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A igreja que está em Filadélfia

por Gabriel de Arruda Castro (23/04/2017)

A igreja que me acolheu nos EUA tem diversidade, mas importa-se pouco com ela. A unidade do Evangelho basta.

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Quando cheguei à Filadélfia para uma jornada de dois anos por aqui, assustei-me com a quantidade imensa de igrejas fechadas – transformadas em prédio de apartamento, galeria de arte ou templo budista. Depois, assustei-me com a quantidade de igrejas que talvez devessem ter fechado as portas e ainda não o fizeram.

A Filadélfia é fruto do experimento de William Penn, o pioneiro quaker que fundou a cidade e assegurou ampla liberdade religiosa quando, em outras colônias, nada semelhante existia. Mas, quando fui visitar igrejas para decidir qual frequentaria, percebi que algo não vai bem.

O que eu buscava deveria ser fácil de encontrar: uma congregação de rito batista, que pratique o Evangelho e não acredite ter descoberto na semana passada um trecho da Bíblia que ninguém havia notado em 2 milênios.

Fui à Primeira Igreja Batista da Filadélfia, que foi fundada 1698 e funciona em um prédio magnífico – que acaba de ser vendido. Não encontrei mais do que dez pessoas naquele domingo pela manhã. Para (quase) todos os efeitos, a igreja está morta.

Depois, visitei uma das muitas igrejas batistas negras na Filadélfia, talvez uma das maiores delas. São pessoas boas, e uma presença essencial em meio a comunidades com tantas ameaças. Problema: logo notei o quanto essas igrejas se transformaram em plataformas políticas para o Partido Democrata.

Quando Barack Obama declarou apoio à redefinição da ideia de casamento para incluir “casais” formados por pessoas do mesmo sexo, o presidente da principal convenção batista negra emitiu um comunicado dizendo: “Oro para que nós não permitamos que a posição do presidente a respeito da igualdade de casamento nos distraia ou nos faça deixar de votar nestas eleições”. Mais grave do que isso é o apoio a um partido que tem em sua plataforma a defesa do aborto. Uma amiga, negra mas nascida no Quênia, também estranhou a politização das igrejas negras. “É tudo ‘raça, raça, raça’”, ela me disse. Decidiram dar a César o que é de Deus.

E ao anjo da igreja que está em Sardes escreve: Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.

A Filadélfia também tem muitas igrejas evangélicas contemporâneas. Fui a uma delas no centro da cidade, que reúne um público jovem e funciona em um teatro. A música é excelente. Mas o tom da pregação é de autoajuda. Faltam substância, correção e admoestação.

Em outra igreja evangélica, frequentada majoritariamente por jovens brancos, uma das líderes exibia o símbolo do movimento LGBT e o pastor dedicou o sermão a demonstrar que conservadores e esquerdistas estão errados na mesma medida, o que é uma mentira sob qualquer aspecto.

E ao anjo da igreja de Laodicéia escreve: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

Também estive em uma pequena igreja mantida por grupo de asiáticos, muito educados e corretos, mas que evidentemente construíram uma igreja para seu próprio povo – e só.

Outra, também de maioria asiática mas voltada para os jovens, abusa dos modismos vazios.

Assisti até a uma missa do Papa. A celebração foi tocante e bonita, mas nossas divergências doutrinárias não são reconciliáveis por ora.

A Filadélfia também abriga a Christ Church, a primeira igreja Episcopal (separada da Anglicana após a Independência), que cogitei visitar porque é uma congregação histórica, do século 17, que foi frequentada por Benjamin Franklin e George Washington.

Fui olhar o website da igreja e desisti. Na seção de apresentação, o pastor, envergonhado, se penitencia pelo que, aparentemente, é o maior pecado que ele pode conceber: a falta de diversidade racial da igreja, predominantemente branca e rica. Jesus não é citado uma vez sequer, assim como não é mencionado no vídeo de apresentação da igreja.

Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres.

Até que conheci uma igreja pequena, não longe de casa. Uma congregação simples, com apenas algumas dezenas de membros e nada de refinado ou espalhafatoso. Um dos líderes da igreja foi missionário na França e no leste europeu, mas retornou há alguns anos – o seu próprio país, a sua própria cidade precisavam ser reevangelizados. “Este é um ato de rebelião contra a nossa sociedade”, disse ele, certa vez, ao celebrar a ceia. O pastor titular, irmão dele, é um fã de Harley Davidson que prega uma mensagem clara, direta e baseada na Palavra. Não há invencionices em termos de moralidade e, mais importante, a cada culto se lembra que Cristo é o caminho para a salvação.

E ao anjo da igreja que está em Filadélfia escreve: Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome.

A maioria dos membros é americana, incluindo uma ex-aluna de Princeton, uma jovem de família menonita e um professor de música na rede pública. Mas conheci fieis do Vietnã, da Ucrânia, de Camarões, de Botsuana, de Porto Rico, do Equador, do Líbano, da Irlanda do Norte. Um estudante de medicina de Cingapura. Um carteiro filho de indianos. Uma jovem de família muçulmana do Iraque. Um rapaz nascido no Brasil, adotado por noruegueses, criado nos Estados Unidos e casado com uma chinesa.

Esta é a diversidade que o pastor da Christ Church tanto quer, mas não tem nem vai ter porque é elitista sem notar e, se tivesse, ainda seria inútil porque lhe falta Cristo.

A igreja que me acolheu tem diversidade, mas importa-se pouco com ela. A unidade do Evangelho basta. A igreja – símbolo dos símbolos – funciona num salão nos fundos de uma igreja episcopal, de modo que o altar se posiciona literalmente no sentido contrário à nave principal. Um ato de rebeldia contra o Cristianismo acomodado e perigosamente mundano das metrópoles americanas.

A busca por uma diversidade artificial, que se empenha para não ofender as sensibilidades modernas e para isso abre mão de pregar a única verdade que realmente importa, não é apenas um sintoma de loucura: é um empreendimento fadado a fracassar. Clubes sociais já existem aos montes, com a vantagem de que, normalmente, acordar cedo no domingo pela manhã é facultativo. Não há igreja cristã sem Cristo.

A Deus o que é de Deus.

Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.