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A esquerda latino-americana sem memória

por Amálgama (25/02/2014)

A crise da Venezuela mostra a crise da esquerda no continente

Héctor S. Schamis, no El País / 23 de fevereiro

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Em meados dos anos sessenta, boa parte da América Latina estava sob regimes militares. Segundo diziam, era para se combater a subversão armada que buscava tomar o poder. Para os hierarcas militares, não era uma guerra fria nem convencional, onde se vê as cores do inimigo em sua frente; essa era uma guerra “suja”. A estratégia marxista seria se confundir com a população civil, operar na clandestinidade. Assim justificaram a repressão ilegal e indiscriminada. Ocorria geralmente durante as noites, para aterrorizar a população. Estava a cargo de pessoas sem uniforme em veículos sem identificação, nos quais se levavam os detidos a centros de reclusão clandestinos. Ali, alguns eram legalizados e transferidos para prisões oficiais. Outros, a maioria, eram executados. Desapareciam, já que não se expedia qualquer documentação de seu falecimento; terrorismo de estado em ação.

Com Carter na presidência americana, entretanto, teve início uma nova política externa: a promoção dos direitos humanos. Videla e Pinochet viram o novo cenário como uma vacilação de Washington diante do comunismo, mas a esquerda o viu como uma proteção, e começou a dar-se conta de que essa noção era muito mais que uma formalidade da democracia burguesa. O governo Carter respaldou a OEA, e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos enfrentou com convicção as ações ilegais desses estados repressivos. Assim foi como vieram a ser instalados os direitos humanos na agenda progressista da região. Assim se fez a democratização nos anos oitenta.

Os líderes latino-americanos de hoje, nos governos e nos organismos multilaterais, foram parte dessa história. Alguns foram encarcerados, muitos exilados, a maioria teve familiares e amigos desaparecidos, e quase todos foram vítimas da violação de direitos. O que pensarão eles, em sua intimidade, sobre a crise da Venezuela, especialmente vendo os paramilitares motorizados, os chamados Tupamaros, atirando à queima-roupa pelas ruas escuras de San Cristóbal ou Caracas? Tudo isso enquanto as forças regulares apenas assistiam e as mulheres, chorando aos gritos em suas janelas, faziam vídeos com seus celulares. O que dirão eles sobre os mortos pelas costas e com tiros na cabeça, as torturas e as humilhações denunciadas, as detenções ilegais, a censura e a expulsão de jornalistas?

A crise da Venezuela será um divisor de águas para toda a região porque pega de surpresa uma esquerda sem memória, conceitualmente perdida, desconectada de sua própria história e normativamente à deriva. Daí as respostas – ou não-respostas – a esta crise: o silencia, a confusão, o burburinho sem sentido, ou ainda a negação, mecanismo de defesa inconsciente que neste caso parece ser bem consciente. Dilma e Bachelet, assim como Mujica (que pensará ele sobre os Tupamaros?) e a OEA, deixaram como está para ver como fica. O Mercosul tampouco disse nada, e olha que por muito menos que isto – a destituição pacífica Lugo – expulsaram o Paraguai do bloco.

Os que ficam calados são mais lúcidos, na verdade, porque os que se pronunciam soam como se estivessem numa confissão de ignorância: desconhecem como funciona uma democracia e não se incomodam em mostrá-lo; ignoram o que sejam direitos humanos e não os encaram de perto. Em Cuba, o Granma se referiu à importância de Maduro para assegurar o suprimento regular de petróleo – Cuba faz tempo que trocou o vermelho romântico pelo negro realista. Correa – nas vésperas de ser derrotado na eleição para o governo da cidade de Quito – e Morales apoiaram Maduro sem muitos argumentos, como era de se esperar.

Cristina Kirchner lançou sua costumeira verborragia, e aproveitou a cadeia nacional para apoiar Maduro fervorosamente, por ter sido “o ganhador legítimo das últimas eleições”. Ela não entende que vitória eleitoral não dá cheque em branco, que a sociedade tem o direito de reclamar contra a insegurança, a inflação, o desabastecimento e a censura – o que também ocorre na Argentina –, e que é uma obrigação do governo resolver esses problemas. Muito menos entende ela que uma eleição, por si, não define um governo como democrático. À eleição, se deve somar a maneira como o governo exerce o poder, que deve ser de acordo com preceitos constitucionais que garantam e reforcem os direitos dos cidadãos. Sabiam que Salazar, Stroessner e Suharto, entre tantos outros, também chegaram ao poder através do voto? Há algum livro de história que os considere democráticos?

O próprio Maduro falou na noite da última sexta-feira. Fez referência aos governos “progressistas, de esquerda e socialistas que estão transformando a América Latina, conseguindo unir o continente, defendendo os humildes e o cidadão comum”. Também falou, no entanto, de “maiorias permanentes”, uma noção alheia à democracia, que se baseia justamente na alternância. E se queixou daqueles no continente que expressaram preocupação com as violações de direitos – Martinelli, Piñera, Santos, Alan García –, por intrometerem-se em assuntos internos da Venezuela. Maduro ignora, obviamente, que é exatamente essa a característica dos direitos humanos e dos tratados internacionais que os consagram: a jurisdição é internacional. Foi o que ocorreu a Pinochet em Londres em 1998, por exemplo. Um juiz espanhol (também hoje em silêncio, a propósito) o acusou em um tribunal britânico por crimes de lesa humanidade, invocando o direito internacional.

A crise da Venezuela é profunda e incerta, mas veio para mostrar outra crise, talvez mais profunda e de futuro ainda mais incerto: a crise da esquerda latino-americana, perdida intelectualmente e tomada por uma hipocrisia quase inimaginável, uma verdadeira crise de identidade. A violência na Venezuela de hoje será um divisor de águas porque o legado mais perverso que gerará será sofrido pela própria esquerda democrática, o verdadeiro progressismo, que tem diante de si uma tarefa titânica: descontaminar e recuperar uma linguagem que lhe foi roubada pelo autoritarismo bolivariano, que, enquanto a utilizava, a esvaziou de significado. Grande ironia, considerando que o camarada Maduro luta o tempo todo contra os fascistas.

* tradução: Daniel Lopes

Amálgama

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