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It was a Glorious Day

por Amálgama (29/03/2009)

por Luísa Noronha * – Chácara do Jockey, São Paulo; domingo, 22 de março de 2009. Às 22h em ponto, as luzes se apagam. O show iria começar, depois de uma expectativa que não durava apenas quatro meses, desde que a vinda do Radiohead ao Brasil foi anunciada, e sim, alguns anos, quando haviam inúmeras […]

[foto: Tiago Queiroz/AE]por Luísa Noronha * – Chácara do Jockey, São Paulo; domingo, 22 de março de 2009. Às 22h em ponto, as luzes se apagam. O show iria começar, depois de uma expectativa que não durava apenas quatro meses, desde que a vinda do Radiohead ao Brasil foi anunciada, e sim, alguns anos, quando haviam inúmeras especulações sobre a vinda da banda que nunca se concretizavam.

O momento chegara finalmente; e com essa felicidade, uma sensação de pequena agonia, pois na medida em que começava, logo terminaria. Sensação que durou pouco. As luzes azuis enchem os olhos da platéia e “15 Steps” se inicia, provando que, agora sim, era real. O Radiohead inicia seu show com a primeira música de seu último CD, In Rainbows, destacado por muitas revistas de renome como o melhor álbum de 2007.

Com pouco tempo para se recuperar da sensação de êxtase provocada pela primeira música, ouvem-se as batidas fortes de “There There”, e o público se emociona. A terceira música, nada mais, nada menos que “National Anthem”, do aclamado e por vezes polêmico Kid A, álbum-símbolo do período em que o Radiohead iniciou suas performances eletrônicas. Como de praxe, ao fim da música, o guitarrista Jonny Greenwood sintoniza quatro rádios brasileiras que se misturam aos inúmeros ruídos da música, causando um efeito psicodélico e transcendental em todos. Seguem-se então, “All I Need” e “Pyramid Song”, ambas transmitindo serenidade para a platéia, apenas aquecendo-a para o que viria a seguir.

O riff inicial anuncia e, como se a platéia recebesse uma injeção de endorfina, marca o início de “Karma Police” com um coro não observado em nenhuma outra música até então. Ouvia-se praticamente em uníssono “For a minute there, I lost myself, I lost myself…”, refrão nostálgico para aqueles que acompanham a carreira de Radiohead desde o lançamento de OK Computer, terceiro álbum da banda e eleito por muitos como o melhor de todos, não obstante Thom Yorke tê-lo apontado como a causa de seu bloqueio criativo nos anos posteriores a seu lançamento e ter se negado por algum tempo a tocar suas faixas em shows.

Dando continuidade à alternância entre músicas do In Rainbows e de outros álbuns, vem a sequência “Nude” e “Weird Fishes”/”Arpeggi”, sempre acompanhadas pela mudança de cor das luzes do palco, de acordo com a escala de cores do arco-íris. “The Gloaming” antecede “Talk Show Host”, b-side da banda muito pouco tocado ao vivo. Então, enquanto “Optimistic” agita o público, Thom Yorke o tranquiliza novamente com seus cuidadosos e serenos dedilhados em “Faust Arp”. “Jigsaw Falling into Place” se mostra ainda melhor ao vivo do que em estúdio, e enquanto os telões projetavam os integrantes da banda em ângulos diferentes dos vistos pela platéia, era possível observar diversas pessoas chacoalhando suas cabeças de um lado para o outro, do mesmo modo que o vocalista o faz, como que em um ritual que marcava o ritmo da música, “… just as you dance, dance, dance”.

Mais uma descarga de batidas e experimentalismos eletrônicos segue-se em “Idioteque”, com sua letra praticamente sem sentido, e “Climbing Up the Walls”, esta última uma surpresa no repertório. Surpresa maior ocorre quando Thom inicia “Exit Music (For a Film)”. Nesse momento, a platéia de 30 mil pessoas, como que hipnotizada, fica em silêncio e escuta uma das músicas mais bonitas já tocadas; silêncio cortado apenas pelo vendedor de água que passava entre a multidão que o mandava calar-se, pois naquele momento, falar era um desrespeito.

“Bodysnatchers” encerra o setlist principal e a banda sai do palco pela primeira vez. A platéia bate palmas pedindo bis e escuta “Videotape”. Ao final desta inicia-se “Paranoid Android”, uma espécie de hino para os apreciadores de música alternativa. Se Thom limitava-se anteriormente à pouca troca de palavras com o público, dizendo “Obrigado” ao final de algumas músicas, torna-se claro que a ligação vocalista/fã está em um nível que transcende as palavras. Ao final de “Paranoid”, enquanto os integrantes do Radiohead afinam seus instrumentos, a platéia, com as mãos levantadas, continua em coro “Rain down, rain down, come on rain down on me…”, entoando em coro a segunda voz que na música é feita pelo guitarrista Ed O’Brien.

Thom então empunha novamente seu violão e acompanha com “This is Sir, I’m leaving…”, fazendo a primeira voz para sua própria platéia, momento extracorpóreo que certamente ficará registrado nos anais dos shows da banda e surreal para os que puderam vivenciá-lo. O início de “Fake Plastic Trees” concretiza o fato que aquela noite seria mesmo inesquecível. Muitos fechavam os olhos, cantando como se estivessem em uma dimensão paralela, deixando a música entrar por todos os seus poros e atingindo uma espécie de Nirvana.

“Lucky” se sucedeu e foi como se todos estivessem nas nuvens, “… pull me out of the aircraft”. “Reckoner” antecede a segunda saída da banda do palco; e o fim se aproxima juntamente com a sensação de que algo tão perfeito estava prestes a acabar. Em “House of Cards” o público se prepara em silêncio para o que poderia se suceder. Thom senta-se então ao piano, e ao tocar a geniosa “You and Whose Army”, o telão mostra em cinza, como uma gravação em VHS, a câmera estrategicamente colocada bem de frente com a face do vocalista, como se este estivesse olhando diretamente para o público através do telão, fazendo movimentos engraçados com a as sobrancelhas e os olhos enquanto a banda gradualmente o acompanhava no crescimento da música. Então, a bandeira do Tibete, elemento coadjuvante da decoração do palco desde o início do show e que passava quase desapercebida pelo público é colocada ao centro deste, proporcionando um introdução genial para “Everything In Its Right Place”, após um trecho inicial de “True Love Waits”.

A banda sai do palco novamente, e um movimento da multidão discretamente se inicia, como se o show houvesse acabado. Entretanto, algo faltava, alguns diziam. E como se os integrantes do Radiohead tivessem se dado conta que não dava para terminar daquela maneira, retornaram ao palco para um final triunfal regido por “Creep”, música de maior sucesso da banda até hoje, integrante de seu primeiro álbum, Pablo Honey, considerado o hino dos deslocados, levando milhares de pessoas a levantarem os braços e, com os punhos fechados, cantarem com força, em uma espécie de paradoxo proposital, o refrão “What the hell am I doing here? I don’t belong here!” na medida em que o palco era iluminado simultaneamente por todas as cores empregadas ao longo do espetáculo.

Esse sim foi o fim de um show impecável que será lembrado por muitos anos a fio, de uma banda que marcou e ainda marca uma geração. Uma turnê de um álbum emblemático como In Rainbows vem para estabelecer o lugar do Radiohead na história musical e nos corações dos que puderam ouvir ao vivo a prova de que ainda é possível comover uma platéia sem fazer uso de dançarinos performáticos ou músicas barulhentas. A combinação mais-que-perfeita de luzes, cores e sons fez, como que em um passe de mágica, quase 30 mil pessoas encontrarem definitivamente seu lugar.

 
* Luísa Noronha, 19 anos, estuda Química na Unicamp. Embora faça Exatas, tem grande interesse na área de Humanas e no jornalismo, e se esforça para não passar sequer uma semana sem assistir um filme e ouvir um novo CD.

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