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Resenha de "Filosofando no cinema: 25 filmes para entender o desejo", de Ollivier Pourriol

"Filosofando no cinema: 25 filmes para entender o desejo", de Ollivier Pourriol

“Filosofando no cinema: 25 filmes para entender o desejo”, de Ollivier Pourriol

Ollivier Pourriol gostou de pensar a filosofia dentro do cinema. Depois de Cinefilô (2009), em que a partir de vários filmes discorreu sobre questões clássicas como liberdade, consciência e existência, em Filosofando no cinema ele parece querer iniciar uma nova série, focada em temas específicos. Neste livo, “25 filmes para entender o desejo”.

Filmes são sempre um ótimo espaço para observar e discutir questões humanas. Narrativas visuais que proporcionam uma imersão perceptiva. E é claro que sempre vale a máxima, gosto não se discute. Porém, Pourriol parece discutir apenas filmes de que gostou muito, pois os descreve com empolgação em vários momentos.

Na primeira olhada no sumário de Filosofando no cinema, pude notar que só há um filme em que a personagem principal é uma mulher que não está num relacionamento amoroso com um homem. Talvez seja aquele velho problema da produção cinematográfica, que geralmente insiste em não fazer grandes filmes com protagonistas mulheres vivendo plenamente suas vidas, sem estarem necessariamente atreladas ao desejo do outro. Ou talvez seja mesmo porque o livro é escrito por um homem heterossexual, pois entre os filmes citados não há aqueles que fujam da heteronormatividade. Então, em um livro que propõe debater o desejo no cinema, senti falta de títulos como A bela da tarde, Desejo de matar, Brokeback Mountain, Instinto selvagem, Perdidos na noite e Meninos não choram, para ficar em alguns que vieram a mente durante a leitura.

Apesar disso, o livro tem seu valor. É de rápida leitura e os artigos sobre cada filme são curtos. Imagino que seja bem aprazível lê-lo no formato e-book. É dividido em seis grandes temas: “Objetos de desejo”, “O desejo de reconhecimento”, “O desejo mimético”, “A loucura do desejo”, “O tempo do desejo” e “Vertigem do amor”. O que demonstra que o livro não se fixa apenas no desejo carnal.

O artigo mais longo é sobre o filme que emprestou uma cena para a capa do livro, Beleza americana (1999), que fala muito sobre a fantasia e o tempo do desejo, de como ele muitas vezes não atinge seu objetivo, mas preenche o indivíduo. Uma particularidade entre os filmes é que Casino (1995), de Martin Scorcese, é citado em dois artigos, que para mim analisaram a mesma coisa, o relacionamento entre os personagens Sam e Ginger, que vivem para dar prazer aos outros e cobram um preço alto por isso. O filme mais curioso entre os analisados é THX 1138 (1971), o primeiro de George Lucas, que traz uma visão pessimista de um futuro onde os contatos humanos deixaram de existir. Meu artigo favorito é o que trata de Ligações perigosas (1988), por ser um filme rico em diferentes situações de desejo, quando o que se está em jogo é muito mais que uma aposta entre nobres da França pré-revolução.

Pourriol me decepcionou um pouco na escolha dos filmes analisados, porque, para um livro sobre desejo, esperava mais transgressão. Porém, o que é apresentado é feito de forma acessível, a partir de diferentes filósofos, como Sartre, Deleuze, Bergson e Hegel. É como se a Sofia de O mundo de Sofia estivesse com 30 anos e fosse convidada a analisar a categoria do desejo em alguns filmes que fizeram parte de sua adolescência. O filme mais recente do livro é Menina de ouro (2004).

::: Filosofando no cinema: 25 filmes para entender o desejo :::
::: Ollivier Pourriol (trad. André Telles) :::
::: Zahar, 2012, 244 páginas :::
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Bia Cardoso

Feminista, coordenadora de grupos de mulheres na internet.