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por Vinicius Valcanaia * – Vou lhes ensinar a desmanchar um filme, apenas reconhecendo os seus clichês. Preste atenção no mote básico e em alguns detalhes de Instinto Selvagem. – O mocinho é viciado em sexo (Michael Douglas, viciado em sexo realmente e protagonista de Atração Fatal). – A Mulher fatal, de personalidade dúbia. Você […]

por Vinicius Valcanaia * – Vou lhes ensinar a desmanchar um filme, apenas reconhecendo os seus clichês. Preste atenção no mote básico e em alguns detalhes de Instinto Selvagem.

– O mocinho é viciado em sexo (Michael Douglas, viciado em sexo realmente e protagonista de Atração Fatal).

– A Mulher fatal, de personalidade dúbia. Você se apaixona por ela, mesmo que você saiba que ela pode ser uma criminosa (Atração Fatal, Corpos Ardentes, Chinatown, Vítimas de uma Paixão e Um Corpo que Cai).

– O jogo de aparências: nem tudo é o que parece ser (Qualquer filme de Brian De Palma dos anos 80).

– Os dois protagonistas gostam de sexo e crimes. Cada trepada parece ser mortal (Matador, de Pedro Almodóvar).

– Os dois dançarão loucamente numa boate (Atração Fatal, também com Michael Douglas).

– Sharon Stone usará um vestido igual ao de Kim Novak em Um Corpo Que Cai. Só que Kim usava calcinha por baixo do vestido.

– Uma loira de preto matará um dos personagens na saída de um elevador (Vestida Para Matar, de Brian De Palma)

– O picador de gelo, ícone do filme (semelhante ao prendedor de cabelo que Assumpta Serna utilizava para matar os homens em Matador)

E foi assim que Joe Eszterhas, esse safado roteirista de bons suspenses escreveu um dos filmes mais lembrados da década de 90, referência para todo e qualquer “filme policial com sacanagem” que viria depois. É sem dúvidas um charmoso filme policial, caliente, com sexo saindo pelo ladrão, mas fica no ar a impressão de um bolo sem recheio com uma linda cobertura. Puro charme, bem filmado, que agrada o olhar e aumenta o batimento cardíaco.

A trama é requentada e vampirizada de tudo que é filme, tão bem armada que quando assistida pela primeira vez é imprevisível e atraente. É difícil descolar os olhos do filme, pois a sensualidade extrema é o diferencial.

Tome-lhe mais clichês: Michael Douglas (saradão e feliz da vida ao mostrar a bunda em todas as cenas) é o policial com um passado sujo que irá investigar o violento assassinato de um astro do rock, trucidado com um picador de gelo na inesquecível cena de abertura. A principal suspeita é Sharon Stone, a diva da sacanagem Classe A, santificada nesse filme. Ela é uma escritora despirocada de livros de mistério que adora assassinatos e fica fazendo pegadinhas e piadas macabras o filme inteiro.

Basicamente é isso. O orgasmo é a grande descoberta por aqui: uma personagem ri de alegria porque tem um e outra chora de raiva porque não goza. A profusão de gemidos, gritos, unhadas e arranhões está acima do normal, o que dá ao sexo em cena a condição de periculosidade e aparenta ser dolorido.

O lesbianismo também impera por aqui. Sharon dá uns beijões apaixonados na grandalhona Leilani Sarelle, a recalcada Roxy, namorada ciumenta posta pra escanteio. A personagem de Jeanne Triplehorne, a terapeuta que adora ser sodomizada, é chegada numa briga de aranhas e o seu passado é tão misterioso quanto cozinha de restaurante chinês.

Existem erros impagáveis na trama: o casal de protagonistas, que vive se querendo, realiza a sua primeira transa de maneira asséptica e fina, que descontando o fator suspense apenas nas mãos amarradas de Michael Douglas, passa batida de tão simplória. Em certo momento, Douglas é atropelado de forma tão violenta que chega a voar pelo lado do carro que o atinge. Cai, levanta-se e sai correndo, algo inaceitável mesmo!

Em tantos desacertos, um momento é digno de nota 10: Sharon Stone sendo interrogada e dando a famosa cruzada (ou esgarçada) de pernas sem nada por baixo do vestido. Qualquer cruzada de pernas depois do filme virou escárnio da galera.

Esse ranço de coisa errada é que acaba empatando, um pouco, a história. O resto do elenco é muito insosso: Daniel Von Bargen, Stephen Tobolowsky, Wayne Knight, Bruce Young e James Rheborn impregnam o filme de uma antipatia sem tamanho. Salvam-se apenas George Dzundza como o parceiro gordinho solitário e divertido (seria um clichê?) e uma ponta crepuscular da musa Dorothy Malone como a doidinha que matou a família.

Jerry Goldsmith se encarregou de uma ótima trilha sonora – também parodiando Pino Donaggio e Bernard Herrman, mas ele é um mestre e a gente até deixa ele fazer isso.
O filme é cult, adorado, ressuscitou Michael Douglas, alçou Sharon Stone ao estrelato, facilitou a carreira do diretor Paul Verhoeven (que ele mesmo desgraçou com seus filmes seguintes) e entrou para os anais da história do cinema. E cá pra nós, dizer que esse filme está nos “anais” é uma redundância sem tamanho, pois não falta anal, oral e vaginal por aqui.

E a maior dúvida levantada pela história é: será que ninguém sabe usar uma forminha de fazer gelo?!

 
* Vinícius Valcanaia, há 10 anos decifrando o gosto cinematográfico do público diante de um balcão de vídeo locadora e com 1.235 filmes assistidos e catalogados até o momento, sente que sabe um pouco de cinema e ousa discorrer sobre a sétima arte. Com a faculdade de Psicologia interrompida, é óbvio dizer que sonha em cursar cinema.

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