ao terror: a terrorista islamista nascida no Paquistão Aafia Siddiqui e a ativista pelos direitos das mulheres muçulmanas nascida na Somália Ayaan Hirsi Ali.

Compreende-se imediatamente por que Siddiqui justificaria o termo “Procurada” do título do livro: ela esteve presente na lista de Terroristas Mais Procurados do FBI em maio de 2004. Porém, a única forma em que a palavra se aplica a Hirsi Ali é que, desde que uma fatwa foi declarada contra ela após o assassinato de seu amigo, o cineasta Theo van Gogh, fundamentalistas islâmicos querem matá-la. É precisamente essa equiparação frouxa, fácil, de uma entidade legal, constitucional e democrática como o FBI a assassinos viciosos como o de van Gogh, Mohammed Bouyeri, que decapitou o cineasta numa manhã de novembro em Amsterdã, que torna o livro tão profundamente inaceitável. Além de umas duas sentenças de mea culpa que foram claramente inseridas pro forma, todo o leitmotif de Scroggins está repleto de equivalências morais desprezíveis. Ela até mesmo dedica capítulos alternados para cada uma das mulheres ao longo do livro.

A óbvia aversão pessoal da autora a Hirsi Ali torna aparente que, das duas mulheres que está descrevendo, Scroggins está mais disposta a justificar as ações da terrorista do que as da pessoa alvo de terrorismo. Hirsi Ali, os leitores devem lembrar, é a ativista dos direitos humanos que luta contra a mutilação genital feminina forçada, denuncia os chamados crimes de honra e ressalta como o Corão justifica os maus tratos a mulheres. Siddiqui é uma terrorista viciosamente antissemita atualmente servindo 86 anos na prisão por tentativa de assassinato.

Ao longo do livro, há o pressuposto de que conservadores políticos de todas as matizes são meros fanáticos, e que “ocidentais que querem manter o mundo muçulmano sob controle ocidental usam as atitudes islâmicas em relação às mulheres, nem tanto para ajudar a libertar as mulheres muçulmanas, mas para justificar a contínua dominação ocidental de homens muçulmanos.” Que pura e completa besteira. Desde a Crise do Suez, em 1956, ocidentais não querem manter o mundo muçulmano sob controle ocidental, e as atitudes islâmicas em relação às mulheres realmente desagradam ocidentais, homens e mulheres, conservadores e – teoreticamente, pelo menos – liberais. Por último, onde estão esses países em que homens muçulmanos sofrem “contínua dominação” de ocidentais? Scroggins não nomeia um só. Se há dominação, haja visto as leis draconianas de muitos países muçulmanos, são judeus e cristãos que a sofrem, quase que por todo o Oriente Médio – um fenômeno que a Primavera Árabe, tragicamente, não mostra sinais de aliviar.

Escrevendo sobre uma palestra que Hirsi Ali daria, Scroggins alega que “algumas das atitudes anti-gay que ela planejava criticar não eram muito diferentes daquelas de alguns republicanos conservadores.” É mesmo? Mostre-me uma medida parlamentar por meio da qual republicanos conservadores tenham tentado mudar a lei para permitir que homossexuais sejam enforcados, como aconteceu a três gays no Irã no útimo mês de setembro. Aqueles inocentes foram apenas as últimas vítimas da sede de sangue daquele país contra homossexuais. Ao alegar que Siddiqui e Ali são, como ela coloca, “imagens reflexas uma da outra”, Scroggins, uma premiada ex-correspondende estrangeira do Atlanta Journal-Constitution, deveria produzir séria evidência factual para apoiar sua tese. No entanto, seu livro está repleto de ouvi-dizer, o que sugere que ela está simplesmente usando suposições para preencher os enormes vazios entre os seus conhecimentos e suas fontes – que frequentemente são websites, artigos de revista e outros livros tão tendenciosos como o seu próprio, e que cita nas notas de rodapé. Assim, nos deparamos com um bocado de termos esquivos, tais como “é dito”, “alguns de seus amigos se perguntaram”, “de acordo com um relato”, “diz-se que ela”, “provavelmente”, “deve ter sido” e “noticiou-se que”. Isso não é bom o bastante para sustentar um ataque de 539 páginas contra Hirsi Ali, alguém que muita gente – inclusive este resenhista – vê como uma das mulheres mais corajosas e admiráveis entre as que hoje vivem.

Vários dos ataques de Scroggins são auto-contraditórios. O marido de Hirsi Ali, o historiador britânico Niall Ferguson, é acusado de ser “mão-de-vaca”, mas também de “pretensamente ter gasto muitos milhares de dólares” em uma festa de aniversário da esposa. Da mesma forma, Hirsi Ali é acusada de estar “escondida” na América, mas também de constantemente se autopromover e se apresentar como superior. O incessante deboche da autora – Hirsi Ali “geme” ao invés de argumentar – muito rapidamente empalidece enquanto técnica literária.

De acordo com este livro, Hirsi Ali tem uma “mente de uma só via”; uma vez utilizou os serviços de um escritor fantasma; “juntou-se ao coro do AEI” (isto é, concordou com muitas das posições adotadas pelo American Enterprise Institute, a think tank baseada em Washington). No entanto, quando observamos esses ataques um pouco mais de perto, eles ou colapsam ou naturalmente levam à pergunta: E Daí?

A verdade é que, longe de ter uma mente de uma só via, Hirsi Ali, como provam suas autobiografias best sellers Infiel e Nômade, tem levado uma vida rica, variada, fascinante e corajosa. Ela foi uma parlamentar holandesa e bem sucedida oradora. Ela tem interesse pelas artes, fala várias línguas, trabalhou em uma fábrica de suco de laranja e em uma fábrica de biscoitos, aconselhou presidentes e primeiros-ministros, e agora é mãe de uma bebê de 1 mês. Quantas vias mais Scroggins deseja? Agora, se o mesmo pessoal que decapitou Daniel Pearl e Theo van Gogh lançasse uma fatwa contra mim, eu bem poderia desenvolver uma mente de uma via. Mas isso não é verdade em relação a Hirsi Ali.

De fato, se as obsessivas críticas neste livro indicam alguma coisa, é a própria Scroggins – a propósito, que nome maravilhosamente trollopiano – quem sofre de mente de via única. A maneira como ela sensivelmente relembra e reprisa cada resenha negativa que Hirsi Ali recebeu por seus livros – incluindo rudes legendas de imagens da imprensa de esgoto –, ao mesmo tempo que evita as resenhas positivas, também deixa claro a total falta de objetividade do livro.

Há ainda não menos que 15 páginas dedicadas às supostas mentiras de Hirsi Ali. As mentiras a que Scroggins se refere como proferidas por Hirsi Ali são sobre sua idade e nome familiar completo no formulário de admissão na Holanda, sobre os quais ela própria já escreveu à exaustão antes que Scroggins encostasse a caneta no papel. É claro que uma mulher tentando escapar de sua família e religião não iria preencher corretamente todos os detalhes em formulários de imigração – um pensamento que parece não ter ocorrido à sempre reprovadora Scroggins, que descreve um dos livros de Hirsi Ali (erroneamente) como “um pequeno retalho de artigos de opinião bastante editados”, o que ironicamente é precisamente o que seu próprio livro vem a ser, exceto que não foi editado o bastante. Ela admite que não consegue dar suporte às suas alegações de que Hirsi Ali inventou a história do casamento arranjado com um primo que nunca havia visto, de forma que o que nos resta é uma jovem mulher desesperada para escapar de seu país, família e fé, contando duas pequenas mentiras para oficiais de imigração. Comparemos portanto essas mentiras leves, essencialmente compreensíveis, com as enormes e negras mentiras contadas por Siddiqui em seu julgamento, dois anos atrás, que Scroggins cobre em menos de três páginas.

Quando Siddiqui foi presa no Afeganistão em julho de 2008, após cinco anos de fuga, ela estava de posse de um drive de computador contendo planos para a elaboração de armas convencionais e armas de destruição em massa; notas de seu punho sobre planos de ataques terroristas; instruções sobre como construir mísseis com o poder de derrubar aviões não tripulados; descrições de marcos de Nova York, com referências a vítimas em massa; e novecentas gramas de cianeto de sódio em uma jarra de vidro. Na seleção do corpo de jurados para seu julgamento em uma corte de Manhattan, em janeiro de 2010, ela exigiu que não deveria passar ninguém com “antecedente sionista ou israelense.”

Como – sob tais circunstâncias, e dado o fato de Siddiqui subsequentemente ter tentado cometer assassinato com um rifle de assalto M-4, quando capturada por forças americanas e paquistanesas – Scroggins consegue escrever que “se Aafia tivesse escutado seus advogados, ela poderia ter sido absolvida”, é uma boa pergunta. Quando Siddiqui começou a falar, a promotoria rapidamente a pegou na mentira sobre quase todos os aspectos da tentativa de assassinato, e sobre sua vida e carreira, exatamente como membros da Al Qaida são treinados a proceder. Comparar isso, como este livro implicitamente o faz, com Hirsi Ali não contando a agentes imobiliários que ela não gosta das casas que eles estão lhe exibindo, é patético ao ponto de ser risível. Ainda assim, Scroggins escreve, Siddiqui demonstra “piedade” e “excelência acadêmica.” Por levantar fundos para uma associação de caridade na Bósnia, Hirsi Ali é retratada como falsa e “gastadora”.

A clitoridectomia forçada pela qual Hirsi Ali passou na Somália aos 5 anos de idade é tratada neste livro com algo comparável a feliz desprezo. Lemos que os pais de Ali “provavelmente não viam a mutilação genital feminina com a mesma repulsa que muitos ocidentais sentiam.” Lá vai mais uma vez aquela palavra “provavelmente”, e no entanto temos conhecimento de que o pai de Ali chegou a dizer que não queria que a filha passasse por isso. Mas, porque “quase toda mulher que eles conheciam eram infibuladas”, Scroggins implica que eles estavam fazendo tempestade em copo d’água, e de qualquer jeito talvez ela ache que expressar repulsa diante de tais práticas seja apenas uma forma de dominação ocidental sobre muçulmanos. “Como o biquíni e a burca, ou a virgem e a puta”, escreve Scroggins com uma malícia de tirar o fôlego, se você considerar o contexto, “não se pode entender bem um sem entender o outro.” Siddiqui usa burca, então que tipo de mulher esta sentença implica que Hirsi Ali seja?

Não perca tempo lendo este livro moralmente oco. Se for ler, mantenha por perto água e bastante sabonete.

* Andrew Roberts  é historiador e jornalista. Seu livro mais recente é
The storm of war: A new history of the Second World War (Allen Lane, 2009)
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::: Wanted Women ::: Deborah Scroggins :::
::: Harper, 2012, 560 páginas :::
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