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Sobre ser um ucraniano de fala russa e “protegido” por Putin

por Amálgama (23/03/2014)

Vladimir Putin tem interessantes ideias sobre o que significa proteger pessoas

Irina Kalinina, na New Republic / 23 de março

– Colegas no funeral de Sergey Kokurin –

No dia 18 de março, forças russas na Crimeia mataram Sergey Kokurin, um auxiliar ucraniano de 37 anos pertencente à unidade militar de Simferopol. Ele estava na torre de observação, e foi atingido no coração por um atirador de elite. Kokurin nascera em Simferopol e se alistou no exército ucraniano em 1997, “e desde então ele nunca abandonou a ideia de servir a nação ucraniana”, escreveu em sua página no Facebook o ministro da Defesa da Ucrânia. Kokurin tinha um filho de quatro anos. Sua esposa está grávida de seu segundo filho, que deve nascer em maio.

Sergey Kokurin era um cidadão ucraniano servindo nas forças armadas ucranianas. Como muitos cidadãos ucranianos, cerca de dezessete por cento de nós, ele era russo por nacionalidade. O primeiro soldado ucraniano morto na invasão russa foi um russo. Isso não tirará o sossego dos líderes russos, que, claro, não levam a sério sua própria propaganda de que invadir a Ucrânia é necessário para ajudar russos.

Não esperem também que ressaltemos a ironia. A Ucrânia é um país multinacional. Nossas forças armadas, nossos serviços públicos, nossas universidades, tudo neste país é multinacional. Milhares de pessoas na praça Maidan em Kiev foram feridas durante a revolução ucraniana, das quais 104 foram mortas. Mais de duzentas pessoas ainda estão desaparecidas (a maior parte provavelmente também morta). Ninguém na Ucrânia dá muita atenção à nacionalidade dos cidadãos que arriscaram tudo para um futuro melhor em sua pátria ucraniana. Mas é claro que alguns eram russos, e muitos mais falantes do russo.

O presidente russo Vladimir Putin tem interessantes ideias sobre o que significa proteger pessoas. No dia 4 de março, ele articulou a doutrina de se esconder forças russas, futuros invasores de mais partes da Ucrânia, por trás de mulheres e crianças: “Escutem bem. Quero que vocês me entendam claramente: se tomarmos essa decisão, será apenas para proteger cidadãos ucranianos. E vamos ver se aquelas tropas tentarão atirar em seu próprio povo, com nós por trás dele – não em frente, mas por trás. Deixem que eles tentem atirar em mulheres e crianças! Quero é ver quem na Ucrânia vai dar essa ordem.”

Foi esse trecho em particular do discurso de Putin que deixou muita gente nervosa na Ucrânia. Ninguém no país duvidou que essas palavras se transformariam em ações. No dia 20 de março, dois dias após o assassinato de Sergey Kokurin, forças russas altamente armadas tomaram outra base militar ucraniana na Crimeia, na região de Eupatória. Dessa vez, no entanto, os soldados russos não usaram suas armas. Ao invés disso, eles cercaram o jardim de infância frequentado pelos filhos dos soldados ucranianos. Os russos ameaçaram invadir o colégio se os ucranianos não abandonassem seus postos. Como soldados, esses homens haviam dito aos russos que não se renderiam. Mas, como pais, eles o fizeram.

Uma das mães estava lá no jardim de infância, e viu tudo. Imagine o que ela deve ter sentido. Imagine a reação psicológica. Imagine seus sentimentos, aqueles que alguns políticos estão deliberadamente alimentando entre nossas nações historicamente próximas. Imagine.

Mas os ucranianos sabemos que a criação do ódio é um processo político, e sabemos que alguns russos se opõem a ele e a ele resistem. Durante seu discurso em Maidan no começo de março, Mikhail Khodorkovsky, um dos mais famosos presos políticos russos, disse que “existe uma outra Rússia”, uma que compreende a hipocrisia da propaganda oficial. Provou-se que ele estava correto quando, no dia 15 de março, uma “Marcha Para a Paz” contra a intervenção russa na Ucrânia foi realizada no centro de Moscou. A manifestação antiguerra reuniu mais de cinquenta mil pessoas.

Uma das maiores vozes dessa “outra Rússia” é aquela de Andrey Makarevich, bardo soviético e russo, fundador da banda de rock Máquina do Tempo. Uma de suas letras: “O quão fácil é concluir que você é fraco demais/Para mudar o mundo.”

Aqui está o que Makarevich escreveu recentemente sobre a propaganda televisiva na Rússia:

“Como enganar uma nação? Primeiro, você tem que alimentar o ódio. Comece com frustração e raiva. Um povo calmo e autossuficiente não é assim tão fácil de ser frustrado. Você tem que explicar-lhes quem eles odeiam, e por quê. Isso é muito mais fácil de se fazer com quem já está frustrado há muito tempo. Eles estão no embalo. Cultive então uma imagem do inimigo externo (imperialistas, neonazistas, banderistas [seguidores do líder nacionalista ucraniano Stepan Bandera]) e do inimigo interno (quinta coluna, cosmopolitas sem raiz), os nomes não são o mais importante. Então faça seu melhor para metodicamente zumbificar a audiência-alvo com propaganda, direcionando sua raiva e frustração para onde você queira. Zumbifique pra valer, ritmicamente, sem pausa.”

Makarevich concluiu: “Pessoal, nós somos vizinhos. Sempre seremos. É melhor que permaneçamos amigos deles, como costumamos ser. Como eles viverão é uma escolha deles mesmos.”

Nós ucranianos escutamos Makarevich, escutamos Khodorkovsky, escutamos a outra Rússia. Lembrem: nós sabemos russo. Muitos de nós expressamos preocupação em russo sobre uma invasão russa de nosso país, muitos de nós fazemos piadas em russo para aliviar a tensão. Por falar em piadas, aqui vai a última de Odessa:

“Eu parei de falar em russo.”

“Por quê? Tem medo de que os ucranianos lhe batam?”

“Não, de que os russos venham me proteger.”

Como toda boa piada, essa nos dá algo para pensar. Eu, pelo menos, penso seriamente em seguir a opção que ela propõe. Eu sou o que as pessoas chamam russo-falante. Mas eu também falo ucraniano muito bem.

Amálgama

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