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Contra a asfixia na Venezuela

por Amálgama (23/02/2014)

Não reconhecer ao outro e encurralá-lo é uma forma de violência

Alberto Barrera Tyszka, no El Nacional / 23 de fevereiro

- Bandos armados chavistas em Caracas -

– Bandos armados chavistas em Caracas –

“Nenhum burguesinho pirralho vai dizer à maioria da juventude venezuelana qual é o caminho da pátria! O caminho da pátria já o disse Hugo Chávez no 4 de fevereiro [de 1992, data da fracassada tentativa de golpe de Chávez]!”. Assim gritou o ministro Víctor Clark em Yaracuy, alguns dias antes do 12 de fevereiro, com ânimo acalorado e leves inflexões no tom de voz. Como se tivesse estudado oratório em Havana. Em seu discurso, denunciava o terrorismo e acusava de golpismo os estudantes que ganharam quase todas as eleições nas universidades do país. Mas o melhor de tudo foi seu argumento: a história já está traçada. Nós demos um golpe de Estado primeiro. Fodam-se.

O procedimento perverso que converte as vítimas de uma agressão nos culpados por essa agressão vai, no entanto, ainda mais além da criminalização dos protestos. Ele tem relação com um mecanismo anterior, com a promoção oficial de um conceito: para o poder, a oposição não faz parte do povo. Só se pode ser povo a partir da fidelidade cega ao governo. O que está além disso é ilegítimo. Trata-se de um delito contra a nacionalidade: ser de oposição é estar proscrito da identidade nacional. Por isso, qualquer protesto está condenado de antemão. O indivíduo protestando é alguém que já não tem pátria.

Mas a isto, claro, deve-se somar o desatino de uma convocatória que leva um nome que só produz confusões e miragens: “A Saída”. Leopoldo López, com habilidade e aproveitando diferentes mal-estares sociais, impôs sua agenda ao resto da oposição. Construiu um teatro efetivo e, certamente, levou a cabo um chamado radical que pretendia paralisar o país. Nada disso, no entanto, é até agora um golpe de Estado. Pode ser um desacerto político, mas não é um crime. Quando Chávez saiu da prisão em 1994, se cansou de convocar mobilizações exigindo a renúncia imediata do então presidente Caldera. E já não estava em uma intentona golpista. Estava fazendo política.

O crime está do outro lado. Mas disso o poder não quer falar. Faz silêncio a Defensoria do Povo. Denunciam conspirações sem apresentar provas. O governo sempre apresenta indícios ao invés de evidências. É surpreendente como o oficialismo passou a invocar a promiscuidade da internet. É verdade que existem imagens falsas, há imagens de outros tempos, de outros lugares… Mas não são todas as imagens. São a minoria. E elas não podem servir para esconder o resto da realidade. O poder se agarra à mínima distorção para desqualificar as denúncias e os testemunhos reais das vítimas, para ocultar o que ocorre e justificar sua agressão brutal. Que Luisa Ortega Díaz [Fiscal Geral do Ministério Público] subestime a violência oficial dizendo que os manifestantes são um grupo de venezuelanos que “não querem seu país” é, não apenas assustador, mas criminoso. Assim se legitima a repressão. Dá-lhe, inclusive, um valor sentimental.

A tese do golpe de Estado, esgrimida pelo governo antes mesmo de qualquer ação que um opositor venha a propor, é muito útil: põe a culpa nos que saem às ruas, e ao mesmo tempo santifica o castigo a que são submetidos. Mas isso deixa mortos, feridos, cenas de terror inesquecíveis… consequências que não se pode apagar. Não se lava as manchas de sangue com retórica.

A origem da violência está também em um Estado sem controle, opaco, que insiste em impor seu projeto. Um estado perseguidor, ansioso, empenhado em invadir e ocupar todos os espaços. Porque não reconhecer ao outro e encurralá-lo é uma forma de violência. A criação de poderes paralelos é violência. Burlar os resultados do referendo de 2007 e implementar o que foi rechaçado pelo povo é violência. Violência é o apagão midiático e a negação de papel para a imprensa. Que a ministra da Defesa se declare chavista é uma forma de violência. A lista poderia ser interminável. Não há conspiração na Venezuela de hoje, mas sim defesa da vida. Enquanto a asfixia for um plano do governo, sempre haverá um pedaço do país lutando para conseguir respirar.

* tradução: Daniel Lopes

Amálgama

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