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Violência apropriada

por Amálgama (05/04/2009)

por Estêvão dos Anjos * – Violência Gratuita (EUA, 2008) é um filme no mínimo intrigante. Remake de uma versão homônima de 1997, a obra é caracterizada pela quebra dos padrões do modo de fazer cinema. Esqueça a linguagem translúcida e a angústia recompensada pelo “final feliz” – o filme de Michael Haneke, e que […]

por Estêvão dos Anjos * – Violência Gratuita (EUA, 2008) é um filme no mínimo intrigante. Remake de uma versão homônima de 1997, a obra é caracterizada pela quebra dos padrões do modo de fazer cinema. Esqueça a linguagem translúcida e a angústia recompensada pelo “final feliz” – o filme de Michael Haneke, e que conta com um grupo de atores excelentes (Naomi Wats, Tim Roth, Brady Corbet e Michael Pitt), é também uma provocação constante ao público sobre o papel da violência em nossas vidas.

Em uma ótima metáfora para a situação do filme, o gutural hardcore que interrompe a clássica música tocada no carro da família formada por Anna (Wats), George (Tim Roth) e seu filho George (Gearhart), enquanto eles se dirigem a sua casa de veraneio, ilustra a quebra do clima tranquilo que a família teria em mais um fim de semana passado com amigos e jogos de golfe.

Foi em forma de ária que Peter (Corbet) tocou à porta da casa de Anna para pedir alguns ovos emprestados. Porém, o clima tenso causado pela presença da estranha figura de Peter e seus constantes “vacilos” substituem aos poucos o clima de leveza que a família teria por grandes momentos de caos e horror.

Sem tomar posturas agressivas, Peter e Paul (Pitt), como bons narradores do filme, vão introduzindo, ou justificando, a violência que em breve se tornaria a personagem principal dessa trama. Comportando-se estranhamente, Peter, ao pedir os ovos, quebra-os, solicitando logo em seguida os outros que havia visto na geladeira de Anna. A situação, apesar de parecer acidental, adicionada a outros “tropeços” de Peter, cria um clima tenso na cena a ponto de Anne esbravejar, implorando a saída de Peter e Paul de sua casa. O interessante desta cena é que em momento algum os jovens são grosseiros ou agressivos, mas eles se utilizam de uma educação um tanto quanto irônica que irrita tanto o público quanto os personagens da família de Anna.

Após ouvir os pedidos de Anna para que os rapazes se retirem, George incorpora o clima de tensão e responde com um tapa ao pedido, um pouco enfático, mas sem ser deselegante, de Paul pelos ovos que vieram pegar. Era o gesto que os visitantes necessitavam para justificar a violência que viria a ser apresentada. Apesar do que o nome sugere, o filme deixa de fora do enquadramento as cenas de violência mais fortes.

Demonstrando domínio nos elementos cinematográficos, Haneke, assim como um Machado de Assis, cria um personagem que vez ou outra questiona as pessoas olhando diretamente para a câmera. É como se o personagem se tornasse um alter ego do diretor e mostrasse que ali, nada mais que uma trama, ele está no comando. É após alguns questionamentos dirigidos a nós, que o “poder” que o personagem tem é demonstrado. Após cometer a distração de deixar uma espingarda solta e Anna a utilizar, matando Peter, Paul procura desesperadamente o controle remoto e faz a cena regredir ao ponto anterior a ação de Anna. O controle remoto perdido é uma metáfora para a perda de controle da situação que houve por parte de Paul.

Além dessa lógica associação, a cena possui um forte potencial reflexivo, por no fazer questionar o motivo da sensação prazerosa que temos ao ver o sangue de Peter salpicar a parede. Até então nenhuma cena de violência explícita havia sido mostrada, as torturas e mortes nunca eram enquadradas, e mesmo assim cria-se em nós ojeriza. Portanto, qual seria o motivo de termos prazer quando vemos Anna agir violentamente? O motivo mais plausível é que para nós ela tinha um motivo para agir assim; o que nos leva a outro questionamento: o uso da violência é justificável caso tenhamos uma razão para isso? Ou: assim como Anna, para os jovens, o uso da violência deles sobre a família fora motivado por uma ação de George logo nos primeiros minutos da trama, ou seja, também foi explicado, o que torna sua violência pior do que a de Anna?

Longe de propor alguma resposta, Haneke utiliza com maestria os elementos cinematográficos a fim de construir seus argumentos um tanto quanto não-convencionais, assim como o final do filme, mas que serve para criar em nós a reflexão sobre até que ponto o uso da violência passa a ser justificado ou, até mesmo, quanto de Peter ou Paul existe em cada um de nós.

[veja o trailer]

 

* Estêvão dos Anjos, jornalista, mora em Maceió. Desde pequeno é apaixonado por literatura. Tem receio de se apresentar como poeta mas escreve frequentemente poesias e as veicula no blog artenaarteria.blogspot.com/.

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