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O mundo a partir das cicatrizes: A nova poesia argentina

por Pádua Fernandes (03/03/2011)

Antologia apresenta autores para quem "a política já não é uma paisagem"

-- "Si Hamlet duda le daremos muerte: Antología de poesía salvaje" --

por Pádua Fernandes

Antologias de poesia que se desejam representativas de uma “geração” podem tomar pelo menos dois caminhos: o cronológico-biográfico ou o de uma identidade poética de grupo. No primeiro caso, o livro pode tornar-se um simples panorama de poéticas. No segundo, há um risco de excluir bons autores que não fazem parte do grupo eleito.

O mais corrente, principalmente no campo da poesia contemporânea, é que se combinem esses dois critérios. Os antologistas, mais particularmente no caso dos autores contemporâneos, não terão como escapar a suas escolhas estéticas pessoais. Ao contrário, elas serão desnudadas mesmo a contragosto, já que os processos de formação do cânone (que sempre podem ser revistos) simplesmente ainda não tiveram tempo de consagrar este ou aquele autor.

Dessa forma, é normal que antologias escolham os mesmos autores de tempos passados e divirjam radicalmente no tocante a seus contemporâneos. Quando elas se dedicam apenas a autores contemporâneos, variam muito entre si e, portanto, são as mais arriscadas para organizadores, críticos e público.

Em Si Hamlet duda le daremos muerte: Antología de poesía salvaje (City Bell: De la talita dorada, 2010), temos uma espécie de combinação daqueles dois critérios: trata-se de uma antologia dos poetas argentinos que nasceram a partir do fim dos anos 1960, e a introdução/panfleto dos organizadores, Julián Axat e Juan Aiub (que, infelizmente, não foram oficialmente incluídos na antologia), insiste na “Potencia descanonizada del decir” e na morte do pai subjugador político-poético-canônico-editorial.

Será isso mesmo o que está em jogo aqui? Se Hamlet não deve duvidar, é para vingar o seu pai assassinado. Questão ainda em aberto para muitos desses autores, que eram crianças na última ditadura militar argentina, é justamente a punição da morte do pai, simbólico e/ou real, pelo terror de Estado. Nicolás Prividera, poeta incluído na antologia e autor do posfácio, expõe cruamente essa questão – a poesia aparece na errância que foi legada pelo terror:

No hay que contar el fracaso
de la Historia, sino la historia
de ese Fracaso: Dicen
que hay que matar a los padres
pero si otros
lo hacen por nosotros
(aboliendo la metáfora y dejándonos
desnudos, recién nacidos y ya
literales) sólo queda
la eterna errancia. […] (p. 162)

Que poéticas podem advir dessa errância? É o problema de que partem vários destes autores. Inés Aprea escreve: “¿será preciso/ hablar/ en el idioma/ de los padres?” (p. 77); em Eliana Drajer, lemos: “Perdonar en nombre de mi padre/ de tu madre/ y de este cuerpo/; ya bajo la tierra.” (“Puerto quebrado”, p. 45).

Trata-se do problema de criar um idioma próprio tendo este passado como herança, o genocídio: “la lengua, el músculo que habla/ con la cordillera de los muertos”, diz Carlos Juárez Aldazábal em “Dispersa la memoria” (p. 224). Prividera, no posfácio, chega a afirmar que, se algum membro da sua geração lograr a superação desse desafio, não será como Hamlet, e sim como Fortinbras, que teria conseguido reunir consciência e ação.

Parece-me que muitos destes poetas têm buscado fazê-lo, o que inclui os dois organizadores da antologia, que são, como o autor do prefácio, Emiliano Bustos, filhos de desaparecidos. Trata-se da geração dos HIJOS, organização criada pelos descendentes dos desaparecidos para lutar pela justiça de transição (isto é, pela apuração e julgamento dos crimes contra os direitos humanos cometidos pelos agentes da repressão).

Julián Axat, além de escrever uma notável poesia que lida com esses temas, também coordena uma coleção dedicada “a la búsqueda de uma palavra que alguna vez fue pensada y sentida desde lo social”. Chama-se, a partir de livro de Roberto Bolaño, Los detectives selvajes. Nela foram publicados, além de poetas novos, autores que foram vítimas do coleccionlosdetectivessalvajes.blogspot.com.

Hamlet deve cumprir sua tarefa. Falar do terror implica deparar-se com o silêncio e o inexprimível, como vemos em Leandro D. Barret: “¿Hacer Potlach con las mismas palabras/ con las que fabricamos el horror y su silencio?” (“Hécuba”, p. 106) e em Jorge Areta: “porque fundamos / nuestro idioma en territorios/ ajenos a la palabra” (“A donde sea que vaya (leer)”, p. 139).

Isso levou muitos à poesia política. No prefácio de Emiliano Bustos, ele mesmo justamente incluído entre os poetas do livro, lemos que “Para muchos de estos poetas la política, por ejemplo, ya no es un paisaje.” (p. 16).

Provavelmente a política nunca foi paisagem para muitos deles. Julio Greco publica neste livro um panfletário “guerra”, mas também este, “historia”: “el amasijo la duda la policía la carne la pasta el auto la democracia la guerra hacen de éste un hombre muerto y el pozo que habita es oscuro profundo el pozo suave que lo alimenta día a día com su piel húmeda de barro […]” (p. 95). Os exemplos são vários, entre eles inclui-se a ironia de Ramón D. Tarruella: “Un día hubo un ESTADO,/ un Estado tan grande,/ que ese mismo Estado/ financió las obras completas de Nietszche.” [sic] (p. 150).

Ou, pode-se, dizer, a própria paisagem torna-se política. Vemo-lo em Jonás Gómez:

quiero corroer la vía pública
porque el ócio me puede, porque la ansiedad muerde
talones y compré
esa idea que plantea:
todo lo que se hace es política (“Pigmento en aire”, p. 80)

Versos que parecem dialogar com os de Mariano Schuster: “La presión arterial sube/ Los izquierdistas mantienen su huelga, su huelga de siglos de conocer al hombre/ La revolución no será política” (“Senado de Notables”, p. 126).

Questões éticas e estéticas comuns vão sendo retomadas nos poemas habilmente escolhidos pelos organizadores, e a variedade de abordagens assinala a riqueza desta geração, para que foi importante o exemplo de Bolaño, que soube relacionar a literatura com o direito à memória e à verdade. Inés Aprea cita-o expressamente: “y si la poesía no era/ otra cosa/ que el gesto adolescente/ de abandonarlo todo/ como Rimbaud/ como Bolaño/ lanzarse a los caminos” (p. 76).

A memória dos filhos, que não experimentaram o que os pais viveram, tem que ser uma reinvenção; bem o diz Emmanuel Taub a respeito do “padre” imigrante: “hoy construo tu vida/ te invento y traigo/ para que no seas suma de aquellos que pasaron” (p. 228). Por vezes, há que reinventar a partir de simples indícios, pois não sobraram fotos nem testemunhos; leia-se este poema de Juan Pablo Bertazza: “Hablábamos de un lugar sin fotos ni testigos/ del que nunca volvieron/ conocidos de segunda mano” (“Conocidos de segunda mano”, p. 244).

A memória torna-se resistência contra o terror. Esta paisagem estética e política rememora as marcas do massacre. Em poema sobre a Guerra das Malvinas, María Virginia Fuente enuncia:

Existe un poema breve
que se escribió en Sudamérica.
Es un poema sobre la guerra;
la medida justa de la desolación.
Alrededor no hay nada. (p. 219)

Também a descreve Fernando Alfón, em meio a símbolos celestes:

El hombre no vive allí
sino entre el llanto,
la herida,
las fosas comunes y los ojos que se cierran. (“La mirada estelar”, p. 63)

Ou é retomada em chave satírica. Lemos em Eduardo Rezzano:

Soñé que era Heidegger
y que Hannah me odiaba
[…]
Yo colaboraba -estábamos
a fines de años 60-
con los movimientos
sudamericanos de izquierda
pero ella no me creía
o no se enteraba (“Despertar”, p. 167)

Os problemas de escrever poesia hoje na América Latina não são ignorados pelos autores. Escreve ironicamente Enrique Schmukler:

El tormento de ser
“escritor latinoamericano joven”/
tormento de ser una repetida
antología rogada por
los chicos que se largaron a escribir
en los noventa;
[…]
y de que ese rótulo se lo cuelguen a todos
porque todos tienen su lugar en una antología
pagada por una multinacional de la edición,
para lavar unos pocos dólares y ya; (p. 59)

Em Rodrigo Zubiría lê-se, em terrível paródia do discurso da direita: “Caminando río abajo, recorre mi flauta fantasma de la nueva poesía latinoamericana pensada como la última ratio de los bien-pensantes.” (“Hammelin (el cazador de efebos)”, p. 233).

Trata-se de questões que envolvem a política literária, assunto retomado, entre outros, por Emiliano Bustos: “[…] En un/ baño turco se esperan, se aprecian, y la niebla/ los impregna. Los perros publicadores, mitad/ veraniegos, mitad ‘yo leo en público como los cadáveres leen en privado’; publicaron/ tanto. […]” (“Poesía ’90”, p. 181). Isto é, o desafio de tomar a política literária como, simultaneamente, literatura e política.

Temas argentinos, naturalmente, aparecem, além das Malvinas. A antiga ilusão portenha de se considerar um país europeu é satirizada por Alejandra Szir:

Nosotros que construimos Suecia
usamos madera
quizás de bosques.
¿No hay fiordos en Suecia?
Y pescamos salmones
y los caminos
veíamos Bergman desde los cinco años. (“Nosotros que construimos Suecia”, p. 24).

“Eva”, nome tão significativo nesse país católico que foi governado por Perón, recebe as brilhantes variações de “La Eva de las tres muertes” de Pablo Ohde: “la última Eva/ Eva impaciente/ Eva triste/ no hay perdón para su cuna hambrienta” (p. 157).

As políticas de gênero e das relações privadas são alvo de alguns dos poemas mais interessantes da antologia.

Tamara Kamenszain, tratando criticamente de outros autores (“Testimoniar sin metáfora, narrar sin prosa, escribir sin libro. La joven poesia argentina de los noventa” artigo de Tres décadas de poesia argentina 1976-2006, coletânea organizada por Jorge Fondebrider), havia ratificado que, para os poetas argentinos da década de 1990, “lo privado ya es político”. O mesmo ocorre para estes poetas.

Dafne Pidmunt toma os laços de família e descobre que servem para estrangular: El Consuelo de escribir. Mi madre se emborracha. Una y otra vez la asesino. Muerta, resucitada, continúa suicidándose. (“Madre”, p. 35)

¿Eres tú,
rata madre, perra de callejón,
quien escupe el poema sobre mi mano
así como Maria escupió
a su pequeño Lucifer
en nuestros hombros alados? (p. 36)

Gabriela Milone retoma esses laços em chave mitológica:

¿La leche será ajena, papá, higo maldito,
hijo de la flor encerrada, inflorescencia de los siglos?
¿No soy tu nena, papá, hoy que me endilgás
el cuerpo de mujer que me negaste?
Yo haré en mis palabras / fuego en tu boca
Jeremías 4, 14b (Tiranía del placer/ o cuerpo negado, p. 69)

Sebastián González, habilmente, apresenta uma paródia do discurso tradicional masculino em um gênero atribuído ao sexo feminino (“diario íntimo”) e tem momentos de lirismo: “pienso en el soporte que regula los períodos fértiles de/ tu organismo/ y en tu fiebre/ y en que la música triste en momentos tristes/ es muy triste” (p. 194).

O corpo não é um tabu para vários desta geração; lemos, de Demetrio Iramain, “por lo demás poesía siempre amó con sus esfínteres/ dejó olvidos en la espalda del día/ para que otros la nombren con su malasuerte” (“esfínteres”, p. 212).

Pode-se incluir nessa via a desconstrução de gênero operada por María Eugenia López: “Mi affair con Jessica Rabbit me enseñó a desear una muerte perfecta. Algún accidente de auto precipitado por la Mulholland Drive y dando de fauces en Sunset Boulevard, mi cara hacia atrás, como quien acaba de tener un orgasmo, la sangre en mi frente, mi nariz y mi boca.” (p. 119).

Também nesse ponto temos caminhos do sangue, sobre os quais se pode dizer “[…] Such a sight as this/ Becomes the field […]”, como fez Fortinbras. Porque esses poetas se encontram em um campo de batalha, que é o da construção de uma poética, ou seja, a criação de um novo mundo, e “[…] La cuestión es/ con qué cicatrices hacer el mundo.” (Emiliano Bustos, “Poesía de los ’90”, p. 182).

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Pádua Fernandes

Professor da Uninove, em São Paulo. Organizou diversas antologias e é autor, entre outros, do volume de poesia Cinco lugares da fúria (2008) e de Para que servem os direitos humanos? (2009).