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O que é conservadorismo?

por Lucas Pagani (05/04/2017)

O conservador entenderá que a tradição é dinâmica, conforme a sociedade evolui.

Russell Kirk

O que é conservadorismo? Seria a manutenção de um status quo? Conservar o sistema político? Ser a favor da moral e dos bons costumes? Temos milhares de definições, a maioria delas pautada pela esquerda política, mas conhecemos o que é, realmente, o conservadorismo?

Qualquer filosofia política que engloba um rótulo tão amplo deve ser estudado como um ordenamento complexo, isto é, com devida cautela, onde compreenda que não existem fórmulas simples e únicas para um problema. “Para todo problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada”, já disse Mencken.

Existem inúmeras fontes que, combinadas, resultam no conservadorismo. Seus pilares são baseados em uma visão complexa, das mais variadas fontes que chegam a formar uma identidade plural, onde o conceito torna-se amplo, podendo abranger vários significados.

Durante o século XX, no Estados Unidos da América, uma crise de identidade política era inevitável após grandes acontecimentos como a Primeira Guerra, a crise econômica de 1929 e a Segunda Guerra. Uma nova visão política era necessária para os novos (ou velhos) problemas que surgiram após grandes transformações no século da ideologia. O ideal liberal americano era quase único desde 1776. Era inevitável a discussão de uma nova unidade política, naquela época. O conservadorismo americano surgira como uma nova resposta aos problemas políticos americanos daquele período.

Russell Kirk, Richard M. Weaver, George Santayana e vários outros conservadores participaram de calorosos debates sobre o que seria o conservadorismo. Os pilares conservadores, de certo modo, foram identificados pelo pioneiro do movimento conservador americano, Russell Kirk. Dez princípios sustentariam a posição conservadora, a saber:

Primeiro, o conservador acredita que há uma ordem moral Duradoura[…]

Segundo, o conservador adere aos costumes, à convenção e à continuidade[…]

Terceiro, os conservadores Acreditam no que se pode chamar de princípio da consagração pelo uso[…]

Quarto, os conservadores são guiados pelo princípio da prudência[…]

Quinto, os conservadores prestam atenção ao princípio da variedade[…]

Sexto, os conservadores são disciplinados pelo princípio de imperfectibilidade[…]

Sétimo, os conservadores estão convencidos de que a liberdade e a propriedade estão intimamente ligadas[…]

Oitavo, os conservadores defendem comunidades voluntárias, da mesma forma que se opõem a um coletivismo involuntário[…]

Nono, o conservador vê a necessidade de limites prudentes sobre o poder e as paixões Humanas[…]

Décimo, o conservador razoável entende que a permanência e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade vigorosa.

Podemos notar que o conservadorismo não resume-se a uma ou duas linhas, como querem propor os mais variados dicionários linguísticos mundo a fora. Nas palavras de Scruton, podemos notar que “O negócio do conservadorismo não é corrigir a natureza humana ou moldá-la de acordo com alguma concepção ideal de um ser racional que fazem escolhas”.

A tradição é que se faz importante para um genuíno conservador. Todos os nossos valores são ligados a uma tradição compartilhada com nossos ancestrais. Nascemos já em um mundo existente, desenvolvido, dotado de valores, bases civilizacionais que vigoram desde muito tempo e continuarão vigorando muito após nossa morte. É onde crescemos e entendemos a sociedade como sociedade. É a nossa conexão entre os mortos e os vivos.

Essa tradição é descrita por Scruton como não sendo “um conhecimento teórico acerca dos fatos e das verdades; tampouco um conhecimento técnico comum”, mas como sendo

respostas que foram descobertas a partir de questões perenes. Essas respostas são implícitas, compartilhadas e incorporadas nas práticas sociais e nas expectativas inarticuladas. Aqueles que as adotam não são necessariamente capazes de explicá-las e ainda menos justificá-las. […] saber o que fazer no intuito de cumprir uma tarefa com sucesso, em que o sucesso não é medido por nenhum propósito exato ou preestabelecido, mas pela harmonia do resultado com as nossas necessidades humanas e nossos interesses. Saber o que fazer na vida social, o que dizer, o que sentir – essas coisas que adquirimos por imersão na sociedade.

Um verdadeiro conservador entenderá a comunicação entre os mortos e os vivos, ou como o poeta T. S. Eliot descreve: “A comunicação dos mortos se propaga, em línguas de fogo, para além da linguagem dos vivos”. Entenderá o que os seus ancestrais acumularam de conhecimento para que possa conservar aquilo que deve ser conservado.

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Um detalhe interessante é que o conservador entenderá que a tradição é dinâmica, conforme a sociedade evolui, incorporando novas instituições e novos pilares civilizacionais, necessitando dialogar com o passado para entender e proteger essas novas tradições, derivadas da ordem espontânea, das relações entre indivíduos de modo não dirigido, como teorizado por F. A. Hayek.

Não apenas Hayek, mas também o fundador da escola austríaca de economia, Carl Menger, descrevia que os fenômenos sociais seriam observados como

organismos naturais, uma imensa complexidade em seus detalhes, e, particularmente, uma grande multiplicidade de partes […] Toda essa multiplicidade, contudo, serve para a conservação, o desenvolvimento e a reprodução dos organismos como um todo.

Um conservador sempre estará no lado da prudência e da liberdade. Nunca do lado do agente centralizador. Menger argumentava que:

O erro daqueles que reduzem todas as instituições a atos de uma vontade comum positiva; no entanto, não nos oferece nenhuma solução clara para o nosso problema, apenas o evita.

Um dos pais do conservadorismo, Edmund Burke, era um advogado do livre comércio e da livre associação, chegando a dizer que “todas as regulações são, em sua natureza, restrições de alguma liberdade” (Speech…. on the Economical Reformation of the Civil and Other Establishments). Advogava em favor da caridade cristã, ao ajudar aos mais necessitados, mas advertia que interferir na subsistência do povo seria uma violação das leis econômicas e uma intrusão ilegítima da autoridade.

Como cita Leo Strauss:

A mudança, pondera Burke, é a “lei mais poderosa da natureza. Tudo o que podemos fazer, e que a sabedoria humana pode fazer, é precaver-se para que a mudança ocorra por etapas imperceptíveis”.

A base de uma ordem social orgânica é a fraternidade. E não há fraternidade forçada, apenas fraternidade voluntária, como já advogara Frédéric Bastiat na França do século XVIII.

Todo o alimento espiritual, por assim dizer, do movimento liberal americano vinha de fontes decididamente conservadoras – autores como C. S. Lewis, T. S. Eliot, William Faulkner, Ezra Pound e William Butler Yeats.

A luta contra o totalitarismo e a centralização é uma pauta conservadora, com raízes em uma tradição inglesa. A tradição política não pode florescer se não em um ambiente de liberdade e descentralização. O conservador é aquele que acompanha o progresso da complexidade social e conserva os fundamentos da civilização que fazem esse progresso acontecer. A frente conservadora é responsável por revigorar a alma contra o totalitarismo.

Problemas, em cada fase da história, mesmo que parecidos, compartilham de nuances diferentes, de contextos diferentes. O conservador, de fato, não irá dizer que existe uma solução estática e eterna para esse problema em todo momento da história, mas que a solução pode ser respondida através do ensinamento dos nossos antepassados, adaptados ao nosso tempo.

Ao vermos exemplos e os princípios do conservadorismo, entendemos que não seria fácil – ou melhor, quase impossível – uma definição rápida, simples e resumida desta posição política. O que podemos extrair do que é o conservadorismo são os seus valores e princípios norteadores.

“Onde está o conhecimento que perdemos na informação?

Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”

T. S. Elliot

Lucas Pagani

Estudante de Direito na Universidade Paranaense. É membro da Juventude PSDB.