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Gideon Levy, no Haaretz / 22 de abril Deus seja louvado: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aliviou, por hora, a exigência, como condição para negociações, de que os palestinos reconheçam Israel como “Estado judeu”. Fez a gentileza de adiar a exigência para momento futuro. Atenção, mundo: é possível, apenas possível mas pelo menos possível, que Netanyahu […]

Benjamin NetanyahuGideon Levy, no Haaretz / 22 de abril

Deus seja louvado: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aliviou, por hora, a exigência, como condição para negociações, de que os palestinos reconheçam Israel como “Estado judeu”. Fez a gentileza de adiar a exigência para momento futuro. Atenção, mundo: é possível, apenas possível mas pelo menos possível, que Netanyahu esteja aproximando-se de pronunciar a frase proibida “dois Estados para dois povos.”

O slogan da esquerda radical ilegítima de ontem será publicamente ouvido em Washington, dos lábios do primeiro-ministro mais completamente de direita que Israel jamais teve, e todos cantarão louvores à virada histórica. O processo diplomático ganhará velas pandas e as expectativas subirão às alturas. A paz está aí, ao alcance da mão, ali na esquina.

Mais uma vez, a arena diplomática foi convertida em campo de jogos de palavras. Dirão coisas e haverá declarações e enunciarão mais alguns desejos. É caminho garantido para outro fracasso previsível.

Quer Netanyahu fale de dois Estados ou não, nada mudará. Os EUA festejarão, os Europeus ficarão excitadíssimos, a direita israelense babará sua ira, os comentaristas outra vez escreverão com paixão sobre o sonho da grande terra de Israel mais uma vez arquivado – e a ocupação florescerá.

As colônias de judeus continuarão a crescer como metástase nos territórios ocupados. Afinal, muitos israelenses e pelo menos dois primeiros-ministros e dois líderes da oposição já deram seu “sim” à fórmula para a paz há muito tempo, e nada jamais mudou.

Não menos abjetos são os jogos de palavras sobre o desejado reconhecimento de Israel: há uma geração, os israelenses riem deles. Esse jogo estúpido deveria ter acabado há 16 anos, e ainda estamos nisso. Em setembro de 1993, Yasser Arafat prometeu ao primeiro-ministro Yitzhak Rabin que a Organização para a Libertação da Palestina, OLP, reconheceria Israel; três anos depois, em abril de 1996, o Conselho Nacional Palestino aceitou e ratificou o reconhecimento.

A torrente de palavras exigindo mudanças deveria ter parado ali. Mas a ânsia de Israel por reconhecimento é insaciável. Dois anos depois, em dezembro de 1998, Bill Clinton foi a Gaza, e lá, em sessão formal do Conselho Nacional Palestino, aconteceu que se apagaram nada menos do que 12 terríveis cláusulas da Constituição da Palestina (vaia nela!) e, com as cláusulas, lá se foram mais 16 subcláusulas.

O júbilo foi imenso. Jawad al-Tibi, membro do Conselho, disse que votou com os pés, não com as mãos. Naquele momento, o primeiro-ministro era o mesmo Netanyahu que aí está hoje, tentando inventar um outro reconhecimento tão desnecessário quanto aquele. Depois de Israel ter sido reconhecido como Estado judeu, ninguém duvide de que começará a exigir que todos reconheçam o sábado como dia de descanso; depois, talvez comece a exigir que os palestinos reconheçam a lei que proíbe usar fermento no Pessach [a Páscoa judaica].

Mas não há qualquer graça no que aqui se discute. São questões terríveis. Só quem se dedique a impedir o progresso ocupa-se hoje nesse reconhecimento, que é pura vaidade. Só um país cuja autoconfiança seja muito capenga precisa de que outros reconheçam seu caráter nacional. Passa pela cabeça de alguém que a França exigiria de alguém que a reconhecesse como Estado? Ou a Itália, como Estado italiano? E de quem, afinal, Israel exige reconhecimento? Dos mesmos que há mais de 40 anos gemem sob os coturnos da ocupação… por Israel.

Enquanto isso, já se deve começar a temer que outro presidente americano, tão promissor, talvez o mais promissor que jamais houve, esteja sendo arrastado para a doce armadilha das palavras e fórmulas. Alguém tem de dizer àquele presidente que não é hora de palavras ocas. Que o tempo das palavras ocas já passou. Basta de planos de paz e – Deus nos livre! – nada de outras “minutas” de planos de paz. Basta de negociações. Basta de novas frases e basta de “cúpulas”.

Todos os planos estão feitos. Estão todos arquivados, esperando ver a luz do sol. Agora, é tempo de agir.

O único reconhecimento hoje necessário é Israel reconhecer os palestinos como seres humanos. Feito isso, tudo mais será relativamente fácil. Dia virá em que palestinos e israelenses não entenderão como nem por quê viveram mergulhados em sangue por tanto tempo. Mas, hoje, esse dia parece mais distante do que nunca.

É chegada a hora de testar ações. Em vez de desperdiçar mais precioso tempo a discutir frases e fórmulas, é preciso que Israel aja. Em vez de mais verborragia, temos de promover mudanças em campo.

Vinte colônias evacuadas valem mais que mil fórmulas de paz. 2.000 prisioneiros libertados contribuirão mais para aproximar os dois lados do que 10.000 palavras.

Se pelo menos Israel concordar em cumprir os acordos que já existem, sobre libertação de prisioneiros e fim das colônias em território ocupado, já será mais fácil começar a tentar obter, dos palestinos, algumas concessões.

Parafraseando David Ben-Gurion, é preciso dizer ao presidente dos EUA que não dê atenção ao que os judeus dizem; só dê atenção ao que os judeus fazem.

* Tradução de Caia Fittipaldi.
Para ler o artigo em inglês, clique aqui.

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