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O papa não está acima da lei

por Amálgama (03/04/2010)

Christopher Hitchens, na Slate / 29 de março Uma por uma, como eu previ, as patéticas desculpas dos defensores de Joseph Ratzinger evaporam diante de nossos olhos. Era dito até recentemente que quando o reverendo Peter Hullermann foi descoberto como um pederasta viciado em 1980, o homem que hoje é papa não teve envolvimento pessoal […]

Christopher Hitchens, na Slate / 29 de março

Uma por uma, como eu previ, as patéticas desculpas dos defensores de Joseph Ratzinger evaporam diante de nossos olhos. Era dito até recentemente que quando o reverendo Peter Hullermann foi descoberto como um pederasta viciado em 1980, o homem que hoje é papa não teve envolvimento pessoal na sua subsequente transferência para sua própria diocese ou em sua futura e desempedida carreira como estuprador e molestador. Mas agora descobrimos que o psiquiatra que a igreja procurou para “terapia” foi inflexível em que Hullermann nunca mais deveria ser permitido se aproximar de crianças. Também descobrimos que Ratzinger foi um daqueles a quem o relatório sobre a transferência de Hullermann realmente se destinava. Todas as tentativas para colocar a culpa em um leal subordinado, o vigário-geral de Ratzinger, reverendo Gerhard Gruber, previsivelmente falharam. De acordo com uma recente reportagem, “a transferência do padre Hullermann de Essen não teria sido uma questão rotineira, dizem especialistas.” Ou isso – o que já é bastante condenatório – ou talvez teria sido uma questão rotineira, o que é ainda pior. Certamente o padrão – de encontrar uma outra paróquia com crianças frescas para o padre violentar – se tornou horrível “rotina” desde então, e se tornou prática padrão quando Ratzinger virou cardeal e ficou encarregado da resposta global da igreja à pederastia clerical.

Então agora uma nova defesa teve que ser apressadamente improvisada. É dito que, durante seu período como arcebispo de Munique e Freising, Alemanha, Ratzinger estava mais preocupado com questões doutrinais do que com meras questões disciplinares. Claro, claro: O futuro papa tinha seus olhos fixos em questões etéreas e divinas e não poderíamos esperar que se preocupasse com atrocidades de nível paroquial. Essa desculpa tosca na verdade compensa um pouquinho de exame. Quais exatamente eram essas questões doutrinais? Bem, fora punir um padre que celebrou uma missa num protesto anti-guerra – o que incidentalmente parece falar a favor de uma abordagem “prática” em relação a clérigos –, a principal preocupação de Ratzinger parece ter sido com primeira comunhão e primeira confissão. Na década anterior, havia se tornado habitual na Baviera submeter crianças à primeira comunhão com pouca idade, mas esperar um ano até que fizessem a primeira confissão. Era uma questão de se elas eram velhas o bastante para entender o processo. Basta desse liberalismo, disse Ratzinger, a primeira confissão deveria ocorrer no mesmo ano da primeira comunhão. Um padre, reverendo Wilfried Sussbauer, informa que escreveu a Ratzinger expressando receios acerca dessa medida e recebeu “uma carta extremamente cáustica” em resposta.

Então parece que 1)Ratzinger estava bastante disposto a acertar as contas com padres que lhe dessem qualquer problema e 2)ele era bastante firme a respeito de um ponto crucial da doutrina: Pegue as crianças ainda novas. Diga a elas durante a infância que elas é que são as pecadoras. Incuta nelas o sentimento de culpa necessário. Isso não é de todo irrelevante para o nojento escândalo no qual o papa agora irremediavelmente mergulhou a igreja que lidera. Quase todo episódio desse show de horror envolveu crianças pequenas sendo seduzidas e molestadas em confessionários. A se tomar os mais lacerantes casos que emergiram recentemente, a saber, o tormento de crianças surdas em escolas administradas pela igreja em Wisconsin e Verona, Itália, é impossível deixar passar a maneira calculada com que os predadores usaram a autoridade do confessionário para praticarem seus atos. E mais uma vez o padrão idêntico se repete: Compaixão deve ser mostrada apenas em relação aos criminosos. O próprio congênere de Raztiner em Wisconsin escreveu-lhe urgentemente – nessa época ele era cardeal em Roma, supervisionando o acobertamento global católico de estupro e tortura –, suplicando para que removesse o reverendo Lawrence C. Murphy, que havia arruinado as vidas de 200 crianças que não podiam comunicar sua situação exceto em linguagem de sinais. E nenhuma resposta estava a caminho, até que o padre Murphy apelou ao perdão de Ratzinger – que lhe foi concedido.

Para Ratzinger, o único teste para bom padre é esse: Ele é obediente, discreto e leal à ala tradicionalista da igreja? Testemunhamos isso em outras ações suas como papa, notavelmente na suspensão da excomunhão de quatro arcebispos que eram membros da auto-proclamada Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, aquele grupo de cismáticos de extrema-direita fundado pelo padre Marcel Lefebvre, e que incluiu o negador do Holocausto Richard Williamson. Testemunhamos isso quando ele era cardeal, defendendo a idólatra e medonha Legião de Cristo, cujo líder fanático conseguiu se tornar pai de algumas crianças, bem como proteger a violação de muitas mais. E testemunhamos hoje, quando incontáveis estupradores e pederastas estão sendo desmascarados. Um dos acusados na escola de surdos em Verona é o arcebispo da cidade, Giuseppe Carraro. Na sequência, se nossas cortes encontrarem tempo, estará o reverendo Donald McGuire, um ofensor serial contra garotos que também foi confessor e “diretor espiritual” de Madre Teresa. (Ele, também, achou o confessionário um lugar agradável e privado, do qual fez grande uso.)

É isso o que torna o escândalo institucional, e não uma questão de delinquência aqui e acolá. A igreja precisa e quer o controle de crianças muito novas, e pede aos pais para confiarem seus filhos a certos “confessores”, que até recentemente gozavam de enorme prestígio e imunidade. Ela não pode se permitir a admissão de que muitos desses confessores, e seus superiores, são sádicos calcificados que mal podem acreditar na própria sorte. E nem pode se permitir a admissão de que regularmente abandonou as crianças e fez seu melhor para proteger e às vezes mesmo promover seus atormentadores. Então, ao invés, ela está chorosa e falsamente declarando que todas as acusações contra o papa – nenhuma delas vindo à tona a não ser de dentro da própria comunidade católica – são parte de um plano para embaraçá-lo.

Isso não foi verdade até aqui, mas é necessário que seja verdade de agora em diante. Esse terrível homenzinho não está acima ou fora da lei. Ele é o cabeça titular de um pequeno estado. Sabemos cada vez mais dos nomes das crianças que foram vítimas e dos pederastas que foram seus carrascos. Isso é um crime sob qualquer lei (bem como um pecado), e crimes não demandam doentias cerimônias privadas de “arrependimento” ou falsas compensações por meio de pagamentos financiados pela igreja, mas sim justiça e punição. As autoridades seculares têm sido fracas por muito tempo, mas agora alguns advogados e procuradores estão começando a se movimentar. Sei de alguns sérios homens da lei que estão discutindo o que fazer se Bento tentar levar a cabo sua intencionada viagem à Grã-Bretanha no outono. Basta! Um acerto de contas deve ser feito, e deve começar agora.

Tradução: Daniel Lopes. O artigo original, aqui.

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