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Dez dias que abalaram a Romênia

por Vladimir Tismaneanu (10/02/2017)

A Europa não via um momento igual de emancipação coletiva desde Paris, em 1968, e Praga, em 1989.

A revolução cívica romena foi espontânea e inesperadamente retomada dez dias atrás. O movimento – autogestado, não utópico, não ideológico e pacífico – não dá qualquer sinal de diminuir. E não apenas na capital. Parece que o velho espírito revolucionário de 1989 continua a repercutir fundo.

Esse movimento de protesto – o primeiro grande levante pró-União Europeia e pró-ocidental na Europa pós-Brexit, e sem dúvida o maior na história da Romênia – não surgiu do nada. Ele tem muito em comum com rebeliões anteriores, em 2012, 2013 e 2015. É uma reafirmação de coragem cívica que não é motivada por partidos políticos, mas é, pelo contrário, uma firme expressão da sociedade civil em ação.

Não obstante, se a ligação com o “tesouro perdido”, para tomar emprestada a frase de Hannah Arendt, da revolução romena de 1989 é óbvia, estamos ao mesmo tempo diante de algo novo.

Manifestações se tornaram um instrumento regular nas mãos de cidadãos de diversos perfis ideológicos. Será que essa nova rotinização de formas de ação cívica não confrontativas pode levar a uma sociedade de movimentos sociais? Em países como a Romênia, onde sociedades democráticas decidiram encarar de frente seus demônios internos, esse bem poderá ser o desfecho.

Os elementos dessa nova estrutura social e ethos cívico ainda são um trabalho em desenvolvimento, mas, neles, já podemos ver o início da democracia direta. Nos últimos dez dias, os romenos ventilaram ideias sobre conselhos de cidadãos e modelos alternativos de representação democrática. Tal movimento reconhece os conflitos do sujeito moderno, mas rejeita o velho palavreado revolucionário. Uma grande mudança está ocorrendo na sociedade civil, e deveríamos explorar sua dinâmica e repercussões.

Esse movimento social não é antipolítico. Seu alvo é o que os romenos chamam de “política suja”. Entender a cultura política do Partido Social-Democrata – suas reações e recursos imprudentes a provocações como o decreto de emergência – é parte importante do quebra-cabeça.

O Partido Social-Democrata é o sucessor da Frente de Salvação Nacional, que é ele própria sucessora não declarada mas inegável do Partido Comunista do ditador romeno Nicolae Ceausescu. Seus líderes – do fundador Ion Iliescu a Adrian Nastase, Mircea Geoana, Victor Ponta, o presidente nacional Liviu Dragnea e seu primeiro-ministro de fachada Sorin Grindeanu – preservaram uma maneira neobolchevique de lidar com a realidade política. Eles vivem da máxima “Quem não está com a gente, está contra a gente!”

Eis a razão pela qual esses cleptocratas autoritários do Partido Social-Democrata não consideraram a ideia de dialogar com os manifestantes. Pelo contrário, Iliescu saiu de sua hibernação a fim de apoiar Dragnea. Ele culpou o presidente Klaus Iohannis por se unir às demonstrações, dizendo: “Iohannis inflamou os espíritos e criou esta anarquia”. Em tempos de mudança e de inquietude social, o atual governo se afaga criando, de forma desiludida, bodes expiatórios.

Na Praça Victoriei em Bucareste, uma das principais áreas de protesto, não há autofalantes; não existe uma dramaturgia preestabelecida. É um exemplo da democracia participativa e direta.

A linguagem do protesto tem sido às vezes cômica, sarcástica, pungente e infinitamente inventiva. Veja as teorias conspiratórias sobre o fato de que George Soros está por trás de todos os protestos anti-autoritários, dos Estados Unidos à Hungria, Polônia, Romênia e Rússia. Em Bucareste, esta é a réplica: “Tio Soros, não seria mais barato comprar o PSD e fechá-lo?”. O verbo “a închide” em romeno possui, pelo menos, dois significados: “fechar” (encerrar atividades) ou “enviar alguém à prisão”.

A mensagem principal é clara: Queremos ser livres! A Europa não via um momento igual de emancipação coletiva desde Paris, em 1968, e Praga, em 1989. Num período em que o continente europeu experimenta uma inclinação sombria ao populismo autoritário, a mobilização cívica em massa na Romênia a favor dos valores liberais, responsabilidade, transparência e pelo projeto europeu pode muito bem ser um prólogo a movimentos similares em outras partes.

Nos últimos dias, os Bálcãs ocidentais testemunharam um aumento nas demandas por medidas contra a corrupção diretamente inspiradas pelos eventos na Romênia. Na Bulgária e na Moldávia há também demonstrações em solidariedade à luta romena.

Não é nosso desejo sucumbir ao wishful thinking, mas não podemos deixar de ver aquilo que está acontecendo na Romênia como o início de um novo capítulo nos esforços globais para se reinventar a política e extirpar a corrupção. O que está ocorrendo em Bucareste e dezenas de outras cidades ao redor do país é a coragem cívica – uma coragem comovente, inesgotável e inextinguível – em ação, que deve ser admirada e celebrada.

Numa encruzilhada história em que os demagogos populistas questionam o próprio futuro da União Europeia, um de seus países fronteiriços está dizendo: “Sim, nós pertencemos [à União Europeia]!”

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Escrito com Marius Stan e publicado inicialmente no Politico.eu. Traduzido na Amálgama, por Daniel Lopes e Fabrício de Moraes, com permissão dos autores.

Vladimir Tismaneanu

Professor da Universidade de Maryland e presidente da Comissão Presidencial Consultiva para a Análise da Ditadura Comunista da Romênia. Autor, entre outros, de Do comunismo: O destino de uma religião política (Vide, 2015) e The devil in history: Communism, fascism, and some lessons of the twentieth century (University of California, 2012).



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