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Os Estados Unidos X John Lennon

por Amálgama (09/04/2010)

por Jean Garnier – Semana passada, enquanto eu lia uma reportagem sobre a série de homenagens prestadas ao saudoso Armando Nogueira, na mesma página uma outra matéria sobre novas suspeitas de desvio de dinheiro em Brasília me chamou a atenção. Logo fiz a mim mesmo uma pergunta: que tipo de legado essa classe política pensa […]

por Jean Garnier – Semana passada, enquanto eu lia uma reportagem sobre a série de homenagens prestadas ao saudoso Armando Nogueira, na mesma página uma outra matéria sobre novas suspeitas de desvio de dinheiro em Brasília me chamou a atenção. Logo fiz a mim mesmo uma pergunta: que tipo de legado essa classe política pensa em deixar para as futuras gerações, se é que isso passa pela cabeça dela? Foi impossível não lembrar novamente no assunto quando vi a abertura do documentário Os Estados Unidos X John Lennon (em cartaz no Brasil), no qual a imagem do ex-Beatle fica em oposição, como se fosse um confronto, à do ex-presidente Richard Nixon.

Com direção e roteiro de David Leaf e John Scheinfeld, o filme, que se estende do período de 1966 a 1976, pouco fala sobre os Beatles, apenas é enfatizada a passagem polêmica em que Lennon declara que sua banda é mais popular que Jesus Cristo. Sequências mostram as pessoas juntando pilhas e pilhas de quaisquer quinquilharias que dissessem respeito aos rapazes de Liverpool e tacando fogo. Aqueles que pouco sabem do lado militante do vocalista, irão se deliciar. Depois do casamento com a artista plástica Yoko Ono, ele se especializou em protestos provocantes contra o desperdício de vidas que acontecia no Vietnã.

Criticas à guerra, injustiça racial e social se tornaram para Lennon muito mais importantes do que sua banda, e imagens são entrelaçadas a relatos de Tariq Ali (escritor), Carl Bernstein (jornalista), Noam Chomsky (linguista) e Bob Gruen (fotógrafo), e ainda juntam-se o fundador dos Panteras Negras, Bobby Seale, e a própria Yoko. Está tudo bem contado, desde o famoso “bed-in for peace” no Hotel Hilton de Amsterdã em 1969 (que parte da imprensa considerou oportunista) até entrevistas em diversos programas e um show em homenagem ao poeta John Sinclair, que fora preso injustamente por um motivo banal. Como o FBI achava Lennon suspeito, Nixon viu aí uma grande oportunidade de ganhar a reeleição para presidente e camuflar o massacre que seu exército estava levando a cabo no Vietnã. Uma solução para melhorar sua popularidade foi deportar Lennon sob a desculpa “o problema não é a sua música, mas os seus amigos”.

Infelizmente, vendo o passado notamos que pouca coisa mudou: censuras à liberdade de expressão, abuso do poder por governantes e guerras horrorosas e sem sentido ainda estão presentes. A diferença talvez seja a ausência de artistas politizados e realmente engajados como Lennon.

Voltando à questão do início do texto, enquanto o ícone, quase três décadas depois de morto, ainda tem suas músicas tocadas mundo afora e sua memória ainda é uma de energia que ofuscará a história do rock por muito tempo, as proezas de Nixon – que renunciou em 1974 depois do escândalo do Watergate – por vezes são temas de filmes (como o recente Frost/Nixon), motivo de piada em programas como os da série Futurama, e o ex-presidente é constantemente lembrado no topo de listas dos piores mandatários dos Estados Unidos, posição que George W. Bush fez tanto esforço para ocupar.

[veja o trailer do documentário]

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