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Alguns livros mais

por Amálgama (22/03/2013)

Mensalão. 1989. Economia nazista. Nadine Gordimer. Conversas com escritores.

(outros lançamentos que merecem sua atenção, em rápidos comentários – por Daniel Lopes)

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MensalãoEsta reunião das colunas que Merval Pereira escreveu durante o julgamento do mensalão, para o jornal O Globo, deve se tornar a crônica definitiva do evento histórico. No segundo semestre do ano passado, como é sabido, o STF julgou o esquema de corrupção montado no governo Lula. Para quem não prefere atirar no mensageiro, o livro de Merval é um bom volume para ter em casa.

O mensalão foi o lado negro do governo Lula, governo que teve seus méritos. O PT devia ter aprendido mais após o estouro do escândalo e após o julgamento de históricos militantes seus no STF. Mas pouca humildade foi mostrada pela militância ou pela cúpula partidária. A sigla dirigida por Rui Falcão mantém-se na lenga-lenga de que foi “absolvida pelas urnas” e o próprio ex-presidente vira e mexe denuncia a “farsa do mensalão”. Azar o deles, que diminuem a própria herança.

Merval cita por mais de uma vez o mensalão tucano. Inclusive, alguns dos melhores momentos do livro ocorrem quando o jornalista aponta a incoerência da executiva do PT exigir um igual julgamento do mensalão tucano, ao mesmo tempo em que denuncia o julgamento do mensalão petista como uma farsa, um tribunal político manipulado pela mídia conservadora para dilapidar o patrimônio de semideuses como Lula, Dirceu e Genoíno. Assim não dá.

Enquanto este livro deve ficar marcado como o melhor sobre o julgamento de 2012, ótimas leituras para se entender as origens e os pormenores da corrupção do governo Lula são O operador: Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (2006), de Lucas Figueiredo, e Memorial do escândalo: Os bastidores da crise e da corrupção no governo Lula (2005), de Gerson Camarotti e Bernardo de la Peña. / Mensalão: O dia a dia do mais importante julgamento da história política do Brasil, Merval Pereira, Record, 2013, 288 páginas

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Sociedade incivilSociedade incivil foi lançado em inglês em 2009, por ocasião dos 20 anos da queda do Muro de Berlim e eventos vizinhos. A maior parte das análises sobre a queda do comunismo no leste europeu, quando não centra no papel dissuasivo desempenhado por Gorbachev, está preocupada pela participação da “sociedade civil” no fim do comunismo na Europa. Stephen Kotkin, em co-autoria com Jan T. Gross (ambos da Universidade de Princeton), preferiram focar no que classificam de “sociedade incivil“. Esta viria a ser a ampla rede de membros do Partido, das forças armadas, da polícia política e intelectuais orgânicos que, em seu conformismo e obtusidade, foram mais responsáveis pela implosão comunista na Europa do que propriamente o resto da sociedade.

Kotkin e Gross acreditam que a forte imagem que temos da sociedade civil do leste como principal vetor da derrocada comunista se deve a uma supervalorização da força dos intelectuais dissidentes do bloco e a uma tomada do Solidariedade polonês como regra, ao invés de exceção. Que incontáveis dissidentes tiveram grandeza moral e enorme influência (em casa e no exterior) está fora de dúvida. A questão é que a sociedade incivil era tão poderosa, em países como a Romênia, que o sistema na verdade não permitia a constituição de uma sociedade civil com grande influência doméstica. A Polônia foi uma exceção — e não apenas entre os três casos especificamente estudados pelos autores, que incluem ainda Alemanha Oriental e Romênia –, porque o país conseguiu manter ao longo do tempo uma razoável estrutura social desligada do aparato comunista (mais notavelmente, a Igreja Católica).

Comum nos três países, e no bloco comunista como um todo, foram uma economia quebrada e insuportavelmente devedora do Ocidente (a quem recorria para empréstimos, sem conseguir mercado suficiente para seus produtos de péssima qualidade) e um sistema político-policial fechado, que por sua vez agravava a falta de solução para os problemas econômicos. Não havia imprensa livre, não havia debate público. Como a imprensa estatal dizia sempre que as coisas iam bem, as coisas foram indo até o sistema entrar em coma irreversível. Exemplo: “Quando, em novembro de 1973, o principal especialista em finanças [da Alemanha Oriental] tinha advertido o chefe do partido de que em 1980 a dívida externa da RDA teria crescido em dez vezes, passando de 2 bilhões para 20 bilhões de marcos alemães, Honecker o instruiu a parar de fazer cálculos”.

Após entrar em coma, a única coisa que poderia manter o sistema indefinidamente ligado por aparelhos era o aprofundamento do estado policial. Hoje, todos sabemos que por pouco a Alemanha não viu por massacres ao estilo Tianamen, e o mesmo vale para outros países da região. As matanças foram evitadas basicamente por ação de soviéticos ligados a Gorbatchev (e do próprio) e por omissões ao longo da cadeia de comando da repressão comunista. Na Romênia, realmente se deu uma repressão violenta, mas lá a revolução (ou o golpe militar que roubou a revolução) acabaria com Ceausescu e sua senhora fuzilados. / Sociedade incivil: 1989 e a derrocada do comunismo, Stephen Kotkin e Jan T. Gross, Objetiva, 2013, 280 páginas

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O preço da destruiçãoAdam Tooze escreveu o que provavelmente é a melhor história do pensamento econômico e da economia de guerra nazistas. Lendo O preço da destruição entende-se o raciocínio por trás da obsessão dos nacional-socialistas por terra, e de sua ambição pelas terras a leste. “A ideologia agrária é crucial para compreender, não o arcaísmo do regime de Hitler, e sim sua extraordinária militância”, assegura Tooze. “A Alemanha nazista não estava buscando uma volta ao passado. Simplesmente, não admitia que a distribuição de terras, recursos e população, resultante das guerras imperiais dos séculos XVIII e XIX, tivesse de ser considerada definitiva”. Como a Grã-Bretanha tinha seu império no além-mar, Hitler imaginava que a Alemanha montar seu império no leste europeu e em partes da Rússia poderia, além de conquistar as tão sonhadas terras, evitar um conflito com os britânicos.

Partes do pensamento nazista à medida que se aproxima o fatídico 1939 — ou, mais ainda, 1941 — foram novidade para mim e poderão ser para muitos leitores; pelo menos, eu nunca os vi tão bem expostos e explorados. Ocupando espaço central nesse pensamento estava os Estados Unidos da América, e a certeza de Hitler de que aquela nação exerceria um papel cada vez maior no mundo, às custas inclusive de França e Grã-Bretanha, e que seria necessário constituir o mais rápido possível uma espécie de Estados Unidos da Europa, sob direção alemã e com o domínio da ideologia racial nazista, para fazer contraponto aos EUA.

É preciso dizer também que a história econômica de Tooze não subestima os aspectos ideológicos mais conhecidos por todos nós. O preço da destruição é apenas um enfoque diferente do pré-Segunda Guerra e dos anos de guerra. Tal enfoque é complementar à história ideológica do Terceiro Reich. / O preço da destruição, Adam Tooze, Record, 2013, 882 páginas

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Tempos de reflexãoO primeiro texto desta coletânea é de 1990, chama-se “O dom vital do escritor para sociedade livre”, e é uma defesa de Salman Rushdie não só contra as aberrações religiosas que queriam sua cabeça, como também contra os ocidentais (escritores, inclusive) que acharam que o problema maior foi Rushdie ter faltado com o devido respeito a uma “grande religião”. Mais adiante no livro, Gordimer volta ao tema.

Então, sim, eu acho que vocês deviam ler Tempos de reflexão. A força e a clareza da escritora sul-africana é onipresente, seja Rushdie o assunto, ou Nelson Mandela; Tolstói ou Chinua Achebe.

Christopher Hitchens, na introdução de seu último volume de ensaios, Arguably, disse ser seguidor de um ensinamento de Nadine Gordimer, segundo o qual um autor deve tentar sempre escrever como se fosse postumamente. Hitchens interpretou essa linha como se o romancista ou comentarista de política, ao escrever, deve se lixar para o que está na moda entre o público, principalmente entre o público intelectual. Bem, o finado Hitchens com certeza seguiu essa regra mais a risca do que a própria Gordimer, mas a mulher não fica muito atrás. / Tempos de reflexão – de 1990 a 2008, Nadine Gordimer, Biblioteca Azul, 2013, 328 páginas

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Conversas com escritoresO melhor deste livro de entrevistas com escritores é que literatura não é o único tema. Assim, a jornalista australiana Ramona Koval consegue arrancar de Norman Mailer não apenas uma dissertação sobre a primeira/terceira pessoa em seus escritos como também pensatas sobre o narcisismo estadunidense e uma autoanálise de sua condição de “conservador de esquerda”. Você vai ler as baboseiras de Harold Pinter sobre terrorismo e logo em seguida pegar uma conversa com o interessante autor britânico Malcolm Bradbury.

Isso para ficar apenas nos autores falecidos. Martin Amis, John Banville, Vargas Llosa, Hanif Kureishi e outros também foram entrevistados por Ramona. / Conversas com escritores, Ramona Koval, Biblioteca Azul, 2013, 448 páginas

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