PESQUISA

Que o passado desmorone na hora certa!

por Amálgama (22/04/2014)

Infelizmente, o que ocorreu em semanas recentes na Ucrânia não ocorreu na Rússia em 1991

Vladímir Sorókin, na New York Review of Books / ed. 8 de maio
(Sorókin, escritor e ativista russo, foi confirmado hoje como uma das
presenças na Festa Literária Internacional de Paraty 2014, onde ele
lançará o romance “Dostoiévski-trip” pela Editora 34.)

- Manifestação pró-Rússia em Donetsky, 15 de março de 2014 -

– Manifestação pró-Rússia em Donetsk, 15 de março de 2014 –

No curso de três dias em agosto de 1991, durante o fracassado putsch contra Gorbachev, o decadente império soviético vacilou e começou a desmoronar. Eu e alguns amigos nos encontrávamos na Praça Lubianskaya, do outro lado dos quarteis generais da temida e poderosa KGB. Uma enorme massa de pessoas estava se preparando para derrubar o símbolo daquela sinistra instituição – a estátua de seu fundador, Dzerjinsky, a “Felix de Aço”, como seus companheiros de arma bolcheviques o chamavam. Uns poucos atrevidos haviam escalado o monumento e amarrado cabos em seu pescoço, que eram puxados por um grupo, enquanto a multidão reunida gritava e chorava.

Repentinamente, um partidário de Yeltsin apareceu do nada com um megafone e pediu a todo mundo para que se contivessem, porque, ele disse, quando a estátua de bronze caísse, “sua cabeça poderia perfurar o pavimento e causar danos em importantes comunicações subterrâneas”. O homem disse que um guindaste já estava a caminho para remover Dzerjinsky do pedestal sem quaisquer danos colaterais. A massa revolucionária esperou por esse guindaste por umas boas duas horas, mantendo seu espírito animado sob gritos de “Abaixo a KGB!”.

As dúvidas sobre o sucesso da revolução antissoviética me assaltaram pela primeira vez durante aquelas duas horas. Tentei imaginar a massa parisiense, em 16 de maio de 1871, esperando educadamente para que um arquiteto e trabalhadores removessem a Coluna Vendôme. E ri. O guindaste finalmente chegou; Dzerjinsky veio abaixo, foi colocado num caminhão e levado embora. As pessoas acompanhavam ao lado e cuspiam nele. Desde então, ele tem ficado em exibição num parque de monumentos soviéticos desmontados próximo à Nova Galeria Tretyakov. Pouco tempo atrás, um membro da Duma apresentou uma resolução para que o monumento fosse devolvido a seu antigo local. Dado os eventos atualmente ocorrendo em nosso país, é bem provável que esse símbolo do terror bolchevique retorne à Praça Lubianskaya.

O rápido desmonte de remanescentes monumentos soviéticos que ocorreu recentemente na Ucrânia me lembrou do episódio com Dzerjinsky. Dezenas de estátuas de Lenin caíram em cidades ucranianas; ninguém na oposição pediu ao povo para tratá-las “de forma civilizada”, porque nesse caso um desmonte “educado” só poderia significar uma coisa – conservar um símbolo potente do poder soviético. “Dzhugashvili [Stalin] está lá, preservado em um vaso”, como o poeta Joseph Brodsky escreveu em 1968. Esse vaso é a memória popular, seu inconsciente coletivo.

Em 2014, Lenins foram derrubados na Ucrânia e deixou-se que desmoronassem. Ninguém tentou lhes preservar. Essa “queda de Lenin” ocorreu durante um embate brutal na Maidan Nezelezhnosti (Praça da Independência) em Kiev, quando o poder de Viktor Yanukovych também desmoronou, mostrando que uma genuína revolução antissoviética finalmente ocorreu na Ucrânia. Nenhuma revolução verdadeira ocorreu na Rússia. Lenin, Stalin e seus partidários sanguinolentos ainda repousam na Praça Vermelha, e centenas de estátuas ainda estão de pé, não apenas nas praças da Rússia, mas na mente de seus cidadãos.

A fúria da resposta de nossos políticos e burocratas à destruição em massa de ídolos soviéticos na Ucrânia é reveladora. Você poderia se perguntar, “Por que se lamentar por símbolos do passado?”. Mas os burocratas russos sabem que seu amado Homo sovieticus desmoronou junto com Lenin. “Estão destruindo os monumentos a Lenin porque ele personifica a Rússia!”, exclamou um político. Sim: a Rússia Soviética e a URSS, o império impiedoso, construído por Stalin, que escravizou povos inteiros, criou uma grande fome devastadora na Ucrânia e levou a cabo expurgos e repressões em massa. A recente revolução ucraniana foi de fato direcionada contra os herdeiros daquele império – Putin e Yanukovych. Diz muito o fato de as manifestações pró-russas na Crimeia e em partes orientais da Ucrânia invariavelmente ocorrerem próximas a estátuas de Lenin.

Infelizmente, o que ocorreu em semanas recentes na Ucrânia não ocorreu na Rússia em 1991. A revolução de Yeltsin acabou sendo “de veludo”: ela não enterrou o passado soviético e não julgou seus crimes, como ocorreu na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. Todos aqueles funcionários do Partido que instantaneamente se tornaram “democratas” simplesmente socaram o cadáver soviético num canto e o cobriram com serragem. “Ele apodrecerá por si só!”, disseram.

Desgraçadamente, ele não apodreceu. Em recentes pesquisas de opinião, quase metade dos entrevistados consideram que Stalin foi um “bom líder”. Na nova interpretação da história, Stalin é visto como um “administrador eficiente”, e os expurgos são caracterizados como um rodízio de quadros necessário para a modernização da URSS. A União Soviética pode ter desmoronado geográfica e economicamente, mas ideologicamente ela sobrevive nos corações de milhões de Homo sovieticus. A mentalidade soviética no final das contas se mostrou tenaz; ela se adaptou ao capitalismo selvagem dos anos 1990 e começou a se mutar no estado pós-soviético. A tenacidade foi o que preservou um sistema piramidal de poder que regride no tempo até Ivan, o Terrível e que foi fortalecida por Stalin.

Yeltsin, que estava exausto após chegar ao topo da pirâmide, deixou a estrutura completamente intacta, mas trouxe consigo um herdeiro, Putin, que imediatamente informou à população que ele via o colapso da URSS como uma catástrofe geopolítica. Ele também citou o conservador Alexandre III, que acreditava que a Rússia tinha apenas dois aliados: o exército e a marinha. A máquina do estado russo se moveu para trás, adentrou o passado, se tornou mais e mais soviética a cada ano.

Em minha opinião, essa viagem de quinze anos de volta para a URSS, sob a liderança de um ex-tenente-coronel da KGB, mostrou ao mundo, mais do que qualquer “grande e terrível” Putin, a natureza viciosa e os suportes arcaicos da estrutura de “poder vertical” do estado russo. Com uma estrutura monárquica dessas, o país automaticamente se torna refém das peculiaridades psicossomáticas de seu líder. Todos os seus medos, paixões, fraquezas e complexos se tornam políticas de estado. Se ele é paranoico, o país inteiro deve temer inimigos e espiões; se tem insônia, todos os ministros devem trabalhar à noite; se é abstêmio, todos devem deixar de beber; se é bêbado, todos devem tomar uma; se não gosta dos Estados Unidos, país que sua amada KGB combateu, toda a população deve desgostar dos Estados Unidos. Um país assim não pode ter um futuro previsível e estável; desenvolvimento gradual é algo extraordinariamente difícil.

A imprevisibilidade sempre foi o cartão de visitas da Rússia, mas desde os eventos ucranianos ela subiu a níveis sem precedentes: ninguém sabe o que acontecerá a nosso país em um mês, uma semana, ou depois de amanhã. Acho que nem Putin sabe; ele é agora um refém de sua própria estratégia de atuar para o Ocidente como um “cara mau”. A roleta da imprevisibilidade foi girada; as regras do jogo foram acertadas. O trunfo da primeira década de Putin foi a estabilidade, da qual ele se utilizou para destruir a oposição e mandá-la para a clandestinidade. Agora ele está jogando com a imprevisível Dama de Espadas. Essa carta bate qualquer ás.

A frase “Rússia nas sombras”, como H.G. Wells intitulou seu livro sobre a Rússia bolchevique, tem estado na mente de muitos cidadãos russos ultimamente. Escuta-se agora o tempo todo coisas como “O chão tremeu sob nós!”. O gigante iceberg Rússia, congelado pelo regime de Putin, rachado após os eventos na Crimeia, se separou do mundo europeu e partiu para navegar o desconhecido. Ninguém sabe o que acontecerá ao país agora, para quais mares ou pântanos ele se arrastará. Em tempos como estes, é melhor confiar na intuição do que no bom senso. Meus compatriotas mais perspicazes sentem que, quando a Rússia tomou a Crimeia da Ucrânia, ela mordeu um pedaço maior do que pode mastigar ou digerir. Os dentes do estado já não são o que costumavam ser, e, por falar nisso, seu estômago já não funciona como uma vez funcionou.

Se você comparar o urso pós-soviético ao urso soviético, a única coisa que eles têm em comum é o rugido. Entretanto, o urso pós-soviético está fervilhando de parasitas corruptos que o infectaram nos anos 1990 e se multiplicaram exponencialmente na última década. Eles estão consumindo o urso de dentro para fora. Alguns podem confundir o movimento febril desses parasitas com o trabalho de músculos poderosos. Mas, na verdade, isso é uma ilusão. Não existem músculos, os dentes do urso estão desgastados, e seu cérebro está esbofeteado por impulsos neurológicos contraditórios: “Enriqueça!”, “Modernize!”, “Roube!”, “Reze!”, “Construa a Grande Mãe Rússia!”, “Ressuscite da URSS!”, “Cuidado com o Ocidente!”, “Invista em bens no Ocidente!”, “Mantenha suas dividas em dólares e euros!”, “Férias em Couchevel!”, “Seja patriótico!”, “Procure e destrua os inimigos internos!”.

Sobre o assunto inimigos internos… Em seu discurso sobre a ascensão da Crimeia à Rússia, o presidente Putin mencionou uma “quinta coluna” e “traidores nacionais”, que supostamente estão prevenindo a Rússia de marchar adiante vitoriosamente. Como muitos já observaram, a expressão “traidor nacional” vem do Mein Kampf. Essas palavras, ditas pelo chefe de estado, causaram um grande alarme em muitos cidadãos russos. A intelligentsia ficou em choque. A intelligentsia russa, deve-se dizer, está especialmente alarmada. Enquanto o povo grita “A Crimeia é nossa!” em manifestações do governo, nossa intelligentsia leva adiante suas usuais conversas derrotistas: “Haverá expurgos, como em 1937”, “Ele não vai parar na Ucrânia”, “Parece que é hora de deixar o país”, “Não dá mais pra assistir tevê – tudo que aparece é propaganda”, “O Ocidente nos dará as costas”, “A Rússia será um pária”, “Tudo isso está me deixando realmente deprimido”, “Samizdat e clandestinidade estarão de volta”.

Confesso que conversas desse tipo me deixam mais enojados do que a anexação da Crimeia. Quero dizer a meus colegas intelligenty: “Amigos, nos últimos quinze anos o camarada Putin se tornou o que é hoje apenas devido à nossa fraqueza.”

A Ucrânia ensinou a Rússia uma lição sobre amar a liberdade e se recusar a tolerar um regime baixo e ladrão. A Ucrânia encontrou forças para romper com o iceberg pós-soviético e rumar em direção à Europa. Maidan – Praça da Independência – mostrou ao mundo o que um povo pode conseguir quando realmente deseja algo. Mas quando eu assisti ao que ocorria em Kiev, não conseguia imaginar nada similar na Moscou de hoje. É difícil imaginar moscovitas lutando contras as forças especiais OMON dia e noite na Praça Vermelha, e enfrentando as balas de atiradores de elite com escudos de madeira. Para que isso ocorra, algo deve mudar não apenas no ambiente externo, mas na cabeça das pessoas. Algo assim acontecerá?

Não deveríamos ter esperado pelo guindaste chegar à Praça Lubianskaya em agosto de 1991. Deveríamos ter derrubado o ídolo de ferro mesmo se sua cabeça perfurasse o pavimento e danificasse “importantes comunicações subterrâneas”.

Hoje viveríamos em um país diferente.

Como é importante, fica provado, deixar o passado desmoronar na hora certa…

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.