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Desnudando uma história de terror e sofrimento diário

por Luiz Eduardo Peixoto (02/03/2017)

David Remnick permite que o leitor capte a sensação de letargia que assaltara a mente dos moradores da URSS.

“O túmulo de Lênin: Os últimos dias do império soviético”, de David Remnick (Companhia das Letras, 2017, 712 páginas)

1.

O túmulo de Lênin poderia ser escrito um simples relato sobre o fim da União Soviética. Jornalista americano radicado em Moscou, Remnick optou pelo caminho difícil. Em 700 páginas, escreveu um épico que evita saídas fáceis. Apesar de haver certo viés crítico ao regime (reflexo tanto da época, já que a década de 90 vivia um clima de “fim da história”, com o colapso como dominós de regimes comunistas e a promessa de fim dos restantes, quanto da brutalidade do exposto), Remnick adota uma postura tendendo à neutralidade, e é justo aí que está a maior qualidade do livro.

O livro é, em grande parte, as palavras dos russos. Expõe, por depoimentos, as visões, sentimentos e angústias de uma população em suspensão, em transe. Os habitantes da extinta União Soviética, no fim da história do seu império, pela primeira vez em ao menos 70 anos tinham acesso a sua própria história, numa avalanche de notícias estarrecedoras sobre um regime que sacou a vida de algo em torno de 60 a 80 milhões de pessoas. Como o autor descreve, consumiam notícias e livros de história recém-lançados no território, com a glasnost de Gorbachev, compulsivamente, lendo sem piscar nos trens, caminhando na rua, nos charmosos cafés moscovitas. A incerteza e o choque ficam evidentes nas palavras, e se forma com clareza para o leitor o clima – misto de ebulição e incredulidade – que tomava conta dos países.

Remnick permite, por meio de sofisticada narrativa, que contextualiza de forma rápida eventuais dúvidas que surjam dos depoimentos expostos, que o leitor capte a sensação de letargia que assaltara a mente dos moradores da URSS. Educados para louvar Stálin (e outros “grandes irmãos”) — e ativamente manipulados para substituir eventuais instintos de conexão emocional com família ou amigos por uma com a “nação”, o Partido Comunista e seus figurões –, o soviético médio aprendia desde cedo que não deveria pensar por si. Como o autor percebe, é o retorno à história e a suas próprias consciências que deixa os soviéticos entorpecidos e desnorteados.

No período comunista, o indivíduo não deveria fazer planos para uma carreira ou sequer pensar em uma profissão específica, e sim seguir as orientações da burocracia. Não podia viajar livremente, a não ser que fosse membro de alta patente do partido. Não deveria crer em religiões, ou mesmo em si próprio, e sim ouvir toda a inteligência que emanava das autoridades. Não poderia estudar modelos alternativos ou escolher seus governantes, afinal, estava no destino final da humanidade, se encaminhando para o projeto superior. Não poderia indagar versões ou narrativas, pois toda a verdade estava concentrada nas páginas do único livro de história que estudavam nas escolas estatais ou nas páginas do Pravda, o jornal oficial.

Na iminência do fim da União Soviética, a excitação inicial dava lugar a uma incerteza e um vazio enormes, resultados de décadas de intenso planejamento, que atingia aqui o paroxismo de controlar cada passo de quem habitava terras do “proletário”. A paranoia e o medo ficam evidentes, enuviando o otimismo pelo fim de uma sangrenta ditadura, que já não garantia mais nem o básico para uma vida razoável.

2.

O sofrimento e a dor de indivíduos torturados e espremidos – tanto física quanto psiquicamente – deixam pouca margem para manobras defensivas aqui, com a podridão e a falência do Partido Comunista despidas de forma hábil. Não espere, no entanto, relatos muito pesados dos terrores e assassinatos sumários; seguindo fielmente os princípios do new journalism (do qual o autor é um dos grandes precursores), o livro segue a polidez das páginas de grandes redações jornalísticas, sendo econômico e evitando violência pornográfica.

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Ao usar as palavras daqueles que experimentaram na pele as agruras do regime (entre dissidentes, partidários, e os que tão só subsistiam) para narrar o colapso da URSS, Remnick permite aos leitores uma espiada no cotidiano dos soviéticos dos anos 80. Enquanto as contradições do sistema ficavam cada vez mais evidentes, a vida para os habitantes se complicava cada vez mais, com a destruição do sistema de produção e de preços se refletindo em persistente estagnação e escassez.

Apesar de deter o maior território da Terra – a URSS abarcava 1/6 das terras no planeta –, o país não conseguia alimentar satisfatoriamente seus 290 milhões de habitantes, que (pela primeira vez desde os sangrentos choques dos anos 1960 na República Tcheca) tomavam em protestos as ruas de grandes cidades.

Mesmo Moscou, que sustentava vida muito mais confortável que outras regiões, sofria com prateleiras constantemente vazias e um mercado negro inflacionado. A meu ver, uma falha de Remnick é relatar pouco o cotidiano de outros que não os moscovitas, URSS adentro. Apesar de cobrir bem algumas cidades na Sibéria e a norte de São Petersburgo, expondo razoavelmente a aridez da vida no interior russo, pouco se estende na vida de outros “proletários” (incluindo aí as visões quanto ao processo que transcorria).

Mas outro ponto forte do livro é a acessibilidade. Cobre, de forma simplificada, partes importantes da história da URSS, incluindo muitos dos casos mais esquecidos, como o evento do Holodomor (que matou de fome nos anos 30 um terço da população na Ucrânia). Apesar de focar mais no que ocorreu sob Lênin e Stálin, os eventos históricos citados permitem a qualquer leigo na história da região assimilar razoavelmente o que vai sendo relatado nas páginas do extenso livro.

Ainda que por vezes cansativa, os pormenores das lutas internas dentro do Partido Comunista dão outra dimensão de riqueza ao livro. Usando como ponto de partida as discordâncias dentro do establishment soviético sobre as reformas de Gorbachev (inclusive escancarando as próprias incertezas e hesitações do líder), Remnick consegue sintetizar bem o medo de um grupelho que via o poder se esfarelar rapidamente. O lado político do relato se torna viciante da metade do livro em diante, quando a hesitação dos políticos se transforma em angústia, dado o fim iminente (e incontrolável) da ditadura do proletariado.

Muito criticado por algumas fontes de esquerda, por seu escopo dito “limitado”, minha avaliação é diametralmente oposta. Remnick optou aqui por ouvir (e expor) a visão daqueles diretamente impactados pelas políticas do comunismo. O autor entremeia os capítulos incluindo depoimentos de políticos do partido, de suas diferentes facções – inclusive os mais radicais, como no quase cômico relato da extremista Leninina Adropoyev.

O túmulo de Lênin deve agradar todos aqueles com um mínimo de interesse em história e no comunismo (incluindo aí simpáticos à esquerda). É uma leitura ágil, apesar do contexto complexo, e oferece uma síntese bem elaborada da história da URSS. Para os aficionados em política, é um prato cheio, expondo com riqueza de detalhes os meandros e inconsistências de um projeto altamente centralizador, que acumulou poder como poucos, e tão fascinante quanto condenável.

Em um momento de ressurgência do autoritarismo ao redor do mundo, serve também de alerta para os perigos no enaltecimento de supostos salvadores da pátria. O próprio Stálin, que era visto com crescente asco em fins dos anos 80 dentro da Rússia, hoje tem a visão simpática de parte considerável da opinião pública russa – o que em parte ajuda a explicar o fenômeno Putin.

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Luiz Eduardo Peixoto

Graduando em economia na FEA-USP.