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Hoje, cinco anos de Bento XVI

por Amálgama (19/04/2010)

por Eduardo Zugasti * – No dia 19 de abril de 2005, o conclave escolheu Joseph Ratzinger como sucessor de Karol Wojtyla. Deixando de lado as contribuições estritamente teológicas e doutrinais, compiladas até o momento em três encíclicas, e partindo do pressuposto de que esse outro tema diz respeito tanto a crentes como a não […]

por Eduardo Zugasti * – No dia 19 de abril de 2005, o conclave escolheu Joseph Ratzinger como sucessor de Karol Wojtyla. Deixando de lado as contribuições estritamente teológicas e doutrinais, compiladas até o momento em três encíclicas, e partindo do pressuposto de que esse outro tema diz respeito tanto a crentes como a não crentes: por quê será lembrando essencialmente Bento XVI?

Cinco propostas:

– Pela missa de costas –
Em 13 de janeiro de 2008, Bento XVI celebrou uma missa na capela sistina situando-se ad orientem, quer dizer, de costas para os fiéis. Esse gesto amplamente criticado pelos setores que temem um retrocesso na “modernização” da Igreja, tanto por teólogos como por embaraçados crentes “de pé”, fez com que o mesmo Ratzinger desconversasse, observando que a orientação “rumo o Senhor: rumo ao Pai por Cristo no Espírito Santo” não trai as instruções litúrgicas da igreja romana.

– Pela reconciliação com bispos lefebvrianos e anti-semitas –
Por meio de um decreto assinado em janeiro de 2009, Bento XVI suspendeu a excomunhão do bispo Richard Williamson, membro da sociedade tradicionalista São Pio X e negador público do Holocausto. Esse é o acontecimento que mais turvou as relações romanas com a comunidade judaica, apesar de que o Vaticano se tenha visto obrigado a escapar oficialmente das teses negacionistas de Williamson, condenando qualquer forma de anti-semitismo (por que não aparece uma só menção a “anti-semitismo” em várias das entradas de Joseph Ratzinger na Wikipédia?), ao mesmo tempo que o papa declarou sua “completa e indestrutível solidariedade” com os judeus. A recente comparação, por parte de um pregador do Vaticano, entre a perseguição do Holocausto e as críticas por conta do escândalo dos sacerdotes pederastas, voltou a deixar tensa as relações com os judeus.

– Por questionar e obstaculizar a educação sexual e as políticas de saúde sexual baseadas na ciência –
Durante uma visita pastoral a Camarões e Angola, em março de 2007, Bento XVI questionou as políticas públicas de saúde sexual, chegando a afirmar que o uso de preservativos poderia “aumentar o problema” da Aids. A posição de Edward C. Green, da escola de saúde pública de Harvard, foi mais benevolente em comparação com uma avalanche de críticas que incluiu a da Sociedade Internacional sobre a Aids e a revista médica The Lancet, a mais prestigiosa e influente do mundo, que exigiu uma retificação pública e acusou Ratzinger de “manipular a ciência para apoiar a ideologia católica”. O rechaço do planejamento familiar racional se complementa, como é bem sabido, com um forte recrudescimento das campanhas antiabortistas que também experimentamos aqui na Espanha, com o último projeto de lei.

– Por organizar uma “aliança santa” com o Islã frente à civilização laica –
Após a polêmica por conta do discurso na Universidade de Ratisbona em 2006, e em parte como resposta à “Carta aberta ao papa” escrita por distintas autoridades religiosas e acadêmicas islâmicas, Joseph Ratzinger colocou Jean-Louis Tauran à frente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso. Desde então, os contatos entre a diplomacia vaticana e renomados representantes do mundo islâmico se fortaleceram extraordinariamente, particularmente com o Irã e a Arábia Saudita. Para dar alguns exemplos, a “doutrina Tauran” se cristalizou desde então em distintas iniciativas paralelas (“A common word”), encontros amistosos entre clérigos e declarações conjuntas dirigidas em particular contra a Europa laica e descrente. Como aquela inesquecível – mesmo que de fato esquecida logo após divulgada – declaração conjunta do rei Abdullah e representantes cristãos e muçulmanos que aparentemente subscrevia “um êxito da fé contra o ateísmo, da virtude contra o vício, da justiça contra a injustiça, contra a paz dos conflitos e guerras, e da fraternidade humana contra o racismo.”

– Pelo acobertamento de sacerdotes pederastas –
Enquanto os partidários fazem fila estes dias em torno de Ratzinger, solicitando impunidade por seus atos e estabelecendo comparações lunáticas entre a educação sexual, a homossexualidade e a pederastia, a denúncia de abusos infantis por parte de sacerdotes católicos em vários países segue engordando um escândalo massivo e devastador. A imagem pública mesma de Joseph Ratzinger foi seriamente prejudicada por sua participação pessoal em alguns casos revelados nos maiores meios de comunicação mundiais. O envolvimento do pontífice foi muito bem explicado por Christopher Hitchens depois do conhecimento público de uma carta confidencial a bispos católicos.

O escândalo, que só viemos a conhecer graças à indocilidade das vítimas (as mais organizadas são principalmente irlandesas, alemãs e norte-americanas) e ao funcionamento correto de alguns estados democráticos de direito, deixou em total evidência a opacidade, quando não o sectarismo culpável de uma organização que não suporta o mínimo de escrutínio democrático e que em pleno século XXI continua resistindo a assumir a igualdade perante a lei de seus cabeças coroados (uma reivindicação histórica, certamente tão antiga quanto a Enciclopédia de Diderot e d’Alambert). Neste sentido, os atos públicos de contrição, inclusive a deliberada e repetida confusão entre “pecado” e “delito” de forma alguma conseguem ocultar a gravidade do assunto, representada não tanto pelo número dos abusos cometidos (que alguns meios católicos tentam desesperadamente minimizar) quanto pelo acobertamento contínuo dos sacerdotes pederastas por parte dos hierarcas.

Os fatos são bastante públicos, persistentes e abundantes. As ordens e a propaganda defensiva não são críveis. De qualquer forma, se o papa atual é mesmo “a pessoa que mais tem feito para erradicar os abusos sexuais e fazer uma limpeza entre o clero indigno”, então dá calafrio só de pensar no legado moral de seus predecessores.

* Eduardo Zugasti, Bilbao-Espanha, é jornalista. Este artigo foi publicado inicialmente em seu blog, em forma um pouco diferente, e traduzido e reproduzido no Amálgama com autorização do autor.

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