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Polarização acirra caráter plebiscitário das eleições

por Amálgama (29/04/2010)

por Maurício Caleiro * – A aproximação das eleições presidenciais torna cada vez mais evidentes os sinais de polarização do debate político. Fatores como a manutenção de baixos índices de intenção de votos para a ex-senadora Marina Silva (PV-AC) e o naufrágio, em pleno cais, da candidatura Ciro Gomes (PSB-SP) – seguido, uma vez mais, […]

por Maurício Caleiro * – A aproximação das eleições presidenciais torna cada vez mais evidentes os sinais de polarização do debate político.

Fatores como a manutenção de baixos índices de intenção de votos para a ex-senadora Marina Silva (PV-AC) e o naufrágio, em pleno cais, da candidatura Ciro Gomes (PSB-SP) – seguido, uma vez mais, de mostras de descontrole verbal por parte do ex-quase-candidato – colaboram para a exacerbação da dicotomia eleitoral.

Esta, por sua vez, não se limita à oposição entre Serra e Dilma, ou entre o legado de FHC e o de Lula, ou ao tira-teima – a “negra” – entre PT e PSDB para ver, após 16 anos em que o poder federal ficou metade do tempo sob o comando de cada uma dessas agremiações políticas, que projeto de país perseverará.

A opção social-democrata (sic) sugere o retorno à cartilha neoliberal ortodoxa, com seu be-a-ba de estado mínimo, privatizações e corte de gastos. Em decorrência de tais medidas, como já assinalou o candidato tucano em mais de uma ocasião, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – que segundo o presidente do PSDB, não existe – seria suspenso e, no front da política externa, dar-se-ia o esvaziamento do Mercosul (e, em decorrência, da política Sul-Sul) em prol do realinhamento automático com os Estados Unidos.

Os detratores de tal tendência acusam-na de negligência para com os menos favorecidos e de adotar medidas potencialmente recessivas – portanto, causadoras de desemprego.

Já a escolha trabalhista (sic) indica o aprofundamento de um modelo que, sem abdicar totalmente do receituário econômico neoliberal, promove, via programas sociais, a inclusão econômica massiva das classes menos abastadas, e desenvolve, através de parcerias do Estado com a inciativa privada, um ambicioso programa de investimentos em infra-estrutura, com ênfase no Norte-Nordeste. Privilegia, em termos de política externa, a criação de laços multilaterais, notadamente no âmbito do Mercosul, do BRIC e da França, com o claro intento de diminuir a dependência em relação aos Estados Unidos.

Seus detratores acusam-na de frouxidão ideológica em relação ao ideário esquerdista que alegadamente deveria representar e de promover o desenvolvimento às custas da agressão ao meio ambiente.

Plebiscito informal
O caráter plebiscitário sugerido por tal dicotomia expande-se, no entanto, parra além dos aspectos intrinsicamente político-partidários que até agora marcaram as eleições. Como tive oportunidade de sugerir em outra ocasião, além do pleito formal, ocorrerá, em outubro, um plebiscito não oficial, que faz ao eleitor a seguinte pergunta: “A `grande mídia´ ainda apita alguma coisa?

Se vencer o “Sim”, a vitória de Serra é favas contadas. Pois os principais órgãos de mídia já deram mostras de que entrarão de cabeça na campanha – a favor do candidato peessedebista, é claro.

Não bastassem os fortes indícios de manipulação de pesquisas eleitorais associados ao instituto de pesquisas do Grupo Folha, no decorrer das últimas semanas tanto a Folha de S. Paulo quanto o portal UOL intensificaram, em prol da candidatura tucana, o tom e o grau de manipulação editorial de muitas de suas matérias.

A mais recente novidade é a difusão de um discurso, forjado por setores do mercado financeiro movidos por evidentes – mas não confessáveis – interesses econômicos. Ele apregoa o perigo de “superaquecimento” da economia brasileira e o receio pelo modo veloz como ela saiu da crise. Não dá para não rir…

Além dos antecedentes questionáveis do Datafolha, agrava a situação o fato de o instituto pertencer ao mesmo grupo empresarial que controla um jornal que tem de tempos em tempos violado a ética jornalística – nominalmente, com a publicação da ficha policial falsa de Dilma Rousseff, com o ataque aos professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, com o patrocínio do factoide Lina Vieira, com o ataque aloprado e sem provas de César Benjamim à honra de Lula, entre outros episódios não menos graves.

O espaço dedicado pelo grupo jornalístico à cobertura do anúncio da candidatura de José Serra, comparado ao concedido a Dilma Rousseff seria, em um país verdadeiramente democrático, alvo da atenção da Justiça Eleitoral.

O papel da internet
É fato que, ao contrário do que alardeiam os profetas do caos, o engajamento da mídia em prol de um candidato presidencial, não obstante condenável, não é novidade no país, ou sequer uma distorção pós-ditadura militar. O Brasil não começou com Elis Regina, costuma provocar Carlos Heitor Cony, aludindo à curta perspectiva histórica das novas gerações. Quem acha que a Veja é o que de mais baixo e acintosamente tendencioso o jornalismo pátrio ofereceu precisa folhear as páginas d’O Cruzeiro que antecederam a eleição de Juscelino Kubitschek e tomar contato com as escabrosos práticas de Assis Chateaubriand – dono de um império jornalístico bem maior do que a Abril possui hoje – relatadas por Fernando Morais em Chatô, de Fernando Morais (Companhia das Letras, 1994).

De forma alguma a constatação desse retrospecto negro de nossa imprensa relativiza suas práticas do presente. O ponto, aqui, é sublinhar que, em comparação a tal passado, há mais contrapesos à atuação política da mídia no momento histórico em que vivemos. Não só a desconfiança em relação à imprensa encontra-se bem mais disseminada como a internet – malgrado as evidências da ação de cibermercenários a serviço de alguns candidatos – apresenta-se, notadamente em sua versão 2.0, como um território propício ao rápido desvelo das armações e atuações tendenciosas da mídia e como um campo de produção e difusão de contra-discursos.

Talvez não seja exagerado dizer que ela terá um papel decisivo numa eleição tão polarizada e tão importante para a definição do futuro do país.

* Maurício Caleiro, Rio de Janeiro-RJ. Blog: cinemaeoutrasartes.blogspot.com.

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