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O tempo sempre pode esperar

por Amálgama (24/04/2009)

por Paulo Vilmar * – Cinquenta e oito anos vividos, bem vividos. Professor universitário, bom salário, cabelos brancos, compridos, o mesmo peso dos vinte anos, oitenta e seis quilos e um metro e oitenta e cinco de altura! Divorciado há seis anos, casal de filhos, ele trinta e quatro anos, engenheiro morando no Canadá, casado, […]

por Paulo Vilmar * – Cinquenta e oito anos vividos, bem vividos. Professor universitário, bom salário, cabelos brancos, compridos, o mesmo peso dos vinte anos, oitenta e seis quilos e um metro e oitenta e cinco de altura! Divorciado há seis anos, casal de filhos, ele trinta e quatro anos, engenheiro morando no Canadá, casado, pai de dois meninos, um de oito anos, outro de seis, ela, vinte e oito anos, Juíza de direito, noiva, também professora universitária, casada, morando em Florianópolis.

Jorge, professor Jorjão para os alunos, Jorginho para os poucos amigos.

Dezesseis anos vividos, bem vividos, pensava Pópis, em frente ao PC da Lan House, onde estava, enquanto lia os vários recados, muito loucos, de parabéns, deixados em sua página do Orkut. Que teu dia seja merda, dizia um (na linguagem cifrada, queria dizer ao contrário), outros impublicáveis, todos na mesma linha, ela ria alto e se divertia, segurando na mão esquerda uma latinha de cerveja gelada, enquanto com a língua pressionava por dentro o piercing que colocara entre o queixo e lábio e que viera se somar ao de argola no lábio e ao de alteres, no supercílio.

Aniversário de divorciado, sozinho, depois dos cinqüenta é sempre a mesma coisa, novecentas e treze mensagens de feliz aniversário na página do Orkut, recados com música e flores se abrindo, purpurina brilhando, champanhes estourando em duvidosos recados animados de email, a caixa de mensagens do celular estourando, a secretária do Departamento quase louca com tantos telefonemas, convites mil, uns sinceros, outros nem tanto e em casa, um pão dormido, um resto de cerveja sobre o DVD e o velho telefone fixo, fixo e quieto…

*

Pópis nasceu Maria Luiza, mas, por ser muito moderna, desde os oito anos tornara-se Pópis, de pop. Nem mais lembrava o verdadeiro nome! Filha de pais separados, ele industrial, produtor de roupa para surf em Florianópolis, trinta e seis anos, muito rico, vivia mais era surfando, inclusive já tinha ganhado um campeonato de masters, ela, advogada, trinta e quatro anos, trabalhava durante o dia num grande escritório e lecionava Direito Penal à noite, em duas faculdades, morava com um outro advogado e não tinham filhos. Pópis fora criada pela avó paterna, que tinha quarenta anos; quando ela nasceu, herdara uma fortuna dos pais e era bruxa wicca! Lia tarô, runas e de vez em quando tomava uns chás que a deixavam fora do ar por dois ou três dias.

*

Feliz aniversário, professor, ouviu do porteiro, antes de entrar no elevador, quase derrubando o pacote de compras. Abriu a porta devagar, como se, por algum milagre, alguém lhe espreitasse, de dentro, num parabéns alucinante de uma surpresa qualquer. O que ouviu foi o miado prolongado do Barriga, seu gato siamês, velho, castrado e, no momento, com fome, pois ficara sem ração. Perguntou se estava tudo bem, Barriga miou por educação, esperando sua porção de Cat-qualquer coisa, sabor salmão.

*

Pópis fumou o primeiro baseado com nove anos. Aos onze era viciada em cocaína e aos quinze já passara por quatro clínicas, e deixara, por definitivo, das coisas, como ela mesmo dizia, não pelos tratamentos, que nada mudaram, mas porque as coisas não traziam nada de novo para ela… Seu barato agora era ficar de cara. Algumas vezes tomava uma cerveja, mas eram poucas.

Era quase meio-dia, acendeu todas as luzes, nem aí para o aquecimento global, ligou a TV, lavou as mãos, pegou uma cerveja geladinha e foi para o PC, ver se tinha algum comentário em um dos seus três blogs: um de poesia, outro sobre sociologia, a matéria que lecionava, e outro sobre os Beatles, Rolling Stones, The Who, Emerson, Lake & Palmer, Santana e Pink Floyd, chamado “Meninos, Eu Vi”… Nada, nenhum comentário – não entendia porque as pessoas visitavam e não deixavam comments!

Quando Pópis tinha doze anos, fora morar com um boliviano, que estudava medicina e traficava ao mesmo tempo. Ficaram juntos dois anos, até a casa cair (ele ser preso) e ela ser internada pela avó, por ordem da Juizado da Infância e Juventude! Da clínica fugiu com o “Bengala”, um neguinho que era viciado em acetona e não tinha metade de uma perna. Ficou com ele por seis meses, até ele ser morto numa abordagem policial.

*

Visitou alguns blogs, deixou alguns comentários, foi para o Orkut, não aguentou, foi ler os emails. Um do seu filho, outro, bastante formal, da filha, outro da ex-mulher, de alguns amigos professores, da Livraria Saraiva, parabenizando e dando um desconto especial, das Americanas, ofertando um Dell com quatro gigas, e um, estranho, de uma menina que dizia ter lido uma poesia no blog, com a qual se identificara demais, e que sentira uma enorme vontade, não de comentar a poesia, que parecia ter sido escrita para ela, mas uma vontade de encontrá-lo, de conversar com ele, de tomar uma cervejinha (assim ela disse). Deixava o número do celular e em anexo uma foto dela, com um sorriso maroto e um piercing de argola no lábio. A foto parecia ter sido tirada por ela mesma. Era meio-dia do seu aniversário de cinqüenta e oito anos.

*

Apesar de tudo, Pópis conseguira terminar o fundamental e estava no primeiro ano do ensino médio. Era muito inteligente, pretendia estudar cinema. Atualmente estava passando por uma fase de amor pela literatura, adorava poesia, e um dia, passeando pelos blogs, leu uma que simplesmente a deixou muda e arrepiada…

Tiro a roupa lentamente,
não me peças rapidez,
meu desejo aguarda intacto
a voz do teu comando.
Passam anos
e me devoro
nesta espera
silenciosa,
escura e morna,
onde a solidão
me faz, triste, companhia!
Ouço vozes
no apartamento de cima
e recolho sobras de amor
nas frestas do assoalho.
Tua bruxa é só tatuagem
na pele de tua pélvis,
no dia que te encontrar
professor, que sou,
vou te ensinar o amor.
Te desejo e
me consumo
de paixão
alegria
e
medo!

Queria gritar, queria sair correndo, queria beijar o poeta, queria tudo e não podia nada. Procurou o email do autor e, sem pestanejar, enviou um pedido e uma foto. Era meio-dia do seu aniversário de dezesseis anos.

*

Largou a cerveja pela metade, correu pela casa. Não tinha com quem falar e Barriga, definitivamente, não estava para papo algum. O coração, em sobressalto, não acompanhava o ritmo, batia desordenadamente. Voltou ao computador e foi direto para sua caixa postal, não tinha nada de novo, apenas as mesmas mensagens.

*

Largou a cerveja pela metade, correu pra casa. A avó estava viajando, o coração estava em sobressalto, não acompanhava o ritmo, batia desordenadamente. Ligou o computador e foi direto para sua caixa postal, não tinha nada de novo, apenas algumas mensagens.

*

Clicou com a seta do mouse em Responder e digitou, perguntando onde ela morava e se não tinha nenhum companheiro. De repente, uma luz amarela piscando avisava um novo email. A mão tremia, mas segurou firme o mouse e clicou em Abrir. Era ele. Pópis sorriu de felicidade. Perguntou se ele tinha MSN e mandou o seu.

*

Ela respondeu na hora, perguntando se ele tinha MSN. Claro que tinha. Adicionou, sem pensar duas vezes. Ela já estava lá.

Conversaram quatro horas, sem parar, cada assunto que tocavam era como se fossem clones, pensavam da mesma forma. Sorriam, gargalhavam, em cada oposto cibernético da conversa. Descobriram que estavam de aniversário, mas não perguntaram as idades. Descobriram que não tinham com quem comemorar, resolveram se encontrar, logo mais à noite.

Ficaram meia hora brincando, para ver que primeiro desligaria o PC.

E agora?, pensou ele, rememorando a menina do piercing, ela parece bem novinha. Será que tem uns vinte e dois? Nossa, estou fazendo cinquenta e oito, acho que dá para mentir que estou fazendo cinqüenta e dois ou três… Afinal, ainda estou em forma!

Beijou o Barriga, valsou pela cozinha, tomou banho cantando Beatles, fez a barba devagar, um rabo de cavalo no cabelo, um óculos de contornos vermelhos (sempre deixavam mais jovem), uma camisa branca de linho, um brinco de argolinha e uma calça jeans rasgada na altura do joelho.

*

E agora?, pensou ela, imaginando ele pelo que descrevera. Devia ter uns quarenta – nossa, era mais velho que seu pai. Não faz mal, vou mentir a idade, vou dizer que estou fazendo vinte e dois, acho que passa. Beijou a foto da avó e foi nua para o banho, onde ficou uma hora, rindo e cantando Beach Boys. Saiu e foi procurar um perfume, vestiu uma calça cigarrete preta, scarpins, blusa branca, decotada e um sutiã para aumentar o volume dos seios pequenos.

Era vinte e uma horas quando ele buzinou em frente a casa da avó, ela saiu devagar, ele ficou sem palavras, era como se a conhecesse a anos. Desceu, abriu a porta do carro, convidou-a para entrar, foi para o seu lado, entrou e, ao dar um beijo de boa noite, não resistiu e beijou-a na boca. Era tudo que ela queria, se apaixonara de cara. Trocaram tantos beijos que, quando pararam, estavam quase sufocados e as janelas do carro completamente embaçadas. O piercing nem incomoda, pensou ele, enquanto sorria sem parar, vendo-a sorrir igualmente.

Foram a um restaurante afastado, que servia rã à milanesa com molho de camarão, acompanhado de arroz branco e salada de palmitos. Tomaram vinho verde português e conversaram sem parar, cada vez mais convencidos que estavam no mundo para completarem um ao outro. Não tocaram em idades, apenas brindaram seus aniversários.

*

Duas da manhã, frio, entraram no motel direto para o quarto. Pediram champanhe, ela começou a recitar o seu poema, que sabia de cor. Ele a envolveu com os braços.

Pareceu um tiro de canhão e a porta veio abaixo. Correram para a janela. Assustados, só ouviram os gritos de polícia, a casa caiu, está preso!

*

Na manchete do jornal matutino, a chamada em letras garrafais: Professor Universitário é Preso por Pedofilia. No corpo da matéria, descobriu-se que ele fora preso por denúncia de uma vizinha da avó da menina, que o conhecia e achou demais ele sair com uma menina de dezesseis anos. Dormiria na cadeia, responderia o processo em liberdade. A menina fora encaminhada para o Conselho Tutelar, porque não tinha ninguém responsável por ela. Pópis chorou, pela primeira vez por amor. O professor pediu aposentadoria no dia que saiu da prisão, vendeu tudo que tinha e foi embora para Florianópolis. Nunca mais se encontraram, a não ser no dia da audiência, onde ela afirmou ao Juiz que mentira a idade, para assombro do pai, que a acompanhava. Ele foi absolvido, ela terminou o ensino médio e hoje está chegando em Florianópolis, dois anos depois do acontecido. Ele está esperando Pópis no aeroporto, para comemorarem juntos seus aniversários. Combinaram pelo MSN, por onde conversaram os últimos dois anos inteiros.

 
* Paulo Vilmar é advogado e mora em Santa Maria-RS. Blog: caldodetipos.blogspot.com.

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