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Os extremistas ucranianos só triunfarão se a Rússia invadir

por Amálgama (17/04/2014)

A intervenção russa no leste ucraniano envolve gerar violência étnica, não suprimi-la

Timothy Snyder, na New Republic / 17 de abril

- Homens armados pró-Rússia em Slaviansk, leste da Ucrânia -

– Homens armados pró-Rússia após tomarem um prédio do governo ucraniano em Slaviansk –

A história do caráter de estado do território da Ucrânia começa com dois encontros arquetipicamente europeus. A política medieval no território onde hoje é a Ucrânia, como aquela na França e na Inglaterra, inclui um encontro com vikings. Os homens do norte queriam estabelecer uma rota de comércio entre os mares Báltico e Negro, e usaram Kiev, no rio Dnieper, como entreposto comercial. A chegada coincidiu com o colapso de um estado anterior, khazar, e seus líderes logo casaram com a população local de fala eslava. Assim nasceu a entidade conhecida como Principiado de Kiev. Como todos os estados do Leste europeu, o Principiado era uma entidade pagã que, nem tanto se converteu ao cristianismo, como escolheu entre as variantes ocidental e oriental do cristianismo. Como todos seus vizinhos, ele hesitou entre Roma e Constantinopla, antes que seus líderes optassem pela última. O Principiado foi seriamente enfraquecido por problemas de sucessão, e foi enfim destruído pela chegada dos mongóis na primeira metade do século treze.

Nesse ponto, a história do Principiado se fragmenta em partes. A maioria de suas terras foi reunida no Grão-Ducado da Lituânia, um enorme estado guerreiro com capital em Vilnius. Seus grão-duques apresentavam-se como os herdeiros do Principiado, e adaptaram muitas de suas conquistas culturais, como a língua eslava da corte e as tradições legais. Apesar dos grandes duques serem pagãos lituanos, a maioria de seus súditos era de cristãos orientais. Após os grão-duques da Lituânia se tornarem, através de união pessoal, reis da Polônia, a maior parte das terras da Ucrânia passaram a ser do maior estado europeu. As reformas constitucionais de 1569 estabeleceram esse estado como uma república conhecida como Comunidade Polaco-Lituana. Nessa “república de duas nações”, as terras da Ucrânia eram parte da coroa polonesa e as terras da Bielorrússia, parte do Grão-Ducado da Lituânia. Dessa forma, uma nova divisão foi criada dentro das antigas terras do Principiado.

Essa foi a primeira época do pluralismo oligárquico na Ucrânia. Nobres ucranianos participavam como iguais nas instituições representativas da república, mas a vasta maioria da população estava assentada em enormes colônias que produziam grãos para exportação. Senhores da guerra locais contavam com nobres poloneses, bem como judeus, que ajudaram a implementar a ordem feudal no país. Foi nessa era que os judeus ajudaram a criar as pequenas cidades que ficariam conhecidas como shtetls.

Esse sistema político levou à rebelião cossaca de 1648, na qual homens livres que haviam escapado do sistema desafiaram sua lógica. Fatidicamente, eles se aliaram a um estado rival que tinha raízes no antigo Principiado, o Grão-Ducado de Moscou. A cidade de Moscou fizera parte da fronteira oriental do Principiado e, ao contrário da maioria das terras do Principado, permaneceu sob controle direto mongol. Enquanto os territórios que hoje constituem a Bielorrússia e a Ucrânia tiveram contato, via Vilnius e Varsóvia, com o Renascimento e a Reforma, nenhuma dessas tendências chegou a Moscou. Sua deriva do controle mongol é datada convencionalmente em 1480. Os duques de Moscou, como os grão-duques da Lituânia, apresentavam-se como os herdeiros do Principiado. No entanto, eles não passaram a controlar Kiev antes que quase meio milênio transcorresse após a destruição do estado medieval. Na maior parte do tempo, Kiev foi comandada a partir de Vilnius e Varsóvia.

As rebeliões cossacas marcaram o início do declínio da Comunidade Polaco-Lituana, e criaram as condições para a mudança do comando em Kiev da Polônia para Moscou. Em 1667 as terras que hoje formam a Ucrânia foram divididas entre a Comunidade e o Grão-Ducado de Moscou, com Kiev do lado moscovita. Isso permitiu um contato entre Moscou e a Europa, e as elites educadas da universidade de Kiev rumaram para o norte e se tornaram profissionais e oficiais do crescente império. O padrão se repetiu quando a Comunidade deixou de existir e foi dividida entre o Grão-Ducado de Moscou (então já conhecido como Império Russo), Prússia e a Monarquia de Habsburgo no final do século XVIII. O Império Russo, que não tinha qualquer tradição de educação superior, passou a explorar os homens treinados em Vilnius e Kiev.

No século XIX, o movimento nacional ucraniano também seguiu um padrão europeu bem típico. Alguns desses homens educados, leigos e clérigos, começaram a se rebelar contra suas próprias biografias e a apresentar o tema da história não enquanto elites, mas como massas. A tendência começou em Carcóvia, e então se espalhou para Kiev e, através da fronteira russo-habsburga, para Lviv. Historiadores ucranianos do século XIX foram líderes na tendência geral europeia de romantizar o homem comum, tendência conhecida na Ucrânia como populismo. Esse movimento intelectual também permitiu imaginar uma nação comum ucraniana compreendendo áreas do outro lado da fronteira do Império Russo e da Monarquia de Habsburgo (onde um pequeno território conhecido como Galícia Oriental era o berço dos falantes da língua que ficaria conhecida como ucraniana).

Como no resto da Europa Oriental, a Grande Guerra trouxe o fim do império tradicional e tentativas de se estabelecer um estado nacional, seguindo a lógica wilsoniana de autodeterminação. Mas na Ucrânia as tentativas foram múltiplas, uma nas terras habsburgas e uma nas terras do Império Russo. A primeira foi derrotada pelos poloneses, que conseguiram anexar a Galícia Oriental a seu próprio território. A segunda teve que lidar tanto com o Exército Vermelho quanto com seus oponentes Brancos, que, mesmo lutando entre si, concordavam que a Ucrânia devia ser parte de uma unidade política maior. Embora o movimento nacional ucraniano fosse comparável àqueles de outros territórios no leste europeu, e embora mais gente tenha lutado e morrido pela Ucrânia do que pela maior parte das nações-estados emergentes após 1918, o resultado foi um fracasso completo. Após uma série de eventos enormemente complicada, em que Kiev foi ocupada por uma dúzia de exércitos diferentes, o Exército Vermelho saiu vitorioso e a Ucrânia soviética foi estabelecida como parte da nova União Soviética em 1922.

Precisamente porque o movimento ucraniano foi difícil de ser suprimido, e porque a Ucrânia soviética era uma terra da fronteira ocidental da URRS, a questão de sua identidade europeia foi central desde o começo da história soviética. No interior da política soviética havia uma ambiguidade em relação à Europa: a modernização soviética deveria emular a modernidade capitalista europeia, mas apenas para ultrapassá-la. Nesse esquema, a Europa poderia ser tanto progressista quanto reacionária, dependendo do momento, da perspectiva e do humor do líder. Nos anos 1920 a política soviética favoreceu o desenvolvimento de uma classe intelectual e política ucraniana, na crença de que ucranianos esclarecidos se aliariam ao futuro soviético. Nos anos 1930 a política soviética quis modernizar o interior da Ucrânia, coletivizando as terras e transformando camponeses em empregados do estado. Isso levou a uma resistência massiva por parte de um campesinato que acreditava na propriedade privada, e levou a uma produção cada vez menor. Josef Stalin transformou esses fracassos em uma vitória política, ao pôr a culpa nos nacionalistas ucranianos e seus apoiadores estrangeiros. Ele continuou a exigir colheitas na Ucrânia sabendo plenamente que estava esfomeando milhões de seres humanos, e esmagou a intelligentsia ucraniana. Mais de três milhões de pessoas foram mortas através da fome na Ucrânia soviética. A consequência foi uma nova ordem soviética, de intimidação, com a Europa apresentada apenas como uma ameaça. Stalin alegou, absurdamente mas com sucesso, que os ucranianos estavam esfomeando a si próprios sob ordens de Varsóvia. Depois, a propaganda soviética passou a defender que qualquer um que mencionasse a grande fome devia ser um agente da Alemanha nazista. Assim começou a política de fascismo e antifascismo, onde Moscou era o defensor de tudo que havia de bom, e seus críticos eram fascistas. Essa pose retórica bastante eficaz não impediu uma aliança soviética com os verdadeiros nazistas em 1939. Dado o retorno da propaganda russa de hoje em dia para o antifascismo, esse é um importante ponto para se ter em mente: toda a grande moral maniqueísta tinha o objetivo de servir ao estado, e como tal não lhe impunha limites de qualquer natureza. A escolha do antifascismo como uma estratégia é algo bem diferente de se opor a verdadeiros fascistas.

A Ucrânia esteve no centro da política que Stalin chamou de “colonização interna”; ela esteve também no centro dos planos de Hitler para uma colonização externa. Seu Lebensraum era, antes de mais nada, a Ucrânia. O solo fértil deveria ser varrido de elementos soviéticos e explorado para a Alemanha. O plano era continuar a usar as fazendas coletivas de Stalin, mas desviar a comida do leste para o oeste. No percurso, os planejadores alemães esperavam que cerca de 30 milhões de habitantes da Ucrânia soviética morressem de fome. Nesse tipo de pensamento, é claro que ucranianos eram sub-humanos, incapazes de uma vida política normal, úteis apenas para propósitos de colonização. Nenhum país europeu foi sujeito a tão intensa colonização quanto a Ucrânia, e nenhum país europeu sofreu mais: ela foi o lugar mais mortal do planeta entre 1933 e 1945.

Na Alemanha de hoje, os pressupostos coloniais permanecem sem análise. Os alemães são reflexivos sobre os crimes contra judeus e contra a União Soviética (falsamente lembrada como Rússia), mas quase ninguém na Alemanha reconhece que o objetivo central do pensamento colonial alemão era precisamente a Ucrânia. Líderes alemães tão proeminentes quanto Helmut Schmidt não hesitam, mesmo hoje, em excluir os ucranianos dos preceitos normais do direito internacional. A ideia de que ucranianos não são seres humanos normais persiste, agora com o retoque maldoso de que os ucranianos foram os responsáveis pelos crimes na Ucrânia – que foram na verdade políticas alemãs, e jamais teriam ocorrido sem uma guerra alemã e política alemãs de colonização.

Embora o principal objetivo de guerra de Hitler fosse a destruição da União Soviética, ele se viu necessitado de uma aliança com a União Soviética para iniciar um conflito armado. Em 1939, após ficar claro que a Polônia lutaria, Hitler recrutou Stalin para uma dupla invasão. Stalin esperava há anos por um convite do tipo. A política soviética objetivava há anos a destruição da Polônia. Além disso, Stalin acreditava que uma aliança com Hitler, em outras palavras uma cooperação com a extrema-direita europeia, era chave para a destruição da Europa. Uma aliança germano-soviética levaria a Alemanha, ele acreditava, a se voltar contra seus vizinhos ocidentais, e levaria ao enfraquecimento ou mesmo destruição do capitalismo europeu. Isso não é muito diferente de certo cálculo feito por Vladimir Putin hoje, como veremos.

O resultado da invasão cooperativa germano-soviética da Polônia foi a derrota desta e a destruição do estado polonês, mas também um importante desenvolvimento do nacionalismo ucraniano. Nos anos 1930 não havia movimento nacional ucraniano na União Soviética: tal coisa era impossível. Havia, no entanto, um movimento terrorista nos subterrâneos da Polônia conhecido como Organização de Nacionalistas Ucranianos. Ele era nada mais do que uma irritação em tempos normais, mas com a guerra sua importância cresceu. A Organização se opunha ao domínio polonês e soviético do que considerava como territórios ucranianos, e via assim uma invasão alemã do leste como a única maneira em que poderia começar a construção de um estado ucraniano. De forma que a Organização apoiou a Alemanha em sua invasão da Polônia em 1939, e a apoiaria novamente em 1941, quando a Alemanha traiu sua antiga aliada e invadiu a URSS.

Enquanto isso, a ocupação soviética do leste da Polônia entre 1939 e 1941 também favoreceu o nacionalismo ucraniano. As classes superiores polonesas e os líderes dos partidos políticos tradicionais da Ucrânia foram deportados e mortos. Nacionalistas ucranianos, acostumados a uma vida subterrânea, se saíram melhor. Revolucionários ucranianos de extrema-esquerda, bastante numerosos antes da guerra, em vários casos mudaram para a direita radical após experimentarem viver sob domínio soviético. Adicionalmente, os próprios soviéticos assassinaram o líder da Organização, o que levou a uma disputa de poder entre dois jovens, Stepan Bandera e Andrii Melnyk.

Os nacionalistas ucranianos tentaram colaborar politicamente com a Alemanha em 1941, e não conseguiram. Centenas de nacionalistas ucranianos uniram-se à invasão alemã da URSS como batedores e tradutores, e alguns deles ajudaram os alemães a organizarem pogroms. Políticos nacionalistas ucranianos tentaram coletar sua dívida declarando uma Ucrânia independente em 1941. Hitler não tinha qualquer interesse em tal desenvolvimento. Muito da liderança nacionalista foi morta ou encarcerada. O próprio Stepan Bandera passou a maior parte do resto da guerra em Sachsenhausen. Alguns ucranianos continuaram a colaborar, na esperança de ganhar experiência militar ou de algum futuro revés político, quando os alemães poderiam necessitar de sua ajuda. Mas na Ucrânia ocupada, como em toda a Europa, a vasta maioria da colaboração prática teve pouco a ver com política.

Com a continuação da guerra, muitos nacionalistas ucranianos prepararam-se para um momento de revolta quando o poder soviético substituísse o alemão. Eles viam a URSS como o principal inimigo, parcialmente por razões ideológicas, mas principalmente porque ela estava ganhando a guerra. Em Volínia, nacionalistas ucranianos estabeleceram um Exército Ucraniano Insurgente, cuja tarefa era arrumar um jeito de derrotar os soviéticos após estes derrotarem os alemães. No processo, empreenderam uma massiva e assassina limpeza étnica de poloneses em 1943, matando ao mesmo tempo um número de judeus que estavam escondidos entre os poloneses. Isso não era de forma alguma colaboração com os alemães, mas uma parte mortal do que seus líderes viam como uma revolução nacional. Os nacionalistas ucranianos lutaram então contra os soviéticos em uma terrível guerra de guerrilhas, na qual as mais brutais táticas foram usadas pelos dois lados. Foi Khruschev quem ordenou que os soviéticos excedessem os nacionalistas em brutalidade, para intimidar a população local.

A colaboração política e o levante de nacionalistas ucranianos foram, no final das contas, um elemento menor na história da ocupação alemã. Como resultado da guerra, algo como seis milhões de pessoas foram mortas no território ucraniano atual, incluindo 1,5 milhão de judeus. Os alemães desenvolveram as técnicas de assassinato em massa em Kamianets-Podilskyi e Babyi Iar, onde mais de 20 mil, e depois mais de 30 mil, judeus foram mortos por fuzilamento em massa. Por toda a Ucrânia soviética ocupada, houve colaboração com os alemães, como houve na União Soviética ocupada e mesmo na Europa ocupada.

Mas muito, muito mais gente na Ucrânia foi morta pelos alemães do que colaborou com eles, o que não pode ser dito de qualquer país ocupado na Europa Ocidental. Por falar nisso, muito, muito mais gente na Ucrânia lutou contra os alemães do que ao lado dos alemães, o que, novamente, não pode ser dito de qualquer país da Europa Ocidental. A vasta maioria dos ucranianos que lutou na guerra, o fez no uniforme do Exército Vermelho. Mais ucranianos foram mortos lutando contra a Wehrmacht do que soldados americanos, britânicos e franceses – somados. Na Alemanha esses fatos básicos são invisíveis porque o Exército Vermelho é falsamente visto como um exército russo, uma identificação em que a propaganda da Rússia atual insiste. Se o Exército Vermelho é um exército russo, então os ucranianos devem ter sido inimigos. Essa linha de pensamento foi inventada pelo próprio Stalin ao final da guerra. A ideia da Grande Guerra Patriótica teve três propósitos: ela viu o início da ação em 1941, ao invés de 1939, de modo que a aliança nazi-soviética fosse esquecida; colocou a Rússia no centro dos eventos, embora a Ucrânia tenha estado muito mais no centro da guerra; e ignorou completamente o sofrimento judaico.

É a propaganda do pós-guerra, muito mais que a experiência da guerra, que conta na memória política de hoje. Ninguém atualmente no poder lembra da Segunda Guerra Mundial, embora alguns líderes russos pareçam acreditar na versão que foram ensinados quando crianças. A liderança política da Rússia atual é filha dos anos 1970, portanto do culto brezhneviano da guerra. A Grande Guerra Patriótica se tornou mais simplesmente russa, sem ucranianos e judeus. Os judeus sofreram mais que qualquer outro povo soviético, mas o Holocausto enquanto tal não teve lugar na história soviética. Ele aparecia principalmente em propaganda dirigida ao Ocidente, na qual o sofrimento de judeus era tido como inteiramente culpa de ucranianos e outros nacionalistas – povos que viviam nos territórios que Stalin havia conquistado durante a guerra enquanto era aliado de Hitler em 1939, e povos que haviam resistido ao poder soviético quando ele reapareceu em 1945. Essa é uma tradição à qual os propagandistas russos retornaram na atual crise da ucraniana: indiferença total ao Holocausto, exceto como fonte política útil para se manipular pessoas no Ocidente.

Nos anos 1970, a própria União Soviética foi russificada, de um jeito especial. Traçou-se a conclusão ideológica de que existem classes dentro da própria União Soviética e não entre nações individuais. Assim a URSS precisava apenas de uma classe pensante, e não múltiplas classes pensantes nacionais. Como resultado, a língua ucraniana foi excluída das escolas, e especialmente da educação superior. Ela permaneceu como uma língua da baixa cultura e, paradoxalmente, da altíssima cultura, já que mesmo nesse ponto ninguém na URSS negava a existência de uma distinta tradição ucraniana nas artes e humanidades. Nessa atmosfera, patriotas ucranianos, e mesmo nacionalistas ucranianos, abraçaram uma compreensão cívica da identidade ucraniana. Eles tiveram a ajuda de intelectuais poloneses emigrados, que, nos anos 1970 e 1980, estavam definindo uma futura política externa para o período pós-comunismo.

Esses pensadores, agrupados em torno de Jerzy Giedroyc e da revista Kultura, de Paris, defendiam que a Ucrânia era uma nação no mesmo sentido em que a Polônia era uma nação, e que uma futura Polônia independente deveria reconhecer uma futura Ucrânia independente – sem contestar suas fronteiras. Isso foi controverso à época, porque a Polônia perdera as terras agora conhecidas como Ucrânia ocidental como um resultado da guerra. Em retrospecto, a política traçada por aqueles pensadores foi uma primeira etapa, tanto para a Ucrânia quanto para a Polônia, rumo às normas legais e intuitivas da Europa pós-guerra. O reconhecimento preferencial da Ucrânia dentro de suas fronteiras existentes se tornou a base para uma política externa polonesa de “padrões europeus” em 1989. No período crucial entre 1989 e 1991, e pela primeira vez na história, os ativistas nacionais ucranianos tinham apenas um oponente: a União Soviética. Em dezembro de 1991, mais de 90 por cento dos habitantes da Ucrânia soviética votaram pela independência (incluindo uma maioria em todas as regiões da Ucrânia).

Rússia e Ucrânia tomaram então rumos separados. Privatização e ausência de estado de direito levaram os dois países à oligarquia. Na Rússia, os oligarcas eram controlados por um estado centralizado, enquanto que na Ucrânia eles criaram sua forma particular de pluralismo. Até bem recentemente, todos os presidentes da Ucrânia oscilaram entre Oriente e Ocidente na política externa, e entre clãs oligárquicos em suas lealdades domésticas. O que foi incomum em Viktor Yanukovych é que ele tentou acabar todo o pluralismo, não apenas do tipo popular, mas do tipo oligárquico também. Na política doméstica, ele gerou uma falsa democracia, em que seu oponente favorecido era o partido de extrema-direita Svoboda. Ao fazê-lo, ele criou uma situação em que poderia vencer eleições e dizer a observadores internacionais que ele era pelo menos melhor que a alternativa nacionalista. Na política externa, ele viu-se empurrado para a Rússia de Vladimir Putin, nem tanto porque assim o desejasse, mas porque o jeito com que ele comandava o país tornava difícil uma substancial colaboração com a União Europeia. Yanukovych parece ter roubado tanto dos cofres do estado que o próprio estado estava a ponto de falir em 2013, o que também o deixou vulnerável à Rússia.

Ficar oscilando entre a Rússia e o Ocidente não era mais possível. Em 2013, entretanto, Moscou não representava mais apenas um estado russo com interesses mais ou menos calculados, mas um projeto muito mais amplo de integração eurasiana. O projeto eurasiano tinha duas partes: a criação de um bloco de livre comércio entre Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão; e a destruição da União Europeia através do apoio à extrema-direita do continente. O conservadorismo social imperial proveu a cobertura ideológica para um objetivo eminentemente simples. O regime de Putin depende da venda de hidrocarbonetos que são canalizados para a Europa. Uma Europa unida poderia gerar uma política energética, sob a pressão da imprevisibilidade russa, do aquecimento global, ou ambos. Mas uma Europa desintegrada permaneceria dependente de hidrocarbonetos russos. Nações-estados individuais seriam mais maleáveis que uma União Europeia. Durante o ano de 2013, a mídia próxima ao Kremlin retornou obsessivamente ao tema da decadência europeia, usualmente expressa em termos sexuais. Mas a decadência da Europa é, nem tanto a realidade percebida pelo regime de Putin, quanto o objetivo de sua política.

Tão logo essas grandiosas ambições foram formuladas, a orgulhosa postura eurasiana chocou-se com a realidade da sociedade ucraniana. No final de 2013 e início de 2014, a tentativa de trazer a Ucrânia para a órbita europeia produziu o efeito contrário. Primeiramente, a Rússia publicamente dissuadiu Yanukovych de assinar um acordo de livre comércio com a UE. Isso levou a protestos na Ucrânia. Então a Rússia ofereceu um largo empréstimo e preços de gás favoráveis, em troca pelo esmagamento dos protestos. Leis ao estilo russo introduzidas em janeiro transformaram os protestos em um movimento de massas. Milhões de pessoas que haviam se juntado a protestos pacíficos foram repentinamente transformadas em criminosas, e algumas começaram a se defender da polícia. Finalmente, a Rússia deixou claro, tanto privada quanto publicamente, que Yahukovych tinha que limpar Kiev de manifestantes para poder receber dinheiro. Seguiu-se o massacre com balas letais de fevereiro, que deu aos revolucionários uma clara vitória moral e política, e forçou Yanukovych a fugir para a Rússia. A União Eurasiana só poderia ser um clube de ditadores, mas a tentativa de criar uma ditadura na Ucrânia levou a um resultado oposto ao esperado: o retorno ao poder parlamentar, anúncio de eleições presidenciais e uma política externa orientada para a Europa. Nada disso teria acontecido sem a auto-organização espontânea de milhões de ucranianos na praça Maidan em Kiev e por todo o país.

Isso fez da revolução na Ucrânia não só um desastre para a política externa russa, mas um desafio interno para o regime russo. A fraqueza da política de Putin é que ela não leva em conta as ações de seres humanos livres que escolhem organizar-se em resposta a eventos históricos imprevisíveis. A força da política de Putin é sua agilidade tática e descaramento ideológico. Assim, a Eurásia foi rapidamente modificada: ela não era mais um clube de ditadores e uma tentativa para destruir a UE, mas uma tentativa de desestabilizar o estado ucraniano e a UE ao mesmo tempo. A propaganda russa apresentou a revolução ucraniana como um golpe nazista, e culpou os europeus por apoiarem esses supostos nazistas. Essa versão, embora ridícula, era muito mais confortável no mundo mental de Putin, já que ela removia de vista o fracasso da política externa russa na Ucrânia, e substituía a ação espontânea de ucranianos por conspirações externas.

A invasão e ocupação russa da província ucraniana da Crimeia foi um desafio frontal para a ordem de segurança europeia, bem como para o estado ucraniano. Ela criou a tentação para alemães e outros retornarem ao tradicional mundo do pensamento colonial, ignorando décadas de direito e vendo os ucranianos como indignos de terem um estado. A anexação russa foi executada, reveladoramente, com a ajuda dos extremistas aliados de Putin na Europa. Nenhuma organização respeitável aceitaria observar a farsa eleitoral em que 97 por cento dos habitantes da Crimeia supostamente votaram para serem anexados. Mas uma delegação improvisada composta de populistas de extrema-direita, neonazistas e membros do partido alemão Die Linke ficou feliz em comparecer e endossar os resultados. A delegação alemã na Crimeia era composta de quatro membros do Die Linke e um membro do Neue Rechte. Essa é uma combinação que diz muito.

O Die Linke opera dentro de uma certa realidade virtual criada pela propaganda russa, na qual a tarefa da esquerda europeia é agora, da perspectiva de Moscou, criticar a direita ucraniana – mas não a direita europeia, e certamente não a direita russa. Agora, é verdade que existe alguma base para tal crítica. A Ucrânia realmente possui uma extrema-direita, e seus membros têm alguma influência. Svoboda, que era a oposição doméstica de Yanukovych, liberou-se desse papel durante a revolução. No atual governo ucraniano, ele possui quatro de 20 pastas. Isso exagera tanto seu apoio eleitoral, que é cerca de 3 por cento, quanto sua representação no parlamento. Algumas das pessoas que lutaram contra a polícia durante a revolução, embora de forma alguma a maioria, eram de um novo grupo chamado Setor Direita, que possui alguns membros radicalmente nacionalistas. Nas pesquisas de intenção de voto, seu candidato a presidente tem menos de 2 por cento, e o próprio grupo totaliza uns 300 membros. Existe apoio à extrema-direita na Ucrânia, embora menos do que na maior parte dos membros da União Europeia.

Uma situação revolucionária favorece extremistas, e é sempre bom prestar atenção. No entanto, causa espécie que Kiev e a Ucrânia tenham voltado à normalidade imediatamente após a revolução, e que o novo governo tenha adotado uma quase inacreditável calma frente à invasão russa. O único cenário em que os extremistas ucranianos realmente tomem a dianteira é um em que a Rússia tente invadir o resto do país. Se as eleições presidenciais ocorrerem conforme previstas, em maio, então a baixa popularidade e a fraqueza da extrema-direita ucraniana serão reveladas. É por isso que Moscou se opõe a essas eleições.

Aqueles que criticam apenas a direita ucraniana frequentemente falham em observar duas coisas muito importantes. A primeira é que a revolução na Ucrânia veio da esquerda. Seu inimigo era um cleptocrata autoritário, e seu programa central era justiça social e estado de direito. Ela foi iniciada por um jornalista de ascendência afegã, suas duas primeiras baixas mortais foram um armênio e um bielorrusso, e tinha o apoio da comunidade muçulmana tártara da Crimeia, bem como de muitos judeus ucranianos. Um veterano judeu do Exército Vermelho esteve entre os mortos no massacre de fevereiro. Vários veteranos das Forças de Defesa israelenses voltaram de Israel para a Ucrânia para lutar por liberdade.

O Maidan funcionava simultaneamente em duas línguas, ucraniano e russo, porque Kiev é uma cidade bilíngue, a Ucrânia é um país bilíngue e os ucranianos são um povo bilíngue. De fato, o motor da revolução foi a classe média russo-falante de Kiev. O atual governo é inconscientemente multiétnico e multilíngue. A Ucrânia é um lugar cosmopolita onde considerações de língua e etnia contam bem menos do que costumamos pensar. De fato, a Ucrânia é agora a base para a maior e mais importante mídia livre em língua russa, já que todos os veículos mais importantes do país aparecem em russo, e prevalece a liberdade de expressão. A ideia de Putin em defender os falantes de russo na Ucrânia é absurda em muitos níveis, mas um deles é o seguinte: as pessoas podem dizer em russo o que elas quiserem na Ucrânia, mas não podem fazer o mesmo na Rússia.

Essa é a segunda coisa importante que se falha em perceber. A extrema-direita autoritária na Rússia é infinitamente mais perigosa do que a extrema-direita autoritária na Ucrânia. Se não fosse por outra, porque ela está no poder. Outra: ela não possui rivais significativos. Nem precisa acomodar-se a expectativas internacionais. E está atualmente levando a cabo uma política externa abertamente baseada na etnicização do mundo. Não importa quem um indivíduo seja de acordo com o direito ou suas próprias preferências: o fato dele falar russo o torna automaticamente um Volksgenosse que precisa da proteção russa, o que significa invasão. O parlamento russo já garantiu a Putin a autoridade para invadir a totalidade da Ucrânia e transformar sua estrutura social e política, o que é um objetivo extraordinariamente radical. Ele também enviou uma missiva ao ministro do exterior polonês propondo uma partição da Ucrânia. Na televisão popular russa os judeus são culpabilizados pelo Holocausto; no maior jornal, Izvestiia, Hitler é reabilitado como um estadista razoável que teve que responder a uma irracional pressão ocidental. As manifestações pró-guerra apoiando a invasão da Ucrânia são compostas de pessoas vestidas em uniformes monocromáticos e marcham em formação. A intervenção russa no leste ucraniano envolve gerar violência étnica, não suprimi-la. O home que levantou a bandeira russa em Donetsk era um membro de um partido neonazista.

Tudo isso é consistente com a premissa ideológica fundamental da Eurásia. Enquanto que a integração europeia parte da premissa de que o nacional-socialismo e o stalinismo são exemplos negativos, a integração eurasiana parte da premissa mais exausta e pós-moderna de que a história é um tipo de caixa de surpresas de ideias úteis. Enquanto que a integração europeia presume democracia liberal, a ideologia eurasiana explicitamente a rejeita. O principal ideólogo eurasiano, Alexander Dugin, que já clamou por um fascismo “vermelho como o nosso sangue”, recebe atualmente mais atenção do que nunca. Suas três ideias políticas básicas – a necessidade de se colonizar a Ucrânia, a decadência da União Europeia e o desejo de uma alternativa eurasiana de Lisboa a Vladivostok – são agora enunciadas oficialmente (de um jeito mais brando, é verdade) como a política externa russa. O presidente Putin apresenta a Rússia como uma terra sob cerco, terra não da revolução, como os comunistas diziam, mas da contrarrevolução. Ele retrata a Rússia como uma civilização especial que deve ser defendida a qualquer preço, muito embora o país na verdade projete poder na Europa e no mundo, através de um conjunto genérico de mantras reacionários e sua posse acidental de hidrocarbonetos.

Mais do que qualquer outra coisa, o que une a liderança russa à extrema-direita europeia é uma certa desonestidade básica, uma mentira tão fundamental e auto-enganadora que tem o poder de destruir uma inteira ordem pacífica. Mesmo enquanto os líderes russos escarnecem uma Europa que eles apresentam como um clube gay, a elite russa depende da União Europeia em todo nível. Sem a previsibilidade, o direito e a cultura europeias, os russos não teriam onde lavar seu dinheiro, estabelecer suas empresas de fachada, enviar seus filhos para estudar, ou onde passar as férias. A Europa é tanto a base do sistema russo e sua válvula de escape. Igualmente, o eleitor médio de Strache ou Le Pen acha inteiramente normal contar com elementos de paz e prosperidade que só foram conseguidos como resultado da integração europeia. O exemplo arquetípico é a possibilidade, no dia 25 de maio, de aproveitar as eleições democráticas livres e justas para o parlamento europeu para votar em pessoas que alegam se opor à existência do parlamento europeu.

Como Putin, Strache e Le Pen propõem uma óbvia contradição: todos os benefícios da paz e prosperidade europeia de alguma forma continuarão, embora os europeus retornem para alguma forma de estado nacional. Mas essa, claro, é uma utopia tão estúpida quanto sem cor. Não existe um estado-nação para onde possamos voltar. As únicas alternativas em um mundo globalizado são as várias formas de interação. Para países como França ou Áustria – ou Grécia, Bulgária e Hungria – a rejeição da União Europeia é a adesão à Eurásia. Essa é a simples realidade objetiva: uma Europa unida pode, e provavelmente irá, responder adequadamente a um agressivo petroestado russo, enquanto que um conjunto de estados-nações cheios de rixa, não. Os líderes dos partidos de direita europeus nem tentam mais esconder que sua fuga de Bruxelas os levará para os braços de Putin. Membros de seus partidos vão para a Crimeia e elogiam a farsa eleitoral como um modelo para a Europa. Sua lealdade, em quase todo caso, é para com Putin, ao invés de para com o suposto governo de extrema-direita da Ucrânia. Mesmo os líderes do UKIP agora compartilham com milhões de telespectadores britânicos, em um debate televisivo, a propaganda de Putin sobre a Ucrânia.

As eleições presidenciais na Ucrânia devem ocorrer em 25 de maio, não coincidentemente também o dia das eleições para o parlamento europeu. A atual intervenção russa no leste da Ucrânia tem o objetivo de prevenir que essas eleições ocorram. Nas próximas semanas, a Eurásia significará a colaboração entre o Kremlin e a extrema-direita europeia, com a Rússia tentando prevenir as eleições ucranianas de acontecerem e os nacionalistas europeus tentando vencer as eleições europeias. Um voto para Strache ou Le Pen, ou mesmo Farage, é agora um voto para Putin, uma derrota para a Europa e uma vitória para a Eurásia. O retorno ao estado-nação é impossível, então a integração vai continuar de um jeito ou de outro – tudo que pode ser decidido é a forma. Políticos e intelectuais costumavam dizer que não havia alternativa para o projeto europeu, mas agora há: Eurásia.

A Ucrânia não tem futuro sem a Europa, mas a Europa também não tem futuro sem a Ucrânia. Ao longo dos séculos, a história da Ucrânia tem revelado os pontos de mudança na história europeia. Isso ainda parece ser verdade hoje em dia. Claro, o caminho que os eventos tomarão ainda depende, pelo menos pelas próximas seis semanas, dos europeus.

* Timothy Snyder é professor de História em Yale e autor de
Terras de sangue: A Europa entre Hitler e Stalin. [tradução: Daniel Lopes]

Amálgama

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