PESQUISA

por Jean Garnier – “Eu quero ver a minha família/ Minha esposa e filho esperam por mim”. Esse é o refrão de “Love Vigilantes”, uma música do grupo inglês New Order centrada na história de um soldado que morreria pelo seu país, mas que, entre rifles e granadas, fica alegre ao conseguir a dispensa. Ao […]

por Jean Garnier – “Eu quero ver a minha família/ Minha esposa e filho esperam por mim”. Esse é o refrão de “Love Vigilantes”, uma música do grupo inglês New Order centrada na história de um soldado que morreria pelo seu país, mas que, entre rifles e granadas, fica alegre ao conseguir a dispensa. Ao retornar para a amada, a vê transtornada com um telegrama que tinha recebido, exaltando a coragem do combatente e informando que ele estava morto. Essa canção poderia ser um ótimo resumo do filme Entre irmãos (estreia hoje), não fosse apenas um diferencial: o irmão tomou-lhe o lugar, inclusive envolvendo-se com a sua mulher.

Sam Cahill (Tobey Maguire) é um capitão da marinha que casou-se com a namoradinha dos tempos de escola, Grace (Natalie Portman), e um bom pai de duas filhas, Maggie (Taylor Geare) e Isabelle (Bailee Madison). Ele é mais velho e responsável que o irmão Tommy (Jake Gyllenhaal), um desajustado que está sempre bêbado e, depois de um tempo preso, sai da cadeia e não quer saber mais de problemas. Tommy vai morar com Sam, este não muito tempo depois deixa a família para lutar no Afeganistão. Enquanto o “bonzinho” está cumprindo o seu dever numa viagem perigosa, o “ruim” está calmo e não corre riscos. É óbvio que nesse maniqueísmo criado tem que haver o pai, Hank (Sam Shepard), e é lógico também que essa figura paterna parece que existe só para mostrar a todos a sua preferência por Sam e o total desprezo por Tommy.

-- Gyllenhaal e Maguire em cena --

Chega a triste notícia que o capitão foi vítima de um acidente fatal de helicóptero. Grace fica arrasada e se desdobra para cuidar das filhas. Motivado em ser uma pessoa melhor, Tommy chama toda a responsabilidade para si e tenta ajudá-la. A cunhada, relutante de início, com o esfriar dos acontecimentos acaba amolecendo. Como eu disse, Sam não morreu; vira refém e alguns flashs mostram a crueldade pela qual passa nas mãos do Talibã. Só que, mesmo separados por quilômetros, ambos cometem erros que sabem que nunca mais irão esquecer e jamais se perdoar. Enquanto o combatente é obrigado pelos inimigos a matar um de seus companheiros, Joe Willis (Patrick Flueger), Tommy e Grace, com uma química totalmente elevada, chegam a trocar carícias. Sam consegue fugir, mas ao retornar sente que agora é um estranho. Não consegue de maneira alguma reconectar as emoções que tinha com suas crianças e, pior, a mulher não tem a mesma aproximação por ele; para ela, o marido morreu no Oriente Médio.

O filme funciona por conta das atuações fortes. Portman é a mãe zelosa que sente necessidade de calor humano; quando vê tudo desabar, acaba aceitando meio a contragosto o ombro amigo do cunhado. Gyllenhaal é a tradicional ovelha negra, sabe que o pai o odeia e busca a redenção. Maguire, conseguindo aos poucos se distanciar da imagem do Homem Aranha, tem o papel mais desafiador: o cara que sempre seguiu um caminho certo na vida, mas que devido às circunstâncias tem dificuldade para voltar a ser o que um dia foi.

Jim Sheridam está cada vez mais se especializando em dirigir filmes sobre relações familiares – Em nome do pai e Terra dos sonhos são exemplos recentes –, desta vez explorando como a guerra é capaz de destruir a vida de um indivíduo, não por fazê-lo sair atirando em inocentes ou tendo alucinações bizarras, mas no sentido de se ver alienado do que deveria ter mais valor na vida: a família. O longa é uma refilmagem do dinamarquês Brødre, de 2004.

[veja o trailer]

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.