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por Estêvão dos Anjos * – “Noite feliz, noite feliz…”. Os famosos versos não fazem muito sentido quando cantados na noite de natal da família de Caio, personagem interpretado por Leonardo Medeiros em Feliz Natal (2008), primeiro longa dirigido por Selton Melo. Em um clima melancólico e triste, Selton nos mostra o natal de uma família […]

por Estêvão dos Anjos * – “Noite feliz, noite feliz…”. Os famosos versos não fazem muito sentido quando cantados na noite de natal da família de Caio, personagem interpretado por Leonardo Medeiros em Feliz Natal (2008), primeiro longa dirigido por Selton Melo. Em um clima melancólico e triste, Selton nos mostra o natal de uma família de classe média em decadência, mas que pode ser a de qualquer pessoa, classe média ou não.

O filme se passa no Rio de Janeiro e tem início com a chegada de Caio em sua casa, em plena noite de natal, após um longo período de afastamento. Ao chegar à casa de seus pais, Caio encontra sua família totalmente abalada estrutural e emocionalmente. Seu pai separou-se de sua mãe e vive com uma jovem; sua mãe mantém-se à base de remédios antidepressivos; seu irmão vive um casamento em ruínas; e seus melhores amigos não vivem muito além da rotina casa e bordel.

A presença de duas crianças no elenco serve para mostrar como esse desequilíbrio pode vir a repercutir na vida das pessoas. Com os pais prestes a se separar, o coito mecânico no início do filme mostra a que se reduz o casamento deles. Bruno, personagem vivido pelo garoto Fabrício Reis, na ausência dos pais, busca informar-se pela internet. O resultado dessa educação virtual é implicitamente apontado no fim do filme, quando o garoto, guiando um carrinho de brinquedo, breca o veículo na luz verde do semáforo e segue em frente quando a luz está vermelha. Em outras palavras, o garoto já está imbuído em uma realidade onde os valores estão totalmente subvertidos.

Deixando nas entrelinhas, tudo nos levar a crer que a ruína da família se iniciou após a saída de Caio, por um motivo que apenas podemos deduzir: o envolvimento em um acidente que terminou com a morte de uma moça. Por esse motivo, tudo parece vir à tona com a chegada de Caio, ponto de desequilíbrio da noite. É como se Caio trouxesse com ele um canhão de luz que ilumina os problemas familiares, fazendo com que se torne impossível não mencioná-los. Assim, as máscaras do natal caem e o clima de felicidade que ainda busca ser mantido hipocritamente também vai ao chão.

Podemos dizer que esse clima não se distancia muito das noites de natal vivida por Selton Melo. Em bate-papo realizado em uma das noites da nona edição do Corujão do Cine Sesi, Selton disse que devido ao fato de o aniversário de seu pai sempre cair nas noites de natal, ele sentia uma certa tristeza ao ver que, geralmente, esqueciam do outro aniversariante da noite; quando não, cantavam um parabéns pouco efusivo. Além desse fato mais pessoal, Selton busca retratar, também, a hipocrisia que habita a data. “Você é obrigado a passar a noite com pessoas que nunca vê, tem de abraçá-las….”, disse o diretor. O filme torna-se corajoso por dizer o que muitas vezes fica no ar, mas poucos expressam.

Uma cena que revela a perda do sentido desse espírito natalino é no momento da ceia, quando a matriarca da família inicia uma oração que imediatamente é interrompida pelas pessoas que se mostram famintas à mesa, deixando a mãe só na mesa, rezando e levantando questionamentos acerca da importância da data. O humor negro desta cena é um dos ápices do filme.

Falando assim parece que o filme busca criticar essa subversão de valores que ocorre atualmente com a data. Engano. Longe de querer dar uma valorização do festejo, o filme é uma constatação – para alguns pode ser um tapa na cara, de que, aos poucos, estamos nos livrando de um formalismo hipócrita que nos torna pequenos.

Feliz Natal é um filme forte. Mantem-se tenso e dolorido em muitas de suas cenas – os muitos closes captam muito bem esses sofrimentos. É devido a essa subversão de valores que ele se torna uma boa indicação.

 
[veja o trailer]

 
* Estêvão dos Anjos, jornalista, mora em Maceió. Desde pequeno é apaixonado por literatura. Tem receio de se apresentar como poeta mas escreve frequentemente poesias e as veicula no blog artenaarteria.blogspot.com.

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