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O Brasil tem jeito? Talvez

por Bolívar Lamounier (29/04/2016)

O desafio é refazer drasticamente a classe política.

Michel Temer, Dilma Rousseff e Lula

No curto prazo, é claro que o Brasil tem jeito. O primeiro passo é afastar a atual presidente; o segundo, cuidar para que Lula não faça outro estrago como o de 2010, quando a inventou.

Michel Temer tem uma extensa experiência parlamentar e faz um tipo ponderado e prudente, traços importantes num momento tenso como esse que o Brasil atravessa. A mudança de governo, deixando para trás as alucinações de Dilma Rousseff, mostrando um ministério à altura dos desafios e uma clara decisão de equacionar as contas públicas deverá produzir um substancial choque de credibilidade, começando a recuperar a confiança dos agentes econômicos dentro e fora do país. Sinalizar o compromisso com políticas sociais enérgicas, mas sensatamente concebidas, sem o viés populista e eleitoreiro da era Lula, e uma política externa realista, reforçarão a tendência positiva.

É possível antecipar algo a respeito do apoio no Congresso? Os fatores acima indicados serão suficientes para assegurá-lo, ou o fisiologismo logo ressurgirá, vendendo dificuldades para colher facilidades? Longe de mim apostar num quadro róseo, mas penso que pelo menos durante um ano o governo poderá contar com uma base do tamanho da que apoiou o impeachment (367 votos).

Na contramão da hostilidade generalizada em relação à classe política, tendo a pensar que os congressistas sentem o peso do compromisso assumido ao votar pelo impeachment e da responsabilidade que o momento exige. Tanto quanto qualquer cidadão, eles sabem que o Brasil precisa sair urgentemente do atoleiro em que o governo Dilma o meteu. Como toda sociedade, eles sabem que Temer assumirá não só o governo, mas um país em escombros. Uma massa falida.

Mas, claro, o fardo é pesado. Por muito tempo ainda, o Brasil enfrentará problemas ardidos, difíceis e interligados, e aqui não me refiro apenas às mazelas sociais que estamos cansados de conhecer, à insegurança generalizada, às deficiências educacionais, ao atraso tecnológico etc. Há muitas outras dificuldades, algumas ainda muito mal compreendidas pelos meios políticos e pensantes do país. Tentarei delinear uma delas.

D’abord, la politique” – primeiro, a política, como sentenciou De Gaulle. Venho há muito tempo defendendo que a estrutura política brasileira não corresponde às necessidades do país. Procuro imunizar-me contra toda forma de idealismo; não imagino que a vida política de algum outro país seja um mar de rosas. Digo apenas que a estrutura existente muito mais dificulta que ajuda o Brasil a saltar da mediocridade do “semi-desenvolvimento” econômico e social para o desenvolvimento de verdade.

Uma (não a única) consequência desta reflexão é a necessidade de uma reforma política séria, mas tenho três singelas razões para não me estender sobre esse tema. Primeiro, a reforma política não deve ser tratada como uma panaceia. Segundo, na entressafra política que o Brasil tem vivido há pelo menos duas décadas, são poucas as lideranças com força política, clareza de ideias e convicção para empreendê-la. Terceiro, com pouco mais de dois anos de mandato e uma montanha de problemas acumulados, é pouco provável que o governo Temer possa encarar tal desafio.

O problema principal parece-me transcender a atual composição das casas legislativas. Entre os atuais integrantes do Congresso Nacional, poucos têm condições de protagonizar de uma forma consistente os novos posicionamentos que se manifestam na sociedade. Dito de outra forma, o Brasil de hoje não tem uma elite política – um centro liberal – comparável ao que liderou o processo de redemocratização: gente como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Montoro, Covas e mesmo Roberto Campos e Delfim Netto, que à época ocupavam cadeiras na Câmara Federal.

O desafio, portanto, é refazer drasticamente a classe política, renovar uma parcela considerável da atual, estimulando o surgimento de parlamentares mais qualificados, mais abertos a outros entendimentos do país e a novos valores. Para alterá-la nessa escala, é evidente que estamos sem material humano.

O desaparecimento da elite civil do período militar e o consequente esvaziamento do centro parece-me ter ocorrido por três razões principais:

(1) vários de seus integrantes faleceram num curto espaço de tempo; daí eu ter me referido a uma “entressafra”;
(2) o prolongado estertor do regime militar – especificamente os seis anos do general Figueiredo – teve como consequência uma debilitação simétrica: de um lado, as Forças Armadas, sem fôlego e sem condições de renovar sua legitimidade, do outro, os líderes civis, desgastados por duas décadas de oposição apenas discursiva, sem acesso a posições de poder real;
(3) consumada a transição em 1985, no clima de ingenuidade e utopia que se instaurou e depositando esperanças excessivas na reintegração do sistema político por meio da Constituinte, uma grande parte da sociedade subitamente se encantou com Lula e o PT, passando a ver o aparecimento deles como a chegada do milênio, demiurgos da grande redenção nacional após cinco amaldiçoados séculos de história.

Naquele transe, o Brasil não tomou a nuvem por Juno. Fez pior. Julgou que o céu lhe enviara uma infinidade de bênçãos, quando na realidade o que de lá descia era uma nuvem de gafanhotos. No embalo da utopia, acolheu o PT como uma força política moderna, responsável e consistente, capaz não só de ocupar o centro, mas de efetivamente revitalizá-lo. Saldar os custos de tal equívoco não é algo que possamos fazer da noite para o dia.

Produzir uma geração de políticos que seja nova não só no sentido temporal, mas porque encarne de fato um novo modelo, não é uma questão trivial. Requer um reexame das concepções vigentes acerca da própria atividade política: de sua natureza, dos diferentes papeis de que ela se compõe e dos componentes éticos que deve conter.