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por Eustáquio Gomes – Na manhã de 11 de setembro de 2001, em Nova York, dois aviões de carreira arremeteram contra duas torres comerciais geminadas, de 110 andares cada uma, transformando-as em escombros. Morreram mais de três mil pessoas. Uma organização islâmica assumiu o atentado. Depois se falou que ali começara o século 21. O […]

por Eustáquio Gomes – Na manhã de 11 de setembro de 2001, em Nova York, dois aviões de carreira arremeteram contra duas torres comerciais geminadas, de 110 andares cada uma, transformando-as em escombros. Morreram mais de três mil pessoas. Uma organização islâmica assumiu o atentado. Depois se falou que ali começara o século 21. O velho achou que aquilo era mais do que sua paciência podia suportar. Desligou a TV e voltou para a cama. Costumava dizer que para ser capaz de tolerar a tola agitação humana, esta insensata turbulência a que chamam História, precisava de um distanciamento de pelo menos meio século. Sendo assim, retornava de bom grado ao estado de inconsciência.

Em 18 de abril de 1912, uma criança invadiu o gramado de uma legação colonial para apanhar uma bola que lhe escapara das mãos. No gramado havia uma tabuleta que dizia: “Proibida a entrada de cães e árabes”. Mehmet, apesar de seus doze anos, era analfabeto. Ao ver aquilo, um sentinela disse ao outro: “Veja como se caça uma lebre”. E atirou no garoto com seu fuzil Lee-Enfield de pólvora nitroglicérica, abatendo-o no momento exato em que ele se curvou para alcançar a bola.

Era uma hora movimentada do dia, muita gente se dirigia à mesquita do bairro, que se dizia ser a menor e a mais linda mesquita do mundo, por seu interior de um azul diáfano. Revoltado, um grupo de árabes entrou no pátio da legação e por muito pouco o porteiro não conseguiu fechar a tempo as pesadas portas de mogno. Os sentinelas abriram fogo contra a turba e entraram pela única janela deixada aberta.

O quartel foi avisado e a soldadesca veio logo. Os árabes foram surpreendidos pelas costas ainda no terreno da legação. Os que não tombaram na escadaria fugiram em tropelia e foram caçados nas ruas labirínticas em torno da legação. Quintana, que havia saído a passeio com um velho inválido às costas a quem chamava Ebó, não tinha a menor ideia do que se passava quando viu um grupo de jovens árabes surgir do nada, dobrar a esquina com toda a força das pernas e se refugiar no interior da pequena mesquita que se dizia ser a mais bela do mundo. Imobilizados atrás de um portal, Quintana e o ebó primeiro ouviram, depois viram irromper a cavalaria. A infantaria veio em seguida. Logo que a cavalaria se deu conta de que os árabes tinham se refugiado na mesquita, a infantaria arrastou para lá um canhão de 18 libras e apontou seu cano de 84 milímetros para a fachada da mesquita.

O primeiro tiro pôs abaixo uma das torres. Quinze minutos depois a outra ruiu fragorosamente. Fumaça e poeira subiram para o céu em forma de nuvens enoveladas. Depois fizeram voar a porta, cuja motivos requintados reproduziam as taças bizantinas do Três de Copas, uma das 52 cartas do baralho mamluk. Em seguida começaram a mirar sistematicamente os pontos baixos da mesquita, com intervalos de um minuto, que era o tempo necessário para se recarregar o canhão. Em menos de meia hora a mesquita virou um monte de escombros.

– Isso é mais do que eu posso suportar, disse o ebó. Me dá náuseas. Por favor, me leve para casa. Quero dormir e voltar ao estado de inconsciência de onde nunca deveria ter saído.

Quintana despertou da estupefação em que se achava, desligou sua consciência e correu para casa com o ebó às costas.

Amálgama

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