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Por que a crença nos mercados racionais é uma religião furada

por João Villaverde (18/04/2011)

Jornalista financeiro investiga em livro a propagação da crença no mercado autoregulador

-- "O mito dos mercados racionais: Uma história de risco, recompensa e decepção em Wall Street", de Justin Fox --

por João Villaverde

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, em agosto de 1945, o astrofísico M.F.M. Osborne viu-se sem emprego. Até então diretor do Laboratório de Pesquisa da Marinha americana, que desenvolvia um sistema de rastreamento e destruição de submarinos rivais, Osborne passou a estudar, de forma autônoma, tudo aquilo que o desafiava como astrofísico e como matemático. Esses desafios incluiam entender a hidrodinâmica do salmão em migração e a aerodinâmica dos insetos. Aquilo o absorveu por 14 anos, quando suas conclusões sobre o novo desafio autoimposto fez tremer o debate público americano: Osborne queria entender por que os investidores compram determinadas ações e por que os preços sobem e descem sem que, por detrás desses movimentos, exista necessariamente uma explicação racional.

A equação matemática desenvolvida por Osborne no início de 1959, quase simultaneamente ao estudo do economista Paul Samuelson em torno do mesmo tema, serviu de sustentação para uma das mais poderosas teorias econômicas do século XX: os mercados financeiros são eficientes e racionais porque são movidos por investidores que fazem um “caminho aleatório” pelas ações, trocando uma série delas entre si, proporcionando ganhos exponenciais que, se isolados da ação governamental, fazem do mercado um ser soberano.

Esse é o mundo teórico que Justin Fox, diretor editorial do Harvard Business Review, resolveu estudar. As dúvidas em torno do funcionamento do mercado e o comportamento dos investidores sempre foram os pontos de encontro entre os economistas e os acadêmicos de áreas diversas, como matemática e estatística. Já em 1900, o matemático francês Louis Bachelier fez do seu doutorado um estudo sobre o tema — quando Samuelson, que ganharia o Prêmio Nobel de Economia em 1970, descobriu a tese de Bachelier, mais de 50 anos depois de concluída, os estudos sobre as ações nas universidades americanas eram a vedete do momento.

As equações de Osborne e a redescoberta de Bachelier, por parte de Samuelson, foram os primeiros passos para que, ao longo da década seguinte, diversos economistas, matemáticos, estatísticos e um astrofísico desenvolvessem um arcabouço teórico que, basicamente, concluía que o trabalho dos administradores de fundos e mesas de tesouraria não servia para nada — ou, nas palavras do economista Eugene Fama, da Universidade de Chicago, em 1970, os mercados eram eficientes e racionais o suficiente para prover os investidores dos mesmos ganhos que aqueles auferidos por “investidores profissionais”. Para o mais destacado dos defensores da teoria dos mercados racionais, Milton Friedman, os investidores são como jogadores de sinuca: não há uma teoria que rege seus movimentos. “Eles simplesmente sabem o que fazer”, escreveu em 1959.

“Há um mito, desde o fim do século XIX, que perdeu força após 1929 e voltou a ganhar evidência nos anos 1950”, diz Fox , “de que os mercados são capazes de encontrar respostas infalíveis”, e que estas beneficiam todos os agentes — empresas, investidores e a economia como um todo. Autor de O mito dos mercados racionais, lançado neste mês pela Best Business no mercado brasileiro, Fox conversou comigo, no fim de março, sobre a “crença” que promoveu crises financeiras como a de 1929 e a mais recente, desencadeada em 2008.

-- O autor --

“Os economistas parecem impelidos a acreditar que as coisas vão dar certo no mercado, encontrando inclusive explicações racionais e equações matemáticas que justifiquem a ação livre do mercado financeiro”, me disse Fox .

Quando a teoria veio abaixo pela primeira vez, depois que o crash da Bolsa de Valores de Nova York em outubro de 1929 gerou a Grande Depressão nos Estados Unidos, o primeiro grande entusiasta, o economista Irving Fischer, foi à bancarrota por investimentos malfeitos. Da segunda vez, no entanto, o “grande vendedor” da teoria de mercados racionais, o Nobel de Economia de 1976, Milton Friedman, já não estava presente — morreu em novembro de 2006, dois anos antes da explosão da crise.

“Conversei muito com Friedman, que tinha consciência de seu papel na formação de expectativas nacionais, isto é, sabia que ele era o paladino da teoria, o economista que tornava palatável a todos a ideia de que os mercados se autorresolviam”, disse Fox, para quem Friedman, hoje, teria uma explicação “bem razoável” para a explosão da crise de 2008 — e, sim, envolveria o Estado como vilão, não como salvador do mercado.

A missão autoimputada de Fox era levantar a história do desenvolvimento das ideias e por que tanta gente estudou o mercado de ações entre os anos 1950 e os anos 1980, quando a teoria deixou o campo acadêmico e virou consenso internacional, sob os governos de Ronald Reagan, nos EUA, e de Margaret Thatcher, no Reino Unido.

Eram tempos em que a máxima de Jacob Marschak, de que “ser um economista implica ser um estatístico”, ressoava em economistas como Fama, Samuelson e Friedman, e matemáticos como Harry Markowitz, que, em 1952, apresentou um estudo pioneiro mostrando que os investidores sabem, por intuição, que um portfólio diversificado é mais “seguro” que uma aposta única. O entusiasmo em torno do tema era tanto que dois economistas, Kenneth Arrow e Gerard Debreu, chegaram a desenvolver um modelo (chamado de “modelo Arrow-Debreu”) que provava matematicamente a existência da mão invisível do mercado, parábola criada por Adam Smith em 1776.

“Realmente queria entender por que essa crença ganhou tanta força, e mesmo hoje, depois que eventos como o crash da Bolsa em 1987 ou a explosão da bolha nas ações de empresas de internet em 2000, e o mais grave deles, a crise de 2008, continua arregimentando tantos debates”, afirmou Fox, para quem, no entanto, a resposta não é fácil.

Os leitores, disse o autor, deram respostas divididas. Aqueles que são investidores não gostaram porque queriam encontrar uma resposta que os ajudassem nas suas apostas. Aqueles que não são investidores, mas querem ser, também não gostaram porque esperavam encontrar dicas de como entrar no mercado. Por outro lado, o Nobel em Economia de 2009, Paul Krugman, escreveu no The New York Times que o livro era obrigatório para quem quer entender o mercado financeiro, e Martin Wolf, principal colunista do Financial Times, escreveu resenha elogiosa ao trabalho.

“Encontrei Larry Summers [principal conselheiro econômico dos governos de Bill Clinton e Barack Obama, além de sobrinho de Paul Samuelson e Kenneth Arrow] pouco antes de publicar o livro, e ele me aconselhou a colocar algumas dicas de investimentos como forma de atrair leitores”, revelou Fox. “Mas não se trata de dizer o que fazer, mas entender como grandes pensadores em diferentes áreas chegaram a uma ideia de que os mercados são racionais”, diz ele, para quem os tempos de Estado grande, vividos hoje, não vão durar muito. “É curioso que, diferentemente da Grande Depressão, poucos bancos faliram, justamente porque a ação estatal foi mais rápida e incisiva. Os bancos estão maiores agora do que estavam em 2008, e os Estados estão mais endividados. Quem vai aplicar em títulos públicos, que pagam juros baixos para incentivar a economia, se o mercado de ações está lá, inclusive com empresas maiores?”, questiona o escritor.

::: O mito dos mercados racionais: Uma história de risco, recompensa e decepção em Wall Street :::
::: Justin Fox (trad. Gabriel Neto) ::: Best Business, 2011, 476 páginas :::
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João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.