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Corrida presidencial: radiografia do momento

por Amálgama (17/03/2010)

por Maurício Caleiro * – Mesmo sem a definição oficial do candidato pelo PSDB, a eleição presidencial dá mostras de ter entrado em uma outra fase. Como aponta Luiz Carlos Azenha, com a pontaria costumeira, essa etapa não pode ser chamada propriamente de nova, pois reedita, nas hostes oposicionistas, uma estratégia muito similar àquela adotada […]

por Maurício Caleiro * – Mesmo sem a definição oficial do candidato pelo PSDB, a eleição presidencial dá mostras de ter entrado em uma outra fase.

Como aponta Luiz Carlos Azenha, com a pontaria costumeira, essa etapa não pode ser chamada propriamente de nova, pois reedita, nas hostes oposicionistas, uma estratégia muito similar àquela adotada em 2006: pancadas, factóides e infâmias a granel patrocinadas pela mídia amiga contra o PT e sua candidata, no intuito de carimbá-los com a pecha de corruptos, incompetentes e perigosos.

Com Lula em 2006 não funcionou – e, como o demonstram os números de aprovação ao governo e ao presidente, continua não funcionando. Mas, como apontado por diversos comentaristas, a ideia é que atinja ao menos setores da classe média, notadamente os que asseguram sobrevida a publicações da imprensa que, um pouco pela crise estrutural que a internet vem impondo à atividade jornalística convencional, um pouco por terem aderido ao partidarismo militante – ao mesmo tempo em que abriam mão da ética mínima exigida pela atividade -, veem-se hoje afundadas numa crise sem precedentes. Assegurar o voto desses setores médios e procurar minar eticamente o governo parecem ser as únicas chances de manter viva a candidatura de José Serra, se e quando ele decidir anunciá-la.

O evento em que três grandes grupos de mídia (Abril, Globo e Folha) combinaram estratégias conjuntas para a campanha eleitoral – um convescote no, repare o nome, hotel Golden Tulip, a R$500 a cabeça – tem sido, até agora, um divisor de águas nas eleições. A crônica imperdível do evento foi feita, com doses generosas de humor, numa série de artigos assinados pelo jornalista Gilberto Maringoni. Mas, ao final das contas, exatamente da maneira que Altamiro Borges prognosticara e como tive oportunidade de exemplificar com mais detalhe em outro texto, ele parece representar efetivamente uma mudança no comportamento da mídia corporativa, que, logo após o evento,abriu mão de ao menos fingir buscar a inalcançável imparcialidade jornalística – embora não assuma essa nova postura ante o leitor – e iniciou uma campanha virulenta contra Dilma e o lulopetismo.

Não é ainda possível julgar se tal campanha tem conseguido seus objetivos ou não, já que ela iniciou-se na segunda-feira, 2 de março, e só houve uma pesquisa nacional de intenção de votos presidenciais depois disso – com Dilma diminuindo ainda mais a vantagem de Serra, com o qual encontra-se tecnicamente empatada.

Enquanto isso, para desespero do PSDB e de parte de seus aliados (o DEM ameaça com uma revoada), José Serra adia ao máximo a declaração pública de que é candidato à Presidência. Que ele vai concorrer nas próximas eleições não restam dúvidas, já que a estrutura de apoio já está montada e os principais postos do comitê de campanha definidos – a dúvida é se será para a reeleição ao governo de São Paulo ou ao sonho de subir a rampa do Planalto.

Por sua vez, a candidatura de Marina Silva não passa, até o momento, de uma quimera, uma candida honrada e com uma bela história de vida em busca de um discurso, cercada de uma fauna ideológica, em meio a uma eleição profundamente polarizada. Sua última aquisição foi o sagaz mas ultra-liberal Eduardo Gianetti, e a última baixa Juca Ferreira, o ministro da Cultura, que pediu afastamento do partido por um ano, declarando considerar “um equívoco histórico” a construção da candidatura presidencial do PV em oposição à do PT. Ensejou, assim, ataques do vereador Alfredo Sirkis (PV-RJ ) contra a presença de coroneis da política nordestina na base do atual governo. Como se um partido chefiado por ninguém menos que Zequinha Sarney tivesse moral para fazer tais acusações…

A indefinição de Serra, concomitante à subida de Dilma nas pesquisas, tem levado à euforia grande parte dos apoiadores da candidata petista. Julgam que o governador paulista perdeu o timing e que, se 18% dos eleitores se dispõem a votar no candidato indicado por Lula mas o desconhecem, o potencial de crescimento da candidatura governista é enorme. De fato, pode ser. Mas a pesada campanha midiática pesada, a ameaça de guerra na blogosfera com o uso de “ciber-mercenários” e a própria campanha convencional tucana sequer começaram. Evitar o sempre perigoso salto alto é, no momento, o principal desafio das hostes dilmistas.

* Maurício Caleiro, Rio de Janeiro-RJ. Blog: cinemaeoutrasartes.blogspot.com.

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