PESQUISA

Francis, o indispensável

por Italo Bertão Filho (03/02/2017)

Desde que começou na imprensa, Francis vivia às turras com alguém. Parecia procurar alvos para uma luta de esgrima intelectual.

“A segunda mais antiga profissão do mundo”, de Paulo Francis (Três Estrelas, 2016, 408 páginas)

Parece que foi ontem, mas já faz 20 anos que Paulo Francis morreu. Aqueles que o conheceram pela televisão — onde Francis aparecia já de madrugada, com olhar esgueirado e voz trôpega — viram apenas um personagem caricato, que fazia tipo propositalmente. Francis revelava seu poder de fogo na escrita. A coletânea A segunda mais antiga profissão do mundo, publicada pelo selo Três Estrelas, da Folha de S. Paulo, revela o Paulo Francis analista da imprensa, funcionando quase que como ombudsman, quando esse tipo de profissional não existia no Brasil — e foi após um longo entrevero com Caio Túlio Costa, o primeiro ombudsman da Folha, que Francis deixou o jornal no começo dos anos 90.

Waaal, como escrevia Francis, vamos falar do livro.

Nos 98 textos publicados originalmente pela Folha — onde Francis atuou entre 1976 e 1990 — pode-se achar de tudo: opiniões sobre jornais e revistas, resenhas de livros e filmes, preferências pessoais, causos do cotidiano e, até mesmo, reportagens. Francis, que não era um repórter de ofício, foi responsável por um furo que atingiu o regime militar, em 1977. Reproduzida no livro com o título “Relatório secreto do Banco Mundial critica o Brasil”, a matéria informava os valores da dívida externa brasileira. Era uma prova da influência de Francis, algo que ele fazia questão de afirmar sempre que possível.

Inicialmente, Francis fez seu nome na imprensa carioca pela acidez com que comentava o teatro, a política e a cultura. Até chegar à Folha, nunca trabalhara na imprensa paulista. Por isso, Francis desconhecia até mesmo o jornal em que trabalhava, como afirma no texto “Esta Folha”, comentando sobre um livro que contava a história do jornal:

Li com curiosidade porque pouco sei deste jornal em que trabalho há seis anos. A explicação da ignorância é simples. Fui contratado na Espanha, escrevo de Nova York e nesses últimos quase onze anos nunca passei duas semanas completas no Brasil. À parte isso, venho do Rio, minha vida no Brasil sempre foi o Rio, logo conheço mais as fofocas de O Globo e Jornal do Brasil do que da imprensa de São Paulo.

Em 1984, a Folha discutia a criação de um novo manual de redação. Pediram à Francis que opinasse sobre. Mesmo pouco à vontade com a encomenda, ele escreveu o texto “Manual longo em teoria e curto em prática”, onde já alertava para o excesso de opinião nos jornais — hoje a Folha tem pouco mais de uma centena de colunistas — e acreditava que os jornalistas da casa precisavam usar uma linguagem acessível ao público ao construírem seus textos, comentando também que o caderno “Folhetim”, publicado semanalmente, era “quase sempre ilegível”.

Nem só de crítica é feito o livro. Quando Carlos Lacerda morreu, em 1977, Francis faz uma análise do recém-falecido no texto “O polemista supremo de duas gerações”. Na década anterior, quando possuía uma coluna no jornal Última Hora, do Rio, Francis atacava impiedosamente Lacerda. Nessa coluna para a Folha, ele se autodeclara como “o jornalista brasileiro que mais atacou o sr. Carlos Lacerda”. Mas também enaltece a oratória e a intelectualidade do polemista:

Não retiro o que escrevi, mas acrescento que aprendi a estimá-lo como a um amigo de quem se diverge, não raro profundamente, sem corte na amizade, e sempre o considerei o polemista supremo das duas últimas gerações.

Francis é premonitório em algumas passagens. Avalia que os jornais estavam se rendendo cada vez mais ao popularesco, bem como a televisão — muito antes da ascensão dos policialescos na TV. Em outras, adota um tom professoral. Em “Algumas lições aos estudantes de comunicação”, faz perguntas às escolas de comunicação e dispara contra a relevância das opiniões de personalidades a respeito de temas que fugiam ao seu escopo, como política e economia:

Não estou sugerindo que só intelectuais sejam entrevistados. Não, mas há gente desconhecida, de bom nível, que a meu ver tem mais a dizer sobre o custo de vida que milionários cantores e compositores e bem pagos intérpretes de novelas de TV.

“Noviorque” — como Francis gostava de chamar a cidade onde vivia — também era assunto de seus textos. “O que define esta cidade é Wall Street e TV e imprensa”, afirma no começo de “Nova York para principiantes”. Apesar de NY ser “o microcosmo do mundo”, Francis avaliava que a “cidade perdera o caráter”. Mas ele não gostava de reduzir o país apenas ao que acontecia na cidade: “Julgar os EUA por Noviorque é um lamentável equívoco. Não há nada igual, ou sequer parecido. A cidade parece aberta 24 horas por dia. Você morando em lugar razoável não há serviço que não esteja disponível dia e noite, a alguns quarteirões. Mas tente procurar alguma coisa depois das 10 horas, de Connecticut à Califórnia. Só hospital e polícia, bombeiros etc., os chamados essenciais”.

LEIA MAIS  A liberdade de imprensa e seus inimigos

Ele não se furtava também a criticar a imprensa americana. O tradicional The New York Times é adjetivado como “tediosíssimo”. Já a revista New Yorker, “escrita no inglês do rei”, é vista como grande modelo de publicação. Para Francis, John Hershey, vencedor do Pulitzer com a reportagem Hiroshima, publicada na New Yorker, “era de segundo time”. Francis elogia a estrutura das rede de televisão americanas, em especial a figura do âncora — que ainda não existia no Brasil, onde os apresentadores de telejornais apenas liam as notícias.

Quando Francis deixou o Brasil, a televisão brasileira ainda era incipiente, testava fórmulas e formatos. Nos Estados Unidos, era o contrário: já existia um know-how de décadas. Ao descrever a televisão americana, o jornalista forjado no meio impresso parece fascinado pelo veículo. Comentando sobre o filme Rede de Intrigas, que teria chocado os executivos da Rede Globo, Francis crítica o jornalismo da emissora onde trabalharia anos depois: “O jornal da Globo se divide em boletins do governo e o trivial, o pessoal irreverente e o excêntrico. Mil filigranas na tela não disfarçam seu vazio”. Um dos mais saborosos textos do livro é “Um dia na vida de um jornalista”, em que Francis pinça fatos aleatórios de sua rotina, mas deixa um surpresa para o final:

Vocês querem saber sobre o meu trabalho como jornalista? Essa é a parte mais fácil de um dia na vida de um jornalista. Quando trabalho parece até que Nietzsche não escreveu o livro, aquele…

Após longa briga com Caio Túlio Costa nas páginas da Folha, Francis deixou o jornal em dezembro de 1990, rumo ao Estado de S. Paulo, onde escreveu até morrer. Em seu último texto, “A decisão por uma carreira”, também último texto do livro, Francis faz uma breve autoanálise. Diz que nunca quis ser jornalista profissional, e sim, diretor de teatro e que, quando começou na carreira em meados dos anos 50, ouviu dos tios que jornalista era profissão de vagabundo. Didático, também afirma que é possível ser jornalista e honrado. E finaliza: “Nunca apoiei governo algum. Acho que é um dever de jornalista adotar o mote dos anarquistas. Hay gobierno, soy contra. Adiós.”

Francis era inquieto por natureza. Desde que começou na imprensa, vivia às turras com alguém. Parecia procurar alvos para uma luta de esgrima intelectual, o que lhe custou empregos e um processo. Pouco antes de morrer, em uma edição do Manhattan Connection, programa de debates exibido pelo GNT do qual participava, Francis acusou a direção da Petrobras de estar desviando recursos da empresa. Acabou processado pela diretoria da estatal num processo em que a indenização poderia chegar a 100 milhões de dólares. Antes que a peleja judicial seguisse, o jornalista enfartou, em 4 de fevereiro de 1997.

Além do processo, dias antes da morte do jornalista foi lançado o livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis, de Fernando Jorge. Minucioso, Jorge acusava Francis de ter plagiado citações de personalidades sem dar créditos, bem como erros em citações históricas e literárias. Com a morte de Francis, o livro ficou sem resposta.

Francis pertence a uma era do jornalismo que, infelizmente, parece ter ficado no passado. Suas colunas eram rápidos ensaios sobre temas diversos, sempre recheadas de informação com opinião. Com a diminuição das redações e da circulação dos jornais impressos, há muita opinião e pouca informação. Nas redes sociais, a maioria opina, mas não informa. Se a imprensa escrita quer sobreviver ao século XXI, precisa de mais figuras como Francis, já que é vencida pela instantaneidade da internet. Senão continuará sofrendo um 7 a 1 diariamente.

Organizada pelo jornalista Nelson de Sá, que conviveu com Francis, a coletânea publicada pela Três Estrelas sucede Diário da Corte, outra coletânea de textos escritos por Francis para a Folha. Para compreender o jornalista mais polêmico que o Brasil já conheceu, a leitura de A segunda mais antiga profissão do mundo é essencial. Também serve como uma espécie de raio-x da imprensa brasileira e estrangeira da metade final do século XX. Para os estudantes de Comunicação, é um livro quase didático, especialmente quando Francis explica os meandros do jornalismo. Certamente será adotado e recomendado pelos professores nas faculdades de jornalismo. É uma obra indispensável.

Italo Bertão Filho

Estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.



avatar
Carvalho
Carvalho
Comecei a ler o livro e acho que o “roteiro” traçado na resenha vai ajudar bastante, obrigado! O livro é importante por ser do Francis porém não acho que são os seus melhores textos. Vale destacar que o organizador da coletânea provavelmente não era fã do Francis por razões políticas, o que afeta o livro. No penúltimo parágrafo me pareceu que o autor acredita que a diminuição da circulação e… Leia mais »
wpDiscuz