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Venezuela: o “paraíso socialista” predileto da esquerda está despencando para a pobreza e a ditadura

por Amálgama (23/02/2014)

É assim que todas as tentativas de implementar o marxismo terminam

Tim Stanley, no The Telegraph / 21 de fevereiro

Como andam as coisas na Venezuela, aquele paraíso do socialismo democrático? Você deve se lembrar da Venezuela. Esse é o país que Diane Abbott disse que estava mostrando “um caminho melhor“, que Owen Jones nos falou que provou ser “possível ser comandado por um governo progressista, popular e que diz não ao neoliberalismo“? A menina dos olhos de Marx, a última esperança para a humanidade em um mundo de banqueiros gatunos e avarentos austeros. A Copacabana da revolução internacional. Viva!

Como anda a Venezuela? Bem, milhares de manifestantes estão nas ruas, o exército foi enviado para esmagar a revolta, um líder da oposição foi preso e partidários do governo simplesmente mataram a tiros uma ex-miss beleza. Está indo para o inferno em num carrinho de mão, é assim que ela anda.

Depois que Hugo Chávez morreu, ele foi substituído por Nicolás Maduro, um homem com talento consideravelmente menor e que mais se semelha a um Burt Reynolds obeso. Um amigo venezuelano me explicou que foi a personalidade titânica de Chávez que, ao conciliar suas inúmeras contradições com o seu nacionalismo carismático, manteve a sua revolução coesa. Por outro lado, “Maduro colocou as piores pessoas no poder” – deu autoridade para grupos radicais e oficiais corruptos para mantê-los ao seu lado. Resultado? Má gestão econômica, inflação de 56 por cento, aumento do desemprego, escassez de alimentos, níveis alarmantes de crimes e uma crescente necessidade do governo de exercer controle sobre a imprensa.

A esquerda, sob o comando de Chávez, sempre insistiu em dizer que alguma interferência nos meios de comunicação era necessária porque senão estes seriam controladas por forças obscuras ou estrangeiras (leia-se: por pessoas que discordavam de Chávez). Porém, hoje Maduro ameaçou de expulsar a CNN, que é uma das fontes de notícias mais justas e equilibradas do planeta. O crime da CNN foi relatar os protestos recentes que tomaram conta da capital. Bom para a CNN. A cobertura do que está acontecendo na Venezuela foi ofuscada pelos acontecimentos na Ucrânia, então para aqueles que não sabem, isso é o que está acontecendo:

  • Em 12 de fevereiro, a oposição fez um comício para uma multidão que terminou em derramamento de sangue. Morreram três pessoas, incluindo dois manifestantes da oposição e um ativista pró-governo. A Guarda Nacional foi enviada para impedir novas manifestações.
  • A violência se espalhou rapidamente por todo o país. Cerca de 3.000 soldados foram enviados para pacificar a cidade de San Cristobal, onde o governo também cortou a estações de conexão dos transportes e da internet.
  • O líder da oposição, Leopoldo Lopez, foi forçado a entregar-se à Guarda Nacional sob a acusação de incitação à violência.
  • O presidente culpou os Estados Unidos de incitar o conflito e expulsou funcionários norte-americanos.
  • Estações de TV locais foram retiradas do ar e simplesmente pararam de cobrir o conflito. Os venezuelanos estão contando com as mídias sociais, que incluem algumas informações falsas. A oposição não possui um único canal de TV nacional para se comunicarem com o povo.

A crise não apareceu do nada. Ela é um produto, inevitável, da marca do socialismo chavista, que construiu uma base de apoio ao convencer a população pobre nos centros urbanos de que eram vítimas de uma conspiração feita pelos ricos. A base de sustentação do governo foi mantida como aliada através de serviços sociais tornados possíveis pelos recursos do petróleo, promovendo assim um falso crescimento econômico e um fantasioso progresso. Abaixo da superfície, a sociedade civil estagnou. Agora que Chávez morreu e a magia se foi, sobrou a anarquia.

Podemos até perguntar se as eleições que colocaram o chavismo na presidência foram realmente legítimas. Sim, eles eram, tecnicamente, democráticos (embora a oposição se queixou de que os resultados foram manipulaoas contra ela), mas os chavistas nunca tiveram realmente compromisso com a democracia no sentido ortodoxo e liberal. Eles estavam construindo uma nova versão de clientelismo. É surpreendente que seus apoiadores no Ocidente não conseguiram prever isso, que eles se auto-enganaram ao crer que Hugo estava construindo uma Suécia latino-americana.

Talvez a quebra do feitiço seja parcialmente responsável pelo silêncio em relação ao que está acontecendo na Venezuela nesse momento. Alguns comentaristas esquerdistas, compreensivelmente, não querem comentar: uma parlamentar trabalhista parece ter falado sobre o perigo de ações judiciais se o assunto aparecesse no Twitter.

O entusiasmo europeu e americano por Chávez nasceu do compreensível desejo, solidário, de ver um país desafiar o modelo neoliberal e conseguir seguir seu curso sozinho – afastar-se dos EUA, um poder que se intrometeu tantas vezes na América Latina com resultados desastrosos. Mas o lento colapso da Venezuela em direção à desordem e ao caos prova que a maneira como os fatores econômicos incidem sobre a vida da pessoas não pode ser ignorada. Não dá para comprar uma democracia, não é possível subornar pessoas para construir um paraíso. Quando o dinheiro acaba, a única coisa que consegue manter o novo estado no poder é a força.

O governo insinuou que a ex-miss de 22 anos, Gênesis Carmona, assassinada esta semana, foi vítima de uma bala perdida disparada do seu próprio lado. Os manifestantes dizem que ela foi baleada por motociclistas pró-governo. O critério, numa democracia verdadeira, seria fazer uma investigação completa, transparente e os culpados serem levados ao tribunal. Será que isso acontecerá na Venezuela de Maduro? Improvável. Um parente me perguntou: “Quanto tempo vamos ter que viver assim? Quanto tempo vamos ter que tolerar essa pressão com eles nos matando?”. A resposta é, provavelmente, “durante o tempo que Maduro conseguir se sair bem com isso.”

É assim, companheiros, que todas as tentativas de implementar o marxismo terminam.

* tradução: Bequem Waltz

Amálgama

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