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Novo de Luiz Biajoni

por Amálgama (17/04/2009)

por Luiz Biajoni * – A viagem tinha sido programada há cerca de dois meses. A idéia dele era passar dez dias em companhia da mulher e da filha e então, depois, na volta, comunicar Cristina sobre sua decisão de separação. Marcinha iria sentir muito, Cristina ia fazer-lhe mil perguntas, o céu desabaria. Mas a […]

por Luiz Biajoni * – A viagem tinha sido programada há cerca de dois meses. A idéia dele era passar dez dias em companhia da mulher e da filha e então, depois, na volta, comunicar Cristina sobre sua decisão de separação. Marcinha iria sentir muito, Cristina ia fazer-lhe mil perguntas, o céu desabaria. Mas a decisão estava tomada. Um apartamento para sua nova vida já havia sido alugado e mobiliado. Esses dez dias seriam uma espécie de despedida. Seriam as lembranças que Marcinha guardaria, na memória, da infância feliz compartilhada com os pais.

Eles estavam em silêncio dentro do automóvel, para não atrapalhar o sono da filha. Tiago olhou e percebeu que as mãos da mulher tremiam. Ela estava bebendo demais, sempre. Todos os dias. Começava por volta das cinco da tarde e bebia até meia-noite, um pouco mais. Dormia até onze ou meio-dia, comia alguma coisa, saía resolver algumas coisas no banco ou fazia algumas compras, voltava para casa e… bebia. Sentiu-se um pouco culpado pelo alcoolismo da mulher: foi ele quem começou a incentivá-la a beber. Quando bebia simplesmente desmaiava na cama e não queria sexo. Ele também não queria sexo. Não com ela. E a bebida acabou ajudando-o a se afastar sexualmente dela.

Na noite anterior eles haviam saído com amigos, foram a uma pizzaria. Cristina tomou algumas em casa, antes de sair. Foram vários chopes com a pizza. Quando voltaram para o apartamento, ele já com Marcinha dormindo nos braços, ela preparou nova dose de uísque. Ele colocou a menina para dormir, botou pijama e foi escovar os dentes. Quando saiu do banheiro, a mulher já estava estirada na cama. Ele achou bom, pôde terminar de arrumar as malas.

Escolheu viajar no domingo por conta do pouco trânsito – e assim estava a estrada, totalmente vazia. Não eram oito da manhã ainda, eles rodavam já há cerca de uma hora, quando aconteceu.

Estavam em uma descida íngreme. A caminhonete não dava ares de estar à cerca de 150 quilômetros por hora. Os vidros fechados, o controle de temperatura marcando 22 graus centígrados. Ele olhou no retrovisor e não vinha ninguém lá atrás. Ninguém também à frente. Viu de novo as mãos trêmulas de Cristina sobre as pernas e ouviu Marcinha resmungar de leve. Tudo seguia seu rumo.

Mas a impressão durou um instante. Um estalo que quase não foi ouvido por ele ou pela mulher tirou a caminhonete da linha reta. Naquela velocidade, a roda entortou e o veículo foi para os ares. Rodopiou uma, duas, três vezes, batendo no chão violentamente, sacudindo os passageiros todos lá dentro. Airbags encheram, a buzina disparou e a caminhonete foi deslizando com a capota para baixo por uns vinte metros. Quando parou, fumaça e silêncio total. Dentro, três corpos. Três mortos. Três destinos selados e nenhum plano mais a ser executado.

* Luiz Biajoni é jornalista, escritor e colaborador do Amálgama. Este post é o primeiro capítulo de Buceta: Uma novela cor-de-rosa, recém-lançado. Também já publicou Sexo anal: Uma novela marrom e Virgínia Berlim: Uma experiência, todos pelo selo Os Vira-Lata.

leia a entrevista de Juliana Dacoregio com Luiz Biajoni ]

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