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Se Saddam Hussein ainda estivesse no poder, as revoltas árabes nunca poderiam ter ocorrido [tradução]

Christopher Hitchens, na Slate / 28 de março

-- O curdo Zebari, ministro do exterior iraquiano --

A imagem mais comovente do mês passado – eclipsando mesmo a bravura e a dignidade dos combatentes civis contra o despotismo na Síria e na Líbia – foi a visão de Hoshyar Zebari chegando em Paris para pedir ação dura contra o depravado regime do coronel Muammar Qaddafi. Ali estava o ministro do exterior do Iraque, e novo presidente da Liga Árabe, ajudando a mudar o eixo da diplomacia local contra a ditadura de um homem só. Em maio o Iraque sediará o encontro da Liga Árabe, e será distintamente divertido e bastante instrutivo ver quais líderes árabes terão a coragem, ou mesmo a habilidade, de deixar suas próprias capitais e participar. A cena é especialmente gratificante para aqueles de nós que lembramos Zebari como o dedicado militante em exílio que ele era 10 anos atrás, lutando para defender seu despojado povo dos efeitos das armas químicas de Saddam Hussein.

Alguém consegue imaginar como a primavera árabe teria ocorrido se um estado árabe chave, rico em petróleo e altamente armado, com um histórico de intervenção nos negócios de seus vizinhos e repressão total contra seus próprios civis, ainda fosse propriedade privada de uma sádica família criminosa? Como as coisas estão, ter o Iraque logo de saída no outro lado da balança tem sido um benefício pouco notado e reconhecido, cuja extensão é impossível computar. E a influência do Iraque na equação líbia também tem sido uniformemente positiva, de maneiras que são igualmente negligenciadas.

Quanto ao primeiro ponto, admito que egípcios, tunisinos e outros manifestantes não tomaram as ruas balançando a bandeira iraquiana, como que emulando. (Embora Saad-Eddin Ibrahim, padrinho intelectual do movimento democrático egípcio, tenha aclamado publicamente a queda de Saddam como uma inspiração, e muitos líderes da recente “primavera” libanesa falaram abertamente em termos similares.) Sua reticência é bastante compreensível, já que, fora a região curda ao norte do Iraque de onde vem o ministro do exterior Zebari, a libertação do país não foi inteiramente obra de seu próprio povo. Mas esse argumento se tornou um mais aberto a debate desde que a própria Liga Árabe admitiu que há certos regimes que são imunes a derrubada sem assistência externa. O de Qaddafi é preeminentemente um desses, e o de Saddam também notoriamente o era, como provam amplamente os repetidos bombardeios e asfixiamentos das populações xiita e curda. Nesse ínterim, o Iraque já possui, embora de forma rudimentar e tênue, a imprensa livre, a constituição escrita e o sistema de eleição parlamentar que constituem a demanda mínima da sociedade civil árabe. Ele também passou por um teste de fogo, no qual binladenistas jogaram tudo o que podiam contra uma democracia emergente e foram em grande parte derrotados e descreditados. Essas são lições e experiências úteis não apenas para a Mesopotâmia.

Em relação ao efeito do Iraque na Líbia, aqui está o que me foi confidenciado por um diplomata britânico que ajudou a negociar a rendição dos estoques de armas de destruição em massa de Qaddafi. De forma alguma um neoconservador (espécie rara nos escritórios de relações exteriores da Sua Majestade), ele enfatizou três fatores. Primeiro, e pelo menos neste caso, o Ocidente tinha informações muito boas de serviços de inteligência e esteve apto a surpreender e desmoralizar Qaddafi mostrando o quanto sabia a respeito de seus programas secretos. Adicionado a isso, e operando de forma cumulativa ao longo do tempo, houve a inflexível persistência das cortes escocesas na questão da atrocidade de Lockerbie. (Não mexa com a lei escocesa, uma máxima imperfeitamente compreendida pelo tipo de gente que declara a si mesma “rei dos reis”.) Terceiro, e hoje muito importante, houve o medo de Qaddafi ao ver o destino que levou Saddam Hussein. Isso já foi amplamente confirmado por muitos oficiais líbios nos ouvidos de amigos meus. Afinal de contas, Qaddafi foi atrás de George W. Bush e Tony Blair, não das Nações Unidas. Então, agora os estoques de Qaddafi estão sob chave e cadeado em Oak Ridge, Tennessee – a composição de seus elementos tendo incriminado com sucesso a rede A. Q. Khan, no Paquistão – e quem é capaz de desejar que o resultado tivesse sido outro?

Mas mesmo com suas presas arrancadas, Qaddafi continuou um estorvo obsceno. Como o New York Times informou em uma brilhante reportagem semana passada, ele obrigou as companhias petrolíferas ocidentais a pagarem o 1,5 bilhão de dólares de multa que caiu sobre ele após o episódio em Lockerbie. Ele continuou a despojar seu povo – observe o quão pobre e surrado todo mundo é quando aparece na televisão – enquanto desperdiçava a imensa riqueza líbia em projetos de prestígio pessoal. Suas sanguentas intervenções na Libéria, Darfur e Chade – onde outro avião civil foi explodido, dessa vez um da França – já deveriam há muito tempo ter lhe valido uma acusação por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Como Saddam Hussein, ele insistiu flagrante e histericamente em se colocar como o problema, o fons et origo da miséria líbia e dos infortúnios da região. Então por que recatadamente insistimos na pretensão de que estamos atingindo “suas forças” mas não ele próprio?

Na Grã-Bretanha, por exemplo, o argumento atingiu proporções ridículas. Ninguém realmente duvida que foi um míssil britânico que dia desses atingiu o “complexo” Bab-al-Azizya de Qaddafi, mas enquanto o primeiro-ministro David Cameron diz que o ditador poderia concebivelmente ser considerado um alvo em alguma fase das operações, seu chefe do estado-maior, general David Richards, diz que “absolutamente não”, porque a resolução da ONU não dá cobertura a essa possibilidade. Em Washington, o presidente Barack Obama corretamente diz que Qaddafi “deve sair”, mas a missão é descrita como uma com o objetivo de proteger civis de massacres. Mesmo em linguagem militar direita e quase-técnica, isso é incoerente. Se os termos comando e controle têm algum significado, eles certamente identificam o salivante monarca que já comandou e controlou os líbios por tempo demais.

Hoshyar Zebari citou com felicidade o precedente da no-fly zone que por um longo período protegeu o norte e o sul do Iraque dos helicópteros de combate de Saddam Hussein. Mas ele sabe perfeitamente bem que a lógica disso é inexorável. A cada dia, as forças terrestres de Saddam atiravam naqueles aviões. A cada dia, o acordo de cessar-fogo pós-Kuwait se tornava mais desgastado e violado. A cada dia, tornava-se claro que o Iraque era um refém miserável dos caprichos de um ditador.

A tarefa imediata agora é assimilar aquelas lições, encurtar o tempo em que o conhecimento adquirido pode ser aplicado, chamar o vilão por seu nome e pôr Qaddafi diante da escolha inflexível entre sua própria morte e seu comparecimento ao tribunal. É moralmente impensável que ele possa emergir desse episódio com sequer um farrapo de autoridade, e é fraqueza moral não dizer isso em bom som. As palavras feias e grosseiras mission creep de repente tomam uma beleza própria. Quando a Liga Árabe se encontrar em maio, ela deveria dar as boas vindas ao novo governo provisório líbio no solo de um Iraque livre. Então teremos fechado o ciclo – e vindicado todas aquelas bravas pessoas que caíram derrubando o primeiro e pior dos bastiões do ancien regime.

tradução: Daniel Lopes
original, aqui

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