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O fantasma hostil de Hugo Chávez

por Amálgama (07/04/2013)

O luto não poderá continuar para sempre, especialmente em face de uma crise econômica

Enrique Krauze, na New Republic / 6 de abril

Nicolás Maduro

Quando a doença de Hugo Chávez entrou em seu estágio final, comecei a ponderar sobre sua pós-vida. Ele parecia destinado à santificação imediata, o tipo de elevação quase-religiosa que Evita Perón recebeu. Suspeito que Hugo Chávez continuará a vagar por anos, dado a veneração venezuelana pelo homem forte militar, o caudilho. Nos corações de seus seguidores (e seus muitos simpatizantes pela América Latina), Chávez ocupará o mesmo plano glorioso de Simón Bolívar, o Libertador da América Latina do século XIX. Mesmo seu patrão, Fidel Castro, deve estar se sentindo estranhamente deslocado, inoportuna vítima de parricídio.

É por isso que algo precisa ser dito clara e frequentemente: Hugo Chávez arruinou seu país. Mas só podemos explicar sua deificação póstuma se concedermos a sinceridade de seu comprometimento com os pobres. As clínicas e mercados subsidiados que ele criou nas favelas podem não ter tirado os partidários da pobreza, mas foram presença real em suas vidas. A democracia permanecerá vulnerável na América Latina até que os governos entreguem auxílio significativo para os pobres e marginalizados.

Claro, o futuro da democracia latino-americana depende de muito mais que isso. Ela deve ampliar o alcance das liberdades civis e do estado de direito, as próprias bases do estado liberal. Isso, Chávez não fez. Na verdade, ele detonou as instituições públicas da Venezuela. Chávez não apenas concentrou poder; ele confundiu, ou, mais precisamente, fundiu sua biografia pessoal com a história da Venezuela. Em seu programa semanal de TV e na propaganda de seu regime, ele criou um culto à personalidade; posou como sucessor de Bolívar. Nenhuma democracia pode prosperar quando um homem declara a si mesmo essencial e providencial.

Durante minhas visitas a Caracas nos anos Chávez, notei uma contínua deterioração física da cidade e um aterrador aumento da criminalidade. Mas nada me entristeceu mais do que testemunhar o ódio que Chávez arremessava contra seus opositores políticos. O ódio era onipresente: abundava em cartazes e outdoors, em seus discursos engabeladores e nas rançosas declarações de porta-vozes na televisão. Seu regime utilizou mídias sociais para espalhar teorias da conspiração e preconceitos. Assisti a sociedade venezuelana cair na armadilha do fanatismo ideológico, repentinamente imune à razão e à tolerância. A ausência de violência política no país é nada menos que um milagre.

Mas o que acontecerá agora? Todos os sentimentos públicos de luto, todo o agradecimento pelos programas sociais provavelmente levarão seu escolhido sucessor, Nicolás Maduro, à vitória nas eleições de 14 de abril. Os chavistas continuarão em seu controle do judiciário, do legislativo e da economia – e eles já se entocaram mais fundo do que isso na sociedade. Um empresário ligado a essa elite acabou de comprar a Globovisión, a última rede de televisão que permanecia independente na Venezuela. O governo pode agora esbravejar suas versões oficiais da política e da história sem encontrar contestação.

Mas o luto não poderá continuar para sempre, especialmente em face de uma crise econômica. A evidência da decomposição é bastante conhecida e profundamente perturbadora: um déficit orçamentário de 70 bilhões de dólares, o que corresponde a 22 por cento do produto interno bruto venezuelano, e a maior inflação da América Latina. Profissionais da classe média abandonaram o país, assim como os investidores.

A riqueza do petróleo tem sido administrada com incompetência cômica. Em 1998, o país produzia 3,3 milhões de barris de petróleo por dia e exportava 2,7 milhões deles. Esse ritmo tem caído continuamente. O país extrai atualmente 2,4 milhões de barris da terra e do mar, dos quais apenas 1,2 milhão é diretamente exportado para auferir lucros (a maior parte, para o inimigo declarado de Chávez no hemisfério norte, o “Império”). Ele preferiu usar o petróleo como uma ferramenta de política. Em casa, disponibilizou um petróleo tão barato, que podia simplesmente ter sido dado de graça. Para comprar o apoio de aliados no Caribe, enviou barris a vários países com enormes descontos. Cuba recebia vários carregamentos, o que nominalmente pagava os irmãos Castro pelos médicos, professores e policiais que eles enviavam para a Venezuela. Mas Cuba recebia tanto petróleo venezuelano que chegava a reexportar suprimentos excedentes.

Se Maduro vencer a eleição presidencial, no cargo ele terá a companhia da imagem televisionada de Chávez, infinitamente retransmitida na tevê estatal. Ainda assim, ele não é Chávez; não possui seu poder hipnótico. É fácil imaginar ele em breve sendo culpado por estar aquém de Chávez: “Chávez não teria deixado isso acontecer; Chávez teria previsto tudo isso”.

Enquanto isso, a oposição tem mostrado novos sinais de esperteza. Após anos de querelas intramuros, ela se uniu em apoio a um líder inteligente e corajoso, Henrique Capriles. Durante o declínio físico de Chávez, a oposição cuidadosamente calibrou sua linguagem e ações. Essa foi uma decisão sábia, porque qualquer evidência de triunfalismo ou sentimento de vingança poderia ter provocado uma reação feroz. Agora, a oposição pode tirar vantagem de sua força latente. Em 2007, Chávez realizou um referendo para validar sua filiação mais explícita a um socialismo ao estilo cubano. Mas os estudantes saíram às ruas, e Chávez sofreu uma rara derrota eleitoral. Esse movimento de protesto continua, esperando para ser renovado e fortalecido.

O nível de ódio na sociedade venezuelana é bastante palpável. A possibilidade de violência não pode ser eliminada. Mas se o país conseguiu sobreviver a 14 anos de Chávez na presidência sem violência política real, parece improvável que violência de rua vá se desencadear logo agora. Pelo contrário, existe uma possibilidade de reconciliação num futuro não muito distante. Há moderados no interior do exército, que agora terão maior espaço para dar opiniões. Há uma crise econômica que pressionará o regime. A morte do caudilho messiânico (Maduro lhe chama de “redentor”) pode abrir canais de diálogo.

Um movimento da Venezuela rumo à moderação ecoaria longe. Esperamos pelo dia em que Cuba – o único estado totalitário na América Latina – siga adiante como Rússia e China o fizeram. Sem as perniciosas influências de Chávez e Castro, a região poderia se abrir para um conjunto de opções políticas diferente, mais saudável, um debate robusto entre social democratas e, de outro lado, liberais comprometidos com uma economia mais aberta. O fantasma de Hugo Chávez poderia continuar vagando por aí, mas não precisaríamos mais temê-lo.

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