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O ponto alto do mês passado foi o lançamento, por Maduro, das Milícias de Trabalhadores

Rodrigo Linares, no Caracas Chronicles / 3 de abril

- Caracas, 3 de abril de 2014. Gangues bolivarianas, escoltadas por forças de segurança, invadiram a Universidade Central da Venezuela e espancaram estudantes -

– Caracas, 3 de abril. Gangues bolivarianas, escoltadas por forças de segurança, invadiram a Universidade Central da Venezuela e espancaram estudantes (foto:El Universal) –

O governo venezuelano tem martelado com insistência a ideia de que quer a paz. Não duvido. Mas é um tipo bem particular de paz. É paz pela dominação. É a paz que vem depois da guerra. É a subjugação dos oponentes.

Recapitulemos a “ofensiva de paz” do último mês. Uma série de conferências de paz foi lançada em cadena nacional de transmissão simultânea, começando pelas Conferências de Paz Econômica (sem brincadeira).

Naquela ocasião, a maior parte do tempo de televisão foi para Maduro, embora ele tenha permitido breves discursos de Lorenzo Mendonza (CEO da Polar) e Jorge Roig (presidente da Fedecamaras, o maior grupo de empresários da Venezuela). No que isso resultou? Em mais encontros. No que mais? Bem, Mendoza recebeu parte do que o governo lhe devia. Relaxamento dos controles de conversão monetária (ainda pairam algumas dúvidas)… e foi só.

Mas essas foram realmente consequências do encontro? Em outras palavras, elas não teriam ocorrido se não fosse através dos encontros? Ou as medidas foram meramente coisas que o governo já tinha a intenção de implementar para lidar com as prateleiras vazias, resolver um problema de balanço de pagamentos e, por que não, conseguir algum capital político?

As conversas então caíram na estrada, indo para praticamente todo o país. O cenário é sempre o mesmo. Algum representante do governo grita, geralmente Arreaza em um show de palco, mas ninguém realmente lhe responde. Nenhuma das partes interessadas está presente.

Então veio a Unasul. Uma delegação composta de ministros do exterior, embaixadores e burocratas menores. Eles vieram, permaneceram por longíssimas 48 horas e então foram embora. Encontraram-se uma vez com o secretário-geral da MUD, Ramón Guillermo Aveledo. Prometeram soltar um relatório (não prenda o fôlego para esperar) e disseram estar satisfeitos com o que viram. Esse é um código para “Maduro é um filho da mãe, mas é nosso filho da mãe.”

Enquanto toda essa conversa sobre “paz” e “diálogo” ocorria, a contagem de mortos continuou crescendo. O número de detidos continuou crescendo. Dois prefeitos da oposição foram presos sob acusações que podem ser resumidas em “não fazer o suficiente para combater as manifestações”, a despeito do fato de, constitucionalmente, essa não ser uma responsabilidade das autoridades municipais. A congressista opositora Maria Corina Machado tentou apresentar o caso venezuelano para a OEA, mas não conseguiu. Ela foi recebida de volta com a notícia de que não faria mais parte do congresso, já que Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, decidiu que não a queria mais por lá. Como ele na verdade não pode fazer isso, uma corte de mentirinha tomou conta da papelada em um julgamento a portas fechadas, no qual a acusada não estava presente para se defender. Sem surpresa, ela acabou sendo condenada.

Há poucas noites atrás, um punhado de garotos acampando na lateral da avenida Francisco de Miranda foi brutalmente reprimido, e 13 deles foram detidos. Posso assegurar pessoalmente que não houve qualquer provocação por parte dos garotos. Algumas horas antes, a concentração de Maria Corina Machado na praça Brión foi bombardeada com gás lacrimogêneo – novamente, não havia ocorrido qualquer ato de agressão contra as autoridades. Muitas outras manifestações pacíficas ocorreram, e todas foram reprimidas com gás lacrimogêneo, veículos blindados e força bruta.

A cereja no topo do bolo foi a maneira como Maduro, no mesmo discurso em que falou de paz, articulou o lançamento de suas Milícias de Trabalhadores.

A classe trabalhadora será ainda mais respeitada. Ela será ainda mais respeitada se as milícias de trabalhadores tiverem trezentos mil, quinhentos mil ou dois milhões de trabalhadores em uniforme, armados [e] preparados para a defesa da pátria.

Para os que estão dispostos ao diálogo, quem seria a contraparte apropriada? Aveledo? Corina Machado?

A oposição está cada vez mais varrida por intrigas. Leopoldo López colocou como pré-condições algumas exigências irrealistas. O partido Primero Justicia fez declarações de apoio a Machado, mas não mostrou as caras na Assembleia Nacional, na praça Brión ou no Ministério Público.

Talvez seja um problema de semântica.

Diálogo, para nós, significa ter uma troca de ideias e formar um consenso. Mas não é isso que o governo quer. Em sua mentalidade militarista, o que ele almeja é dominação. O governo quer uma paz construída em cima de uma rendição incondicional.

Amálgama

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